Poxa seu Oscar, assim não dá para te defender!

Green Book foi o principal vencedor do Oscar 2019

Depois de uma cerimônia cheia de conquistas históricas, a vitória de Green Book – O Guia só representa que o Oscar pode ter avançado em diversas questões, mas deu dez passos para trás com a última estatueta da noite. Para começar, perceba a expressiva presença de homens brancos para receber o prêmio de Melhor Filme de uma história que trata sobre racismo. Apenas duas pessoas negras estão no palco: Mahershala Ali, que inclusive levou prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pelo mesmo filme, e Octavia Spencer, uma das produtoras.

Uma das alegrias da noite: a vitória de Spike Lee

Ao contrário de Infiltrado na Klan, que critica o preconceito racial enraizado, e Pantera Negra, que empodera a cultura negra, Green Book – O Guia é uma fórmula pronta de “sessão da tarde”, por isso que agrada a maioria. Mas é uma armadilha. Tratar como entretenimento um tema que protesta por respeito e igualdade demonstra completa alienação das mudanças que estão acontecendo.

Tudo bem que é uma reprodução de uma época diferente de hoje, mas por que escolher um homem branco para protagonizar? Por que homens brancos são roteiristas e dirigem um longa, do qual, eles não possuem “lugar de fala”? O filme não reflete os problemas sociais e não aponta estes erros e maquia um final feliz para aliviar a culpa histórica com os negros. O que parece ter sido a escolha pacífica, só mostra que a Academia precisa continuar insistindo na “desconstrução” e não empacar no meio do caminho.

Ruth e Hannah com os seus merecidos prêmios

Apesar do desabafo inicial, a cerimônia do Oscar foi uma das mais objetivas graças a ausência de um anfitrião e focado no que mais interessa: a entrega das estatuetas. A introdução feita pelo trio afiado de Bruna Thedy, Amy Phoeler e Tina Fey foi um dos pontos alto e mostra que qualquer uma das comediantes segurava fácil a apresentação oficial da noite. Além disso, o Oscar acertou com a sua distribuição de prêmios. Esta foi a primeira edição no qual duas mulheres negras foram consagradas, em 91 anos de premiação, em duas categorias: Melhor Figurino e Melhor Design de Produção para Ruth E. Carter e Hannah Beachler, respectivamente.

E não para por aí. Estes prêmios foram decorrente do trabalho em Pantera Negra, o primeiro longa de super-herói (e o primeiro super-herói negro no cinema) indicado a Melhor Filme e, claro, é o primeiro da Marvel na categoria. Outros destaques merecidos da noite são: Mahershala Ali realizou outro feito ao ser o primeiro negro premiado duas vezes na categoria Melhor Ator Coadjuvante; Spike Lee conquistou o seu primeiro Oscar, assim como foi a sua primeira indicação na carreira, fez um ótimo discurso e deu as costas quando Green Book foi premiado, e Lady Gaga e Bradley Cooper reproduziram a essência de Shallow, de Nasce Uma Estrela, e protagonizaram o momento mais romântico da noite.

Alfonso Cuarón com os três Oscars de Roma

Temos também a consagração de Roma, que apesar não levar o prêmio principal, ainda assim saiu vitorioso. Não só pelo número de prêmios, mas pelo seu simbolismo tecnológico e social. Batizado pela Netflix, o filme representa um novo caminho para o consumo de obras audiovisuais e assim conquistarem mais um meio de produção, exibição e inclusão.

E o diretor mexicano Alfonso Cuarón marcou ainda mais o seu território ao levar o Oscar de Melhor Direção pela segunda vez e receber a honraria do conterrâneo Guillermo del Toro. Este é um auge incrível ao perceber que, nos últimos cinco anos, este prêmio foi parar em mãos mexicanas: Cuarón por Gravidade (2014), Alejandro González Iñárritu por Birdman e O Regresso (2015 e 2016) e del Toro por A Forma da Água (2018). Onde está seu muro agora, Donald Trump?

Confira a lista completa dos premiados

Melhor Filme: Green Book: O Guia
Melhor Direção: Alfonso Cuarón – Roma
Melhor Atriz: Olivia Colman – A Favorita
Melhor Ator: Rami Malek – Bohemian Rhapsody
Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King – Se a Rua Beale Falasse
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali – Green Book: O Guia
Melhor Roteiro Original: Green Book: O Guia
Melhor Roteiro Adaptado: Infiltrado na Klan
Melhor Filme Estrangeiro: Roma (México)
Melhor Documentário: Free Solo
Melhor Animação: Homem-Aranha no Aranhaverso
Melhor Trilha Sonora: Pantera Negra
Melhor Canção Original: Shallow – “Nasce Uma Estrela
Melhor Edição: Bohemian Rhapsody
Melhor Design de Produção: Pantera Negra
Melhor Fotografia: Roma
Melhores Efeitos Visuais:O Primeiro Homem
Melhor Figurino: Pantera Negra
Melhor Maquiagem e Penteado: Vice
Melhor Mixagem de Som: Bohemian Rhapsody
Melhor Edição de Som: Bohemian Rhapsody
Melhor Curta-Metragem: Skin
Melhor Curta-Metragem de Documentário: Period. End of Sentence
Melhor Curta-Metragem de Animação: Bao

Maratona Oscar 2019: Parte 2

Viggo Mortensen e Mahershala Ali tem ótima sincronia em cena

Faltam poucos dias para o Oscar e ainda não comentei sobre alguns dos filmes que concorrem ao principal prêmio da noite. No primeiro post, eu falei sobre os meus favoritos da temporada, inclusive alguns que mereciam maior reconhecimento como é o caso de Cafarnaum, e agora vamos debater sobre os filmes que nem tão cedo vou querer revê-los.

Green Book – O Guia ★★

Indicado a cinco categorias, inclusive Melhor Filme, o filme do diretor Peter Farrelly carrega um tema importante a ser discutido, mas o faz de forma tão antiquado que parece que estamos, de fato, nos anos 1960. Se a intenção era provocar uma empatia à vida de Don Shirley (Mahershala Ali), um famoso e conceituado pianista negro que realiza uma turnê no Sul dos Estados Unidos, onde a segregação racial ainda era dominante, o filme passa rasteiro. Digo isso pois assistimos uma história sobre racismo sob o ponto de vista de Tony Lip (Viggo Mortensen), um ítalo-americano branco. Estamos em 2019, por que ainda insistir nesta ordem de papéis? Existe a simplicidade de inverter estes protagonismos e ainda assim ter uma história justa a ser contada.

Além disso, Green Book ainda erra em diversos aspectos. Fora as atuações grandiosas de Ali e Mortensen, que realmente constroem uma ótima sintonia em cena, o filme carrega o tom de ser “descarrego de culpa”. É como se tentasse colocar a culpa do racismo em determinados personagens e não no sistema todo que criou estes “vilões” na sociedade. O filme não assume os erros que diversas gerações plantaram para que aqueles ataques acontecessem e ainda persistem. Green Book tenta, incomodavelmente, dar alívios cômicos com Tony Lip, um homem carregado de preconceitos, ignorâncias e brutalidades, como se isso fosse charmoso.

Enfim, o longa tem muitas chances de levar o Oscar de Melhor Filme justamente por repetir a dose de achar que lavou as mãos com a dívida histórica que tem com os negros, ao amarrar um final feliz que a gente sabe que não existe.

Christian Bale mostrando o que é trabalho perfeito como Dick Cheney

Vice ★★★

Estava demorando para que os filmes políticos americanos voltassem ao seu tradicional lugar no Oscar. Este ano é a vez de Vice contar a história do ex-vice-presidente Dick Cheney (Christian Bale) e todas as artimanhas que o tornaram poderoso dentro da Casa Branca. O filme de Adam McKay é, de longe, o que menos me interessou.

Se não fosse pelas oito indicações na premiação, Vice passaria despercebido não só por mim, mas pela maioria. Não que o longa seja ruim. Muito pelo contrário. O diretor aperfeiçoa todos os truques que assistimos anteriormente em A Grande Aposta e repete diversos elementos como a participação de figuras famosas em pequenas dobradinhas, a montagem energética e eficiente e, claro, o sarcasmo e ácidez em cima do roteiro.

É impressionante como McKay consegue manter um pique ao longo da história e não deixar monótono uma conversa sobre negócios, estratégias políticas, empresariais e etc. Mas tenho impressão que o filme enfeita muito para justamente manter o interesse do público e de fato, não entregar uma essência, talvez, mais humana do protagonista. Pois, realmente, a trajetória de Dick Cheney aparentava realmente ser uma ficção, de representação do sonho americano, mas no fim das contas, é apenas o agito pelo agito.

