Eu acabei com Bojack Horseman ou Bojack Horseman acabou comigo?

Diane e Bojack em sua clássica posição

Eu não sei se acabei Bojack Horseman ou se Bojack Horseman acabou comigo? Uma série, famosa por debochar da rotina, vícios e hipocrisias de Hollywood, chegou na sua sexta e última temporada de forma muito bem sucedida, conseguindo superar-se a cada novo ano. É impressionante como o roteiro desenvolveu cada etapa dos seus personagens, especialmente de Bojack Horseman (dublado por Will Arnett), que finalmente conseguiu compreender as falhas da sua vida.

A série entregou, em seus dez episódios, ao longo das suas seis temporadas, arcos densos de Princesa Carolyn (Amy Sedaris), Diane Nguyen (Alison Brie), Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) e Todd Chavez (Aaron Paul), que também passaram por reflexões sobre as suas atitudes e de como chegaram até ali. Eu gosto muito da série, criada por Raphael Bob-Waksberg, por assumir desde o início a sua não perfeição, por me identificar com as tristezas, por não me entender como alguns dos seus personagens, por me questionar por que estou repetindo padrões que me deixam mal e, com tudo isso, compreender as dores que não são nossas, mas que se refletem em nós. De alguma forma, existe uma herança que, infelizmente, é difícil de se desvincular porque nos acostumamos e acreditamos que merecemos isso.

Os fantasmas do passado que Bojack não superou

Bojack Horseman consegue me deixar muito pensativa sobre muitas coisas que passam pela vida mesmo sendo uma animação ambientada em “Hollywoo”. E é difícil não ficar triste com a história do cavalo, ídolo da televisão americana, que se joga a uma vida irresponsável com drogas, sexo e o que tiver pela frente, e acaba influenciando, involuntariamente, a vida de todos que estão na sua volta. Neste acúmulo de erros, Bojack finalmente encontrou-se no meio deste limbo, pois não só nós sabemos, como ele também sabe que no fundo ele é uma boa pessoa e quer viver isso. Mas como seguir adiante quando todos apontam e lhe condenam pelos erros do seu passado? Existe realmente a chance de começar de novo? Tem como perdoar?

Como começar de novo depois de errar tanto?

A série surpreendeu em todas as suas temporadas com episódios que oscilam entre o formato original e outros que brincam com a narrativa, com ou sem diálogos, alterações nas linhas dos desenhos, uns com tom mais sérios, outros mais irônicos, e o mais legal de tudo isso é que você sente que conhece todos os personagens que estiveram ali com Bojack em suas seis temporadas. Não só o protagonista sofreu com as suas atitudes, mas os demais também tiveram seus dramas desenvolvidos e que não envolvessem o cavalo.

Princesa Carolyn aprende a dizer não nesta nova temporada

Princesa Carolyn, a própria personificação da mulher que sonha em dar conta de tudo, consegue encontrar as suas prioridades, Todd, o rapaz perdido entre as suas loucuras, finalmente encontra o seu caminho que não precisa ser como dos outros, Mr. Peanutbutter, o mais “good vibes” da turma encara o desafio de, pela primeira vez, viver sozinho sem estar em um relacionamento, até Diane, que assim como Bojack, veio de uma família desestruturada e com zero confiança em si mesma, para de fugir da sua verdade e entende que a sua depressão não tem cura e precisa encará-la um dia de cada vez.

Bojack encontra a paz que tanto precisava na sua última temporada

Bojack Horseman não tem um final feliz porque sabe que não existe um. A série soube brincar trazendo assuntos sérios e de um jeito respeitoso. E até poético, diria. Como uma das frases ditas por Todd: “O sentido da arte não é o que o artista quer passar e sim o que as pessoas interpretam”. Por isso, interpreto que não importa o que criadores quiseram passar com esta série, mas como é possível encontrar um pouco de luz dentro de si, mesmo que seja difícil de se chegar lá.

As seis temporadas de Bojack Horseman estão disponíveis na Netflix.

