O Primeiro Homem é um registro histórico fraco e apático

O Primeiro Homem estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira e mostra a árdua e complicada jornada do engenheiro Neil Armstrong (Ryan Gosling), o primeiro homem civil a pisar na Lua em 1969. A missão era questão de honra para os Estados Unidos que tinha como objetivo superar a União Soviética. Na época, os soviéticos já tinham colocado, de forma bem sucedida, o satélite Sputnik em órbita em 1957, e também já tinham enviado os primeiros seres vivos ao espaço como a cadela Laika, Yuri Gagarin em 1961 e a primeira mulher, Valentina Tereshkova, em 1963 para a órbita da Terra.

Com mais de duas horas de duração, o diretor Damien Chazelle, o mesmo de La La Land – Cantando Estações (2017), desta vez deixou os musicais de lado para focar no íntimo de uma das figuras mais conhecidas pelos seus feitos na NASA e tratada como heroísmo. Esteticamente, Chazelle capricha na composição da tela. Um dos seus maiores talentos como diretor que se exemplifica tanto no último trabalho no cinema quanto no anterior Whiplash: Em Busca da Perfeição (2015). O perfeccionismo do diretor transforma a experiência em algo estonteante e deixa qualquer espectador extasiado com as cenas mais intensas e sensoriais e, um dos exemplos disso, é a própria chegada à Lua. O filme ainda mexe com os nossos sentidos graças ao trabalho conjunto da fotografia, montagem e áudio.

Já o roteiro, escrito por Josh Singer, baseado no livro First Man: The Life of Neil A. Armstrong, de James R. Hansen, quis abraçar a jornada pessoal de Neil e partir apelando para uma perda trágica dentro da família. Com isso, a narrativa martela na ferida em diversos momentos na tentativa de justificar a frieza do protagonista. É compreensível que a morte seja uma companheira sombria nesta profissão tão arriscada e que isso torne a essência de Neil inexpressiva. É difícil captar mais do homem que está prestes a se tornar um herói da nação.

Em O Primeiro Homem, Ryan Gosling prova que é um ator limitado. Encarregado de ser o rosto principal do filme, o ator, dificilmente, demonstra qualquer outra emoção que não seja apatia. Gosling quis incorporar a personalidade reservada de Neil, mas não consegue ir além no papel e prefere funcionar no piloto automático. Na contramão de Gosling está a sua parceira de cena, Claire Foy, que vive Janet, esposa de Neil Armstrong. Ela é fantástica e entrega um trabalho competente conseguindo demonstrar a força incisiva da companheira do astronauta em poucas cenas. Janet é o equilíbrio de Neil, ainda que viva um papel tipicamente da época, uma esposa preocupada e uma dedicada dona do lar. Ainda assim, Claire consegue fazer com que a sua personagem deixe a sua marca.

O Primeiro Homem impressiona pela sua técnica, assim como foi a verdadeira história conhecida mundialmente. Apesar disso, não é mais do que um registro histórico. A alma do filme não parece alcançar a perfeição que Damien Chazelle exige e tem dificuldades em encontrar um espaço para ser guardado na memória.

Nota: ★★

• Texto escrito originalmente para o site do Correio do Povo

Nasce Uma Estrela é uma perfeita ilusão

Nasce Uma Estrela chega aos cinemas nesta quinta-feira, trazendo, pela quarta vez, a história mais clássica de Hollywood. Após ser estrelado por Janet Gayner em 1937, Judy Garland em 1954 e Barbra Streisand em 1976, agora é a vez de Lady Gaga ter o seu grande momento nas telonas. Gaga é Ally, uma jovem garçonete que se divide entre o emprego e os palcos de um bar de drag queens. Em uma noite, o cantor country Jack Maine (Bradley Cooper) visita a casa noturna e fica encantado com a performance sedutora de Ally com a música La Vie En Rose, de Edith Piaf. Jack enxerga um brilho especial e batalha para convencer a jovem a expor o seu talento para o mundo. Não demora para o casal rapidamente se apaixone e Ally conquiste o seu merecido sucesso na carreira musical. Porém, enquanto a estrela de um nasce, a do outro começa a se esvair.