E nem preciso mencionar o quão perfeito Christian Bale está neste papel. Entrega e perfeccionismo são o que resumem o trabalho de Bale em Vice. Merece o Oscar de Melhor Ator? Eu entregaria até o de Melhor Filme só por todos os filmes que ele já fez.

A Esposa fica abaixo do que Glenn Close merecia

A Esposa ★★

Glenn Close deve levar o Oscar de Melhor Atriz por este filme dirigido por Björn Runge. Concordo? Nenhum um pouco. No entanto, A Esposa é, definitivamente, o típico filme que faz com que uma atriz seja premiada pelos motivos errados. Não diminuindo o desempenho de Glenn Close neste filme, mas a sua personagem não é digna o bastante, visto que Joan fica na sombra do marido Joe Castleman (Jonathan Pryce) boa parte da história escondendo os seus verdadeiros sentimentos.

Ela é a esposa clichê sempre ao lado do companheiro, atende todas as vontades e basta um acontecimento para que ela desperte para a vida. Novamente, uma história em que a mulher fica submissa não só ao marido, mas também pela história em si. Joan não é protagonista em A Esposa, a história não acontece por causa dela, mas pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura do marido. Um escritor. A profissão dos seus sonhos e do qual abriu mão para focar no casamento. Quando digo que o papel não é memorável o bastante para consagrar a jornada de Glenn Close no cinema são por estes motivos preguiçosos.

Apesar do filme ter uma revelação polêmica, do qual eu adoro, deixa um amargo na sua conclusão, pois torcemos muito pela redenção de Joan, mas parece que, assim como na vida, o homem sempre vai dar um jeito de sair bem na foto.

Maratona Oscar 2019: Parte 1

Yalitza Aparicio “brincando” de morta em Roma

Estou de volta! Desta vez vou comentar sobre os últimos filmes que assisti e que estão indicados ao Oscar 2019. A minha maratona Oscar encerrou mais cedo este ano, pelo menos na categoria de Melhor Filme, e por isso vou resumir os principais destaques destes longas e de outros indicados na ordem de preferência. Começando com os meus preferidos:

Roma ★★★★

Roma, filme dirigido por Alfonso Cuarón, é pura poesia filmada onde Cleo (Yalitza Aparicio), uma empregada doméstica, ganha protagonismo em meio a sua solidão. Com planos longos e totalmente em preto e branco, o longa mistura simplicidade e ousadia por causa da sua fotografia que equilibra o clima nesta história que consegue despertar empatia ao tratar os sentimentos de uma mulher pobre, sozinha e confusa com muita sensibilidade, o que raramente acontece para personagens do gênero.

Eu gosto muito de Roma por causa deste espaço dedicado a uma mulher que vive para servir aos outros e nunca a si mesma, onde ela enfrenta silenciosamente momentos comuns, mas que ninguém se importa de perguntar “quer conversar?”, onde ela tem que se preocupar com a roupa das crianças da patroa enquanto enfrenta a maternidade, e que por mais que a vida se repita, ela vai continuar nesta batalha por conta própria. O que nos leva para uma das cenas que resume o filme todo quando a patroa de Cleo, Sofia (Marina de Tavira), desabafa: “Estamos sozinhas. Digam o que quiserem, mas nós, mulheres, estaremos sempre sozinhas”.

Roma mexeu muito comigo pois me remete a muitas histórias que minha mãe me contava quando trabalhava na “casa dos outros” na sua adolescência e aí tu percebe o quanto estas histórias são universais, o quanto personagens da ficção conseguem dialogar com o mundo real e nos exibir o que só ouvimos da boca dos outros. É tudo uma questão de interpretação, do olhar que você dá para aquela pessoa que por mais despercebida, carrega o mundo dentro de si e não tem com que dividir. Roma está indicado a 10 categorias no Oscar, incluindo Melhor Direção e Filme.

Cafarnaum ★★★★★

Zain Al Rafeea assume papel difícil, mas entrega realidade pura

Dirigido por Nadine Labaki, uma das duas únicas mulheres diretoras com um longa indicado ao Oscar, Cafarnaum explora a realidade de uma forma tão triste, caótica e cruel que se torna difícil seguir em frente depois da sessão. O longa mostra o pequeno Zain (Zain Al Rafeea) sobrevivendo em meio a brigas com os pais, aos diversos trabalhos que assume para sustentar a família e a pobreza que o enquadra. Sua única fonte de alívio em meio as dificuldades é a sua relação com a irmã que, infelizmente, é forçada a se casar com apenas 11 anos. Isto é o ápice para que Zain se revolte e saia de casa. Mas isto tampouco ajuda a melhorar a sua vida.

O filme é excelente, apesar do seu recheio ser tão avassalador, que faz você abrir os olhos sobre a miséria que existe em todo lugar do mundo. Ou melhor, sobre a miséria humana que existe em cada canto. O jovem ator Zain carrega literalmente o filme nas costas e faz isso de forma tão grandiosa que assim como seu personagem, você fica impactado com tanta maturidade para uma criança. O mesmo digo para o companheiro em cena de Zain, o bebê Yonas (Boluwatife Treasure Bankole), que trabalha numa naturalidade que só deixa o filme ainda mais emocionante.

É só tragédia atrás de tragédia, mas Cafarnaum não vem com intuito de entreter e nem trazer finais felizes para uma história que acontece em todos os cantos do mundo. Cafarnaum é um filme que dói, mas é urgente para mostrar os nossos privilégios, para nos tirar das bolhas e principalmente, para nos ensinar a parar de julgar aqueles que infelizmente não possuem escolhas na vida. Cafarnaum está indicado somente em Melhor Filme Estrangeiro, mas facilmente poderia estar entre os principais, como Melhor Ator para Zain Al Rafeea que dá um banho de atuação em comparação aos demais indicados deste ano.

Pantera Negra ★★★★★

Chadwick Boseman interpreta o primeiro super-herói negro nos cinemas

Pantera Negra é um filme que dispensa maiores apresentações. Dono de todas as bilheterias do ano passado, o filme dirigido por Ryan Coogler veio para fazer história no Cinema. Além de trazer o primeiro super-herói negro às telas, o longa também trouxe uma riqueza em termos de narrativa, referências da cultura africana e mudou os rumos nas tradicionais batalhas entre mocinho e vilão.

Aqui não existe “cara mal” que quer roubar o trono, ser rico e se vingar de uma vida sofrida. O papel do antagonista Killmonger, interpretado brilhantemente por Michael B. Jordan, traz motivações pessoais que são resultados de ações sociais e até políticas que o personagem sofreu ao longo da sua existência. A figura de T’Challa (Chadwick Boseman) representa exatamente o que ele luta contra e quer virar o jogo, fazer a sua justiça. Isso já torna o filme de uma complexidade que só engrandece o enredo.

E não só por isso. Pantera Negra ganha diversos pontos por dar um lugar digno para suas personagens femininas. Perceba a autoridade que Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Letitia Writh e Angela Bassett atuam em cena e disputam de igual para igual com o restante do elenco. Outra conquista que somente um super-herói como Pantera Negra poderia conceder aos fãs sedentos por representatividade. Pantera Negra está indicado a seis prêmios no Oscar, entre eles, Melhor Filme.

Homem-Aranha no Aranhaverso ★★★

Homem-Aranha não para de se reproduzir e de avançar com a inclusão nos cinemas

Eu sou uma pessoa totalmente alheia ao universo dos quadrinhos e super-heróis, mas me surpreendi com a tamanha diversidade que Homem-Aranha consegue oferecer em suas dimensões. Foi o caso deste Homem-Aranha No Aranhaverso que foi uma boa experiência, digamos até alucinógena. Se um filme, em suas condições normais, consegue deixar os olhos secos com tantos efeitos especiais, esta animação dirigida por Peter Ramsey, Bob Persichetti e Rodney Rothman dá um verdadeiro giro com tudo que tem em mãos.

O filme é outro avanço que Marvel deu nos cinemas, não só pela criatividade e brincadeiras que o roteiro entrega, mas novamente, com a representatividade. O protagonista desta vez fica encarregado com um adolescente negro que precisa crescer diante de desafios e segredos que descobre ao longo da jornada, o que inclui a desilusão com parentes queridos e com os grandes poderes que adquire que vão além dos super-poderes aracnídeos.

A animação dá um gás diferenciado no gênero de super-heróis no cinema e trabalha para que nada seja gratuito. É uma história sobre amadurecimento e responsabilidades que somente os nossos ídolos, sejam eles quem forem, podem nos ensinar. Homem-Aranha no Aranhaverso concorre em Melhor Animação.