Essa vai só para quem é Fleabag

Phoebe Waller-Bridge é dona e proprietária de Fleabag

Fleabag foi uma das minhas melhores companhias recentemente. A série criada, escrita e produzida pela Phoebe Waller-Brigde, minha mais nova ídola, é como se fosse a sua melhor amiga da qual você pode ser a mais transparente possível. Ser a sua versão mais crua e sem filtro. Inclusive, ultrapassar limites. Gosto do programa por causa das falhas, vulnerabilidade e até mesmo da carência dos personagens. A protagonista Fleabag assume a linha de frente desta narrativa que nos mostra que para fugir da solidão toda pessoa se submete a muitas situações e relações desnecessárias.

Fleabag trata sobre a negação da solidão e o quanto fingimos estar tudo bem, quando lá no fundo, não queremos admitir o que estamos sentindo. Veja, por exemplo, a família da protagonista. Claire (Sian Clifford), a irmã de Fleabag, acredita ter a vida perfeita mesmo com um marido fracassado e um enteado perturbado. Além de achar que está no controle de tudo, quando na verdade, não. Já o Pai (Bill Paterson) acaba enrascado em um relacionamento forçado com a Madrinha das filhas, que se aproveita do luto da família para assumir o papel de madrasta. Sendo que era melhor amiga da Mãe das meninas. Um papel difícil, mas que só Olivia Colman consegue fazer perfeitamente.

Personagem de Olivia Colman é muito falsiane em Fleabag

Em uma série com apenas duas temporadas de seis episódios com pouco menos de 30 minutos cada, a história assume a ousadia de mesclar um drama complexo com nuances humorísticas graças a quebra da quarta parede feita pela protagonista. Por causa disso, é fácil acompanhar Fleabag porque ela encarna o clima do “melhor rir para não chorar” em meio a suas aventuras pelas ruas de Londres. E como ela dá o tom sarcástico da situação, a história não fica tão pesada porque ao compartilhar o momento, Fleabag também está fugindo da solidão da sua vida e nos colocando junto. Logo, nós também somos um personagem (aloca).

Phoebe Waller-Bridge tem um timing de roteiro muito bom ao modernizar questões femininas, ser sincera nas relações humanas e refletir a maturidade de uma mulher de 30 e poucos anos que ainda “não se encontrou”. Além dela ser uma ótima atriz que entrega uma personagem engraçada, frágil e esperta. O restante do elenco também é maravilhoso. Principalmente Sian Clifford, que é a irmã controladora e facilmente tirada pra frígida que precisa manter as aparências, e Olivia Colman que é a madrinha falsiane mais passiva-agressiva que já existiu. E ah, não poderia esquecer de Andrew Scott que interpreta o padre gato na segunda temporada, que não só é a pessoa mais fofa deste mundo como foi o primeiro a prestar atenção em Fleabag e fazer com que ela voltasse a ter os pés no chão.

Eu amo Andrew Scott em Fleabag

Phoebe tem razão em não dar continuidade a outras temporadas de Fleabag. A personagem principal encerrou o ciclo do qual estava passando, onde não queria encarar o luto da perda da mãe e da melhor amiga, e entendeu que precisava seguir em frente sozinha. Logo, até nós não teríamos mais utilidade ali. E somente neste recorte, já dá para evoluir e muito pessoalmente. A força da série está justamente em entender que tudo vai passar. Nenhuma dor é para sempre e está tudo bem.

As duas temporadas estão disponíveis na Amazon Prime Video.

Euphoria vai te deixar no chão

Zendaya está espetacular em Euphoria

Euphoria me despertou o interesse logo quando rolou um pequeno trailer durante a programação da HBO. Lá naquela época bombástica de Game Of Thrones. Apesar de ter receio de séries sobre os jovens atuais, Euphoria me parecia diferente. Minha intuição estava querendo dar uma chance para a série. E que belo acerto que eu fiz.

Criado por Sam Levinson, Euphoria traz um elenco jovem e promissor. A própria Zendaya, protagonista da história, mata a pau em todos os episódios. Especialmente no último. A série é a prova concreta de que a atriz é talento puro. Na real, a série toda é uma obra indescritível devido as tamanhas sensações que ela provoca. Com oito episódios envolvendo sexo, drogas, internet, saúde mental, relacionamentos abusivos e alguns crimes (rs), o roteiro escrito pelo trio Ron Leshem, Daphna Levin e Sam Levinson dedica-se a desmembrar o drama de cada personagem e isto é um dos maiores triunfos.

A série preocupa-se com os seus personagens a ponto de que nenhum dos seus conflitos passem despercebidos. Euphoria faz com que o público se importe com cada jovem. O roteiro tem uma humanização muito cuidadosa com cada um. Até mesmo no caso de Nate (Jacob Elordi), um dos personagens mais odiosos que uma ficção já criou, a série vai a fundo do histórico deste jovem branco, hétero, atleta, de classe média alta, acostumado a ter tudo e começa a ser desmascarado. E mesmo que você sinta raiva dele, você entende porque ele é assim e que, logo, a vida vai começar a dar voltas.

Indiferente e irônico

Antes mencionei sobre as sensações que Euphoria consegue transmitir. E isto faz parte do conjunto técnico envolvendo fotografia e edição, adicionado com o combo emocional do roteiro e atuação. Ou até melhor, pela narração de Rue. O tom indiferente + irônico da personagem nos conduz nesta narrativa que você não sabe se está abalado por causa da história ou porque você se identifica com aquilo. É muito fácil se deixar levar pelas viagens que Rue nos direciona, especialmente se a sua adolescência foi há pouco tempo, como é o meu caso.

Kat descobre no sexo a sua autoestima

Os temas que a série retrata não são inéditos, mas a abordagem é. E o melhor é que Euphoria não se rebaixa ao coitadismo, como poderia acontecer nos casos de nudes e vídeos de sexo vazados na internet, e consegue dar a volta por cima. Por exemplo, Kat (Barbie Ferreira) usou o sexo para se empoderar, enquanto que Cassie (Sydney Sweeney) dá de ombros quando a sua intimidade é exposta porque, afinal de contas, todo mundo ou já passou ou vai passar por isso.

Além de ter esta rápida absorção, o drama também expõe a solidão que os jovens passam e que dificilmente encontram um meio para desabafar. Uma herança que parece ter vindo facilmente dos seus pais, a exemplo do que Rue nos conta em cada episódio.

Nada é para sempre

Agora preciso falar de Rue e Jules (Hunter Schafer). A começar pela última, uma atriz trans que assume o papel de uma adolescente trans que está além desta questão de gênero. Em Euphoria, ela desfruta da sua juventude como bem entende e sonha alto. Ao contrário de Rue, que ainda precisa encarar e superar muitos problemas pessoais e familiares até se encontrar de verdade.

Rue sofre com a perda do pai, a pressão da mãe e com a visão que está passando para irmã mais nova. Ansiosa, a jovem desconta as suas tristezas nas drogas e entre idas a reabilitação e as tentativas de se manter sóbria, ela descobre em Jules uma nova razão de começar de novo. Já percebeu que tudo acontece em torno de uma segunda pessoa na vida de Rue?

Casal Rules é um dos poucos alívios durante a jornada emocional de Euphoria

A relação que mescla entre amizade e crush, “Rules” é o momento mais fofo de Euphoria. Apesar de achar que Jules não perceba o quanto é importante na vida de Rue, o casal é a maior representação que a série ensina ao longo dos seus oito episódios: você precisa aprender a deixar ir. Independente de que seja um relacionamento, uma reputação, um ideal, um sonho, uma morte ou uma pessoa, nada é para sempre. E quando nós somos jovens, parece que a eternidade é agora, não é mesmo?

Merlí e suas merlinadas

Se eu pudesse indicar uma série do catálogo da Netflix seria Merlí. O programa mostra a rotina do professor de filosofia Merlí Bergeron (Francesc Orella) que após ficar desempregado consegue uma vaga na escola o seu filho Bruno (David Solans) estuda e o que poderia se tornar constrangedor vira um caos total. Merlí não é um simples professor ou um homem formal. Ele é impulsivo, criativo, manipulador e sem um pingo de filtro na sua boca. E melhor, a sua vida é totalmente baseada em grandes mestres da filosofia.