Dirigido por Bradley Cooper, ele arriscou-se em querer estrear na direção de uma refilmagem que carrega um histórico de ouro em Hollywood. O esforço é evidente, mas nenhum pouco criativo. Cooper parece espelhar-se demais no último remake de Nasce Uma Estrela de Frank Pierson e não tenta deixar a sua marca artística como diretor. O roteiro, que também ficou nas mãos dele ao lado de Eric Roth e Will Fetters, não aproveita elementos contemporâneos o suficiente para modernizar o enredo, os conflitos e tampouco a base dos protagonistas. O que acaba também prejudicando a montagem que, mesmo com duas horas de duração, parece querer correr com o tempo e inserir diversas situações sem muito contexto e que não deixa muito para absorver. Ao contrário do que acontece nas cenas musicais que são, sem dúvida, as melhores coisas do longa.

Lady Gaga, em si, é uma personagem na música pop. Com seus méritos reconhecidos tanto como artista quanto pela sua figura pública. Em Nasce Uma Estrela, porém, é difícil enxergar uma separação entre Gaga e sua personagem. Sem muita complexidade na sua história, Ally é uma simples jovem trabalhadora que se jogou em uma oportunidade e a parti daí, tudo parece fluir a seu favor. Logo, Gaga não tem muito do que desenvolver dentro do papel a não ser o óbvio. Nas cenas de brigas com Jack ou de confronto com seu empresário, a atriz não destrava a explosão ou a intensidade que o momento precisa. A ingenuidade de Ally não condiz em nada com o empoderamento e agressividade que a personagem apresenta no início do filme.

Já Bradley Cooper é quem realmente brilha em cena. Literalmente, o filme é dele. Um famoso cantor alcoólatra e viciado em drogas já é um clichê básico dos cinemas. Se nos dois primeiros “Nasce Uma Estrela”, o cinema era o cenário do romance, nas duas últimas refilmagens, a indústria da música foi escolhida para ser o pano de fundo. Desta vez, o country é quem embala o drama do famoso casal de músicos. Aqui, Jack tem muita dor acumulada e com muitos conflitos familiares, inclusive uma disputa pessoal com o irmão mais velho interpretado por Sam Elliot, o personagem possui diversos conflitos interessantes a serem contados. Mas que ficam contadas pela metade. Devido a isso, a entrega de Bradley é enorme e transparente. Além de ser o melhor trabalho do ator, até então, é surpreendente o seu talento musical. Bradley é um cantor muito bom e suas parcerias com Lady Gaga são maravilhosas de ouvir.

Nasce Uma Estrela é uma história requentada e que não se propõe a ir além com tanto que tinha em mãos. O filme tenta ser uma breve crítica ao mercado da música, que facilmente descarta quem não o agrada mais e consegue transformar em consumo pop qualquer pessoa, no entanto, de forma superficial e chantagista. O amor entre Ally e Jack, tanto ecoado nas músicas, parece ser mais sincero dentro da trilha sonora do que em cena, que em muitas vezes parece ensaiado demais. Nasce Uma Estrela foi uma estreia segura para Bradley Cooper na direção e Lady Gaga de protagonista. É justo apontar que é uma história de amor para se entreter, mas faltou paixão para ficar na memória.

Nota: ★★

• Texto escrito originalmente para o site do Correio do Povo

Merlí e suas merlinadas

Se eu pudesse indicar uma série do catálogo da Netflix seria Merlí. O programa mostra a rotina do professor de filosofia Merlí Bergeron (Francesc Orella) que após ficar desempregado consegue uma vaga na escola o seu filho Bruno (David Solans) estuda e o que poderia se tornