Pacarrete: uma artista que implora pelo seu ato final

Marcélia Cartaxo ganhou o Kikito de Melhor Atriz em 2019

O filme cearense dirigido por Allan Deberton foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Gramado de 2019. Com oito kikitos, incluindo Melhor Filme Popular pelo Júri oficial e Melhor Atriz para Marcélia Cartaxo, a produção é uma adorável ranzinza, assim como a sua protagonista. 

Pacarrete (Marcélia) quer dar um presente a cidade de Russas, interior do Ceará, no aniversário do município. Assim como Paris ganhou a Torre Eiffel nos 100 anos da Revolução Francesa, a moradora também quer presentear o lugar que, infelizmente, não a valoriza como deveria. A já aposentada dos ofícios de bailarina e professora, luta para manter a sua arte viva atrás dos saudosismo do seu passado triunfante ao mesmo tempo que cuida da irmã adoecida. Como se dependesse daquilo para se manter sã, Pacarrete, no seu jeito mais caricato e gritona de ser, não se deixa abalar pelas críticas, piadas e perdas que vai encontrando pelo seu caminho.

A arte e o idoso desvalorizados

Pacarrete simboliza o desprezo pela arte no Brasil

Pacarrete simboliza o que mais o Brasil subestima: a arte e o idoso. Se por um lado, a sociedade coloca a terceira idade para escanteio, por duvidar da sua capacidade e por achar que não tem mais o que acrescentar – basta ver quem diz que o coronavírus só vai matar velho – a mesma não quer saber ou não tem tempo de apreciar uma cultura diferente. O filme é o puro retrato destes dois personagens que sofrem com o descaso do tempo e das pessoas. 

Pacarrete não é uma mulher fácil de lidar, e a sua personalidade ajuda alimentar o imaginário da população por causa das suas roupas, linguajares e comportamentos que pararam no tempo, assim como ela. A paraibana Marcélia Cartaxo cria um impacto com sua Pacarrete por causa da estranheza que o seu comportamento gera à primeira vista. Mas, se no início a artista pode parecer irritante, ao longo da jornada, a atriz conquista pela sua interpretação frágil e humana desta senhorinha que foi inspirada na vida real de Maria Araújo Lima, uma professora de balé, que foi vizinha do diretor Allan Deberton durante a sua infância. 

O diretor faz da ranzinza Pacarrete uma artista que implora pelo seu ato final. Um dos diálogos mais doem de ouvir da personagem é quando confessa que morreu e esqueceram de lhe avisar. “Acho que é por isso que eu grito, grito tanto que ninguém me ouve.” Mas a eterna bailarina vai encontrar, à sua maneira, um jeito de fazer o seu show continuar. Mesmo que ninguém a escute. 

Pacarrete fez sua pré-estreia no festival online promovido pelo Espaço Itaú Play.

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