Já no primeiro dia de aula, Merlí tira todos os alunos da sua zona de conforto e os leva para uma aula dentro da cozinha da escola e lá coloca os jovens na mesma posição que os peripatéticos, discípulos de Aristóteles, que costumavam aprender as teorias do filósofo: caminhando e refletindo. Referências de outros teóricos não são poucas dentro da série. Só pelo fato de Merlí provocar a mente dos seus alunos foi o bastante para conquistá-los à primeira vista. Apesar da relutância dos demais professores da escola, cada um vai percebendo que toda “merlinada” que o protagonista causa não é só para o bem dos outros, mas urgentemente necessário.

Os ensinamentos nada ortodoxos de Merlí são o gatilho para que os jovens se inspirem nas filosofias e comecem a praticá-las em suas vidas. A série seduz muito com as reflexões propostas e melhor ainda, coloca questionamentos provocantes sobre pequenos detalhes que vão desde relacionamentos amorosos, comportamento, a sociedade e até os sentimentos. A essência do programa, claro, fica em cima do professor Merlí que tem uma personalidade difícil que se mantém fortemente durante as três temporadas, mas que volta e meia apresenta as suas fragilidades. Ele é o cara que muda com palavras a vida de colegas e alunos tentando tirar a máscara da hipocrisia que os sufoca. E aí está a grande lição do personagem que é trazer a verdade para todos, indagar a si e os outros e abrir os olhos para o mundo.

Eu poderia classificar Merlí como uma Malhação com Filosofia. Porque apesar da temática filosófica ser o grande atrativo da série, a narrativa é leve e gostosa de acompanhar. A turma dos alunos estão no ensino médio e passam por situações universais como virgindade, sexualidade, problema com os pais, bullying e etc. No entanto, o roteiro não subestima nenhum drama e nem os trata como crianças. Eles conseguem evoluir a cada episódio e com muito estímulo de teorias aprendidas na sala ou onde o Merlí tenha dado aula, os personagens são tratados com maturidade, respeito e sinceridade como toda juventude deveria ser educada.

Merlí é um estímulo para os que gostam de continuar digerindo uma série depois de assisti-la. Merlí é excitante para quem gosta de chutar o balde e sair do seu quadradinho. Merlí é tudo o que você precisa para entender o mundo.

Nota: ★★★★ 

Category is… Pose!

Pose se tornou uma das minhas séries favoritas do momento. Criada e produzida por ninguém menos que Ryan Murphy (Glee, American Horror Story, American Crime Story), o programa tem como principal atrativo os famosos bailes produzidos pela comunidade LGBT dos anos 1980 em Nova York. Aqueles mesmo que RuPaul tanto se inspira em Drag Race ou o próprio documentado em Paris Is Burning. Felizmente, a série é muito mais que os desfiles nas passarelas e trouxe dignidade para aqueles que sempre foram rejeitados durante a vida. Isto é bem exemplificado após uma cena de discriminação em que a personagem Lulu (Hailie Sahar) desabafa dizendo que existe uma cadeia social onde todo mundo precisa de alguém para fazê-los sentirem-se superiores. Começando pelas mulheres, negros, latinos, gays, até chegar na parte mais baixa que são os transexuais, segundo Lulu. Porque mesmo dentro da própria comunidade LGBT, os transexuais são vistos como aberrações. Mas Pose chegou para mostrar que este grupo tem muito a nos ensinar sobre o amor ao próximo.

Tudo começa quando Blanca (MJ Rodriguez) descobre que está infectada pelo HIV, justo na época que a epidemia era assustadora, e resolve sair da Casa Abundance, comandada por Elektra (Dominique Jackson). Já Elektra enxerga a saída da sua pupila como um ato de ingratidão e rivalidade. Mas Blanca cansou de ser sugada pelas ordens de sua “mãe” e resolve criar a sua própria casa. Batizada como Casa Evangelista, ela acolhe Damon (Ryan Jamaal Swain), Ricky (Dyllón Burnside), Papi (Angel Bismark Curiel) e Angel (Indya Moore). Cada um possui uma triste história de abandono, mas que aos poucos, eles vão criando um lar para esta família que escolheram para chamar de sua.

As chamadas Casas são, na sua maioria, abrigos para gays que eram expulsos dos seus lares. O que basicamente acontece com todos os personagens, mas ali também se torna um espaço para criatividade. E com isso, eles exploram isso no único lugar onde são exaltados por serem do jeito que são: os bailes. Encontrar o seu refúgio em um mundo onde você não é bem-vindo é a principal essência da série.

Angel, Damon e Blanca da Casa Evangelista

Pose consegue ir além desta disputa de moda nos clubes noturnos. Na época, a epidemia da AIDS gerava medo na população. Principalmente nos gays. O que claro, culminou ainda mais no preconceito contra eles. A série aborda este assunto com uma sensibilidade incrível e com toque necessário para conscientizar sobre a doença. O episódio Love Is The Message é o mais emocionantes da temporada que alcança tudo que Ryan Murphy quis trazer com esta série. Nestes pontos, Pose mostra todo o amor que o mundo precisa e enriquece nosso tempo com gestos simples de solidariedade.

O requisito do amor impossível ficar a cargo de Angel, uma jovem prostituta trans, e Stan (Evan Peters), um executivo pupilo de Donald Trump. Ela, um doce de menina, se apaixona pelo rapaz casado e com duas filhas. Apesar da química evidente entre os dois, as obrigações sociais deste hétero, branco e de classe média falam mais alto quando não consegue decidir o que quer para sua vida, já que sempre existiu alguém para lhe dizer o que fazer.

Apesar de Blanca ser a personagem mais forte e importante, há de se considerar que Pray Tell (Billy Porter) rouba a cena sempre que pode. O anfitrião dos bailes é a voz da razão dentro destas Casas. A energia carismática, mas ao mesmo tempo irônica, faz com que toda pessoa se sinta poderosa enquanto desfila e preencha todo vazio com a sua forte narração. Ou maldosa se o look não for digno de 10. Além dele, Dominique Jackson possui uma dominação constante em cena. Ela lembra uma Naomi Campbell madura, mas única. E a sua personagem tem a melhor reviravolta. MJ Rodriguez podia parecer insegura no início, mas agora a sua personagem conquistou o espaço que merecia. O amor que ela tem por seus filhos é inspiradora e isto comprova que ser mãe é dar à luz de muitas formas.

Pose é uma série necessária e inclusiva, visto que o elenco é o maior com artistas gays ou trans da televisão americana. A narrativa é clássica e dramática, e os episódios recheados de novidades que fazem com que a história não fique trancada. Nenhum episódio ficou devendo. E se ficou devendo, foi apenas pela vontade de assistir mais para também fazer parte desta festa. Porque se uma coisa a série pode te ensinar é viver, amar e arrasar!

Nota: ★★★★★

Comédias delicinhas para hora do almoço

Não é de hoje que eu me acostumei a estar sempre assistindo algum programa durante o meu horário de almoço. Tive uma infância solitária e para não ficar no total silêncio da minha casa, enquanto minha mãe trabalhava, sempre estive acompanhada de uma televisão por perto. Logo este costume cresceu junto comigo e pelo menos, até o dia de hoje, eu gosto de assistir alguma coisa enquanto estou tendo o momento feliz da tarde. E graças à Netflix, tem muito seriado delicinha para se divertir nesta hora do dia, que às vezes tende a ser rápido, antes de voltar a encarar a vida lá fora. Trouxe alguns dos meus seriados favoritos para compartilhar caso você aí que está passando o olho no meu blog esteja procurando alguma coisa diferente e rápida para assistir seja na hora do almoço ou em qualquer outra hora do seu dia.

Brooklyn Nine-Nine

A série foi ganhadora do Globo de Ouro de 2014 e retrata o cotidiano em uma delegacia de polícia. Os personagens são a alma do lugar e cada um carrega uma identidade singular e que é de fácil comparação a algum colega seu no trabalho. Jack Peralta (Andy Samberg) é o protagonista da série e a principal cola entre seus colegas do esquadrão. Ele é o típico piadista e tagarela da turma, porém eficiente no trabalho. Logo viu no Capitão Holt (Andre Braugher) a figura paterna que nunca teve e aí nasce o desafio de encarar a chegada do seu novo chefe como amadurecimento tanto pessoal quanto profissionalmente. Esta união entre os dois personagens é cômica, mas ao mesmo tempo carrega um significado importante para alguém que precisa de uma referência e também para quem precisa repassar as suas experiências adiante.

A série, no geral, tem esta troca entre os demais personagens, e mesmo com o tom debochado da história, nenhum episódio desperdiça o tempo e sempre traz a sensação de ter passado um momento entre amigos. Brooklyn Nine-Nine ainda conta com gente incrível como Terry Crews, interpretando sargento fisiculturista que é um amorzinho, Melissa Fumero e Stephanie Beatriz trazendo a representatividade latina e feminina dentro da polícia, e Chelsea Peretti e seu humor peculiar que ninguém mais neste mundo poderia substituir ou superar. A série foi renovada para sexta temporada e deve estrear só em 2019.

Unbreakable Kimmy Schmidt

Eu não faço a mínima ideia de como fui parar nesta série, até porque a sinopse não me foi nenhum um pouco atraente. Kimmy Schmidt (Ellie Kemper) foi sequestrada quando tinha 15 anos e viveu até aos 30 aprisionada por um pastor em um cativeiro com mais três mulheres. Quando foi libertada, ela tem que reaprender a socializar com o mundo e recuperar o que perdeu nos últimos anos. A história é temperada com muito humor sarcástico devido as tragédias que Kimmy viveu, e ainda viverá dentro da série, mas ao mesmo tempo traz a positividade que a segurou na sua época de prisioneira. O fato do programa querer meter o dedo na ferida dos traumas de Kimmy é uma maneira de ajudá-la a superá-los. E para isso, ela vai contar com muitas pessoas que vão querer se aproveitar da situação, mas a ingenuidade da moça vai fazê-los mudar de ideia.

Começando com Titus Andromedon (Tituss Burguess), um ator desempregado que busca o sucesso e trabalho à sua maneira. Ele recebe Kimmy em sua casa após ver nela a possibilidade de um retorno financeiro, mas graças ao destino, os dois criam uma querida amizade. Neste meio, surgem Jaqueline White (Jane Krakowski), uma socialite que se divorcia e tenta manter as aparências e Lillian Kaushtupper (Carol Kane), uma velhinha muito doida, mas que sabe ser útil na história. No geral, Unbreakable Kimmy Schimdt trouxe debates atuais, principalmente no que remete ao machismo e abusos, e que sabe usar o humor afiado para cutucar diversas situações dentro da nossa sociedade. A série sabe ri de si mesma e faz com que a vida não pareça tão dura lá fora. O programa estreou a sua última temporada no Netflix e a dividiu em duas partes. A primeira já está disponível e a segunda chega na plataforma em janeiro de 2019.

Chewing Gun

A série chamou a minha atenção no momento em que vi uma imagem da personagem Tracey (Michaela Coel) rezando para um pôster da Beyoncé. O programa surgiu na época que a Netflix  ainda engatinhava nas suas produções originais. Então a criatividade borbulhava a mil naquela época. Mas enfim, a história é narrada pela jovem cristã Tracey, que aos 24 anos decidiu perder a sua virgindade a qualquer custo com o seu noivo Ronald (John McMillan), que a enrola há seis anos e nem ao menos um beijo eles tiveram. Claro, tudo isto é mantido a aparências visto que a menina vive em uma comunidade pobre de Londres e a sua mãe (Shola Adewusi) é uma fervorosa religiosa que quer manter as filhas longe das tentações do diabo.

O maior charme de Chewing Gun é a imprevisibilidade que a história nos oferece com a diversidade de personagens inseridos. Além dos absurdos que Tracey se envolve. Ela quer fugir da moralidade que a sua mãe prega e quer descobrir os prazeres que a vida pode lhe proporcionar fora das páginas da bíblia. É fofo o modo como a personagem trata a sua família, mas reconhece que aquilo não a faz feliz e que precisa batalhar sozinha pelos seus objetivos. A série traz reflexões sobre a descoberta da sexualidade, mas não torna isto vulgar ou didático. Na real, torna tudo divertido e sem vergonha. Escrito pela própria Michaela, o roteiro é esperto para fugir da obviedade e traz o tema em diferentes formas para lidar com uma boa dose de ironia. Além de abordar outros assuntos como a desigualdade social, machismo e questões étnicos-raciais. Infelizmente, Chewing tem apenas duas temporadas e não há esperanças para uma terceira tão cedo.

Bojack Horseman

A série não é muito delicinha para os fãs de comédias fáceis. O programa é um extra nesta lista se você curte um dramédia que seria a melhor definição do que é Bojack Horseman. A animação retrata Hollywood repleta de humanos e animais antropomórficos vivendo lado a lado. Entre eles, está o famoso ator dos anos 1990 Bojack Horseman (dublado por Will Arnett) que tenta voltar a relevância social ao contratar a jovem Diane (Alison Brie) para ser a sua ghostwritter em uma biografia. Enquanto relembra a sua trajetória, ele tenta voltar aos holofotes com a ajuda da sua agente Princesa Caroline (Amy Sedaris) e sobrecarrega o amigo Todd (Aaron Paul) com seus dramas e tarefas.

O cenário é composto por celebridades decadentes e personalidades que enxergam qualquer oportunidade como lucro. A série é repleta de críticas sobre o universo fútil dos famosos e seus egos carentes, mas também abre espaço para mexer com o vazio existencial que assombra estes ícones. Como é uma animação sobre personagens meio-humanos e meio-animais, dificilmente vai querer sensibilizar o público com estas reflexões, mas é possível te deixar abalado.

O programa só evoluiu ao longo das suas quatro temporadas. E mesmo sendo algo para não ser levado a sério, ele consegue manter uma narrativa que aborda questões como depressão, dependência química, solidão e problemas familiares – só para citar algumas – em um nível maduro. Claro, mantendo o humor sarcástico e bem sem noção, a história tem uma carga dramática e realística devido a proximidade íntima que acontecem em muitas situações. Mesmo sendo ambientado em uma Hollywood egoísta e falida, é possível encaixar Bojack Horseman em nossa vida. A quinta temporada estreia em agosto na Netflix.

Feud: Bette and Joan ★★★★★

Quando Feud: Bette and Joan foi anunciado como uma série que retrataria os bastidores do filme O Que Terá Acontecido A Baby Jane? (1962), em que estrelavam Bette Davis e Joan Crawford, duas atrizes que se odiavam profundamente, eu estava esperando uma série de comédia. Já que pelo teor dos trailers com uma trilha cômica e mostrando cenas um tanto hilárias, achei que a série mostraria esta rivalidade de forma mais leve. Mas não! A série me surpreendeu e muito ao dar um olhar mais dramático e respeitoso a história de Bette e Joan. Afinal, a gente não percebe como estamos acostumados a colocar uma mulher contra outra só para ver faíscas de brigas e como isto rende um entretenimento barato para os outros. Uma coisa é você simplesmente não simpatizar com outra pessoa e isto é normal, e está tudo bem isto acontecer. Agora, promover uma eterna batalha de egos só para render público e dinheiro para Hollywood, aí é muita baixaria.

Na série, Bette (Susan Sarandon) e Joan (Jessica Lange) já estão afastadas da mídia por um bom tempo. Tem a questão da idade. Ambas estão velhas e para Hollywood, elas já não são consideradas atrativas para um filme. Também, naquela época de 1960, o cinema ainda era o grande painel onde os artistas mais importantes estavam em cartazes. A televisão era um lugar para os sem talentos. Por isso, era raro quando algum ator ou atriz migrarem para produções na TV. Bette e Joan foram as rainhas do cinema nos anos 1930, 40 e 50. Uma era extremamente talentosa e ganhadora de dois Oscars. A outra foi considerada a atriz mais linda de todos os tempos e era desejada para estar nas telas por causa disso. O que faltava em uma, tinha na outra. E as duas sempre se odiavam por causa desta comparação, que os outros faziam, e que infelizmente não poderiam corresponder. Cansada de não obter mais trabalho, Joan Crawford foi atrás de um roteiro em que poderia estrelar conforme a sua idade permitia. Encontrou o livro O Que Terá Acontecido A Baby Jane? e não poderia ter sido a melhor história para ela e sua rival, Bette Davis, terem a sua volta aos cinemas. Mas não foi fácil conseguir convencer Bette e nem do então diretor do filme, Robert Adrich (Alfred Molina) a entrarem no projeto devido ao risco de ter duas mulheres velhas em um longa com um tema tão macabro. Mas quem viu uma oportunidade foi o produtor Jack Warner (Stanley Tucci) em lucrar em cima da famosa rivalidade das atrizes e provocar ainda mais brigas entre as duas para atrair público para ver o resultado final deste embate.

Idealizado pelos produtores Jaffe Cohen, Michael Zan e Ryan Murphy – o mesmo de American Crime Story: The People vs O.J. Simpson – Feud exibe duas histórias sobre dor, ser mulher e solidão. É muito interessante como a série proporcionou que víssemos como a indústria cinematográfica é ingrata com suas estrelas e principalmente como quem sofre e continuam sofrendo são sempre as mulheres. Por se tratar de um meio machista e sexista, Hollywood era muito severa com atrizes mais velhas ao colocarem elas para fora do jogo quando muito já foram responsáveis pelo sucesso de um filme e também por marcarem história no cinema. E também por sempre a submeterem a papéis insignificantes ou convencionais como a mãe louca, a avó morrendo ou uma bruxa má e etc, além de que Hollywood não apostava também em mulheres assumindo a direção de um filme ou um cargo mais importante em um set de filmagem. Tudo isso influenciou para que Bette e Joan fossem as maiores vítimas deste preconceito todo.  A série se mostrou extremamente importante em exibir casos particulares das atrizes e dos demais coadjuvantes para que fosse compreendido esta dor que é ser mulher em um meio tão competitivo e dominado pelos homens. O que não difere de nenhum outro lugar do mundo. Se for abrir o olho em volta, a situação pode se repetir sem que seja em um set de filmagem ou em uma cerimônia do Oscar. As mulheres estão sempre tendo que dar o dobro para ter o mesmo reconhecimento que um homem. E a idade continua beneficiando ainda só os homens, já perceberam isso?

Outro detalhe belíssimo que Feud produz é abordar mais o lado de Joan Crwaford do que de Bette Davis como forma dar uma nova chance para esta estrela tão ofuscada por todos de contar a sua história. Se você começa achando que ela é muito mimimi, depois percebe que ela foi a mais abandonada por todos. A série abre espaço para que finalmente Joan possa ser celebrada e respeitada como todas as atrizes da época de ouro de Hollywood. Jessica Lange, responsável por Joan, é uma reencarnação daquele glamour todo da época. Sem contar que tanto ela quanto Susan Sarandon conseguiram ao mesmo tempo darem o seu perfil para os personagens e ficarem idênticas a Bette e Joan. Porém, Susan consegue nos espantar ainda mais com sua performance e ao se fantasiar de Baby Jane, você percebe que Bette Davis está ali, na alma da atriz. Mamacita (Jackie Hoffman) é a personagem mais carismática e feminista da série toda! Ela é responsável pelo discurso empoderado apontando estatísticas de que a população feminina estava aumentando na época nos Estados Unidos e que com isso um novo público seria formado para o cinema. Logo, seria preciso que mais filmes com e para mulheres fossem produzidos no futuro.  E não é que ela estava com a razão? Mamacita é a mulher mais forte, inteligente e sensível de Feud e que se mostrou muito necessário para que não só Joan colocasse os pés nos chão, mas também para nós que assistíamos.

Feud: Bette and Joan é uma série feminina muito importante. Porque como apontei antes, a série fala muito do universo da mulher e como é difícil segurar vários papéis que a vida nos coloca. Assim como é difícil ver as chances diminuindo conforme a sua idade vai aumentando. Bette e Joan poderiam ter tido uma vida muito menos dolorosa e solitária se o mundo não fosse machista. Mas como Mamacita previu, o mundo ainda será todo nosso.