Maratona Oscar 2019: Parte 1

Yalitza Aparicio “brincando” de morta em Roma

Estou de volta! Desta vez vou comentar sobre os últimos filmes que assisti e que estão indicados ao Oscar 2019. A minha maratona Oscar encerrou mais cedo este ano, pelo menos na categoria de Melhor Filme, e por isso vou resumir os principais destaques destes longas e de outros indicados na ordem de preferência. Começando com os meus preferidos:

Roma ★★★★

Roma, filme dirigido por Alfonso Cuarón, é pura poesia filmada onde Cleo (Yalitza Aparicio), uma empregada doméstica, ganha protagonismo em meio a sua solidão. Com planos longos e totalmente em preto e branco, o longa mistura simplicidade e ousadia por causa da sua fotografia que equilibra o clima nesta história que consegue despertar empatia ao tratar os sentimentos de uma mulher pobre, sozinha e confusa com muita sensibilidade, o que raramente acontece para personagens do gênero.

Eu gosto muito de Roma por causa deste espaço dedicado a uma mulher que vive para servir aos outros e nunca a si mesma, onde ela enfrenta silenciosamente momentos comuns, mas que ninguém se importa de perguntar “quer conversar?”, onde ela tem que se preocupar com a roupa das crianças da patroa enquanto enfrenta a maternidade, e que por mais que a vida se repita, ela vai continuar nesta batalha por conta própria. O que nos leva para uma das cenas que resume o filme todo quando a patroa de Cleo, Sofia (Marina de Tavira), desabafa: “Estamos sozinhas. Digam o que quiserem, mas nós, mulheres, estaremos sempre sozinhas”.

Roma mexeu muito comigo pois me remete a muitas histórias que minha mãe me contava quando trabalhava na “casa dos outros” na sua adolescência e aí tu percebe o quanto estas histórias são universais, o quanto personagens da ficção conseguem dialogar com o mundo real e nos exibir o que só ouvimos da boca dos outros. É tudo uma questão de interpretação, do olhar que você dá para aquela pessoa que por mais despercebida, carrega o mundo dentro de si e não tem com que dividir. Roma está indicado a 10 categorias no Oscar, incluindo Melhor Direção e Filme.

Cafarnaum ★★★★★

Zain Al Rafeea assume papel difícil, mas entrega realidade pura

Dirigido por Nadine Labaki, uma das duas únicas mulheres diretoras com um longa indicado ao Oscar, Cafarnaum explora a realidade de uma forma tão triste, caótica e cruel que se torna difícil seguir em frente depois da sessão. O longa mostra o pequeno Zain (Zain Al Rafeea) sobrevivendo em meio a brigas com os pais, aos diversos trabalhos que assume para sustentar a família e a pobreza que o enquadra. Sua única fonte de alívio em meio as dificuldades é a sua relação com a irmã que, infelizmente, é forçada a se casar com apenas 11 anos. Isto é o ápice para que Zain se revolte e saia de casa. Mas isto tampouco ajuda a melhorar a sua vida.

O filme é excelente, apesar do seu recheio ser tão avassalador, que faz você abrir os olhos sobre a miséria que existe em todo lugar do mundo. Ou melhor, sobre a miséria humana que existe em cada canto. O jovem ator Zain carrega literalmente o filme nas costas e faz isso de forma tão grandiosa que assim como seu personagem, você fica impactado com tanta maturidade para uma criança. O mesmo digo para o companheiro em cena de Zain, o bebê Yonas (Boluwatife Treasure Bankole), que trabalha numa naturalidade que só deixa o filme ainda mais emocionante.

É só tragédia atrás de tragédia, mas Cafarnaum não vem com intuito de entreter e nem trazer finais felizes para uma história que acontece em todos os cantos do mundo. Cafarnaum é um filme que dói, mas é urgente para mostrar os nossos privilégios, para nos tirar das bolhas e principalmente, para nos ensinar a parar de julgar aqueles que infelizmente não possuem escolhas na vida. Cafarnaum está indicado somente em Melhor Filme Estrangeiro, mas facilmente poderia estar entre os principais, como Melhor Ator para Zain Al Rafeea que dá um banho de atuação em comparação aos demais indicados deste ano.

Pantera Negra ★★★★★

Chadwick Boseman interpreta o primeiro super-herói negro nos cinemas

Pantera Negra é um filme que dispensa maiores apresentações. Dono de todas as bilheterias do ano passado, o filme dirigido por Ryan Coogler veio para fazer história no Cinema. Além de trazer o primeiro super-herói negro às telas, o longa também trouxe uma riqueza em termos de narrativa, referências da cultura africana e mudou os rumos nas tradicionais batalhas entre mocinho e vilão.

Aqui não existe “cara mal” que quer roubar o trono, ser rico e se vingar de uma vida sofrida. O papel do antagonista Killmonger, interpretado brilhantemente por Michael B. Jordan, traz motivações pessoais que são resultados de ações sociais e até políticas que o personagem sofreu ao longo da sua existência. A figura de T’Challa (Chadwick Boseman) representa exatamente o que ele luta contra e quer virar o jogo, fazer a sua justiça. Isso já torna o filme de uma complexidade que só engrandece o enredo.

E não só por isso. Pantera Negra ganha diversos pontos por dar um lugar digno para suas personagens femininas. Perceba a autoridade que Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Letitia Writh e Angela Bassett atuam em cena e disputam de igual para igual com o restante do elenco. Outra conquista que somente um super-herói como Pantera Negra poderia conceder aos fãs sedentos por representatividade. Pantera Negra está indicado a seis prêmios no Oscar, entre eles, Melhor Filme.

Homem-Aranha no Aranhaverso ★★★

Homem-Aranha não para de se reproduzir e de avançar com a inclusão nos cinemas

Eu sou uma pessoa totalmente alheia ao universo dos quadrinhos e super-heróis, mas me surpreendi com a tamanha diversidade que Homem-Aranha consegue oferecer em suas dimensões. Foi o caso deste Homem-Aranha No Aranhaverso que foi uma boa experiência, digamos até alucinógena. Se um filme, em suas condições normais, consegue deixar os olhos secos com tantos efeitos especiais, esta animação dirigida por Peter Ramsey, Bob Persichetti e Rodney Rothman dá um verdadeiro giro com tudo que tem em mãos.

O filme é outro avanço que Marvel deu nos cinemas, não só pela criatividade e brincadeiras que o roteiro entrega, mas novamente, com a representatividade. O protagonista desta vez fica encarregado com um adolescente negro que precisa crescer diante de desafios e segredos que descobre ao longo da jornada, o que inclui a desilusão com parentes queridos e com os grandes poderes que adquire que vão além dos super-poderes aracnídeos.

A animação dá um gás diferenciado no gênero de super-heróis no cinema e trabalha para que nada seja gratuito. É uma história sobre amadurecimento e responsabilidades que somente os nossos ídolos, sejam eles quem forem, podem nos ensinar. Homem-Aranha no Aranhaverso concorre em Melhor Animação.

5 comentários em “Maratona Oscar 2019: Parte 1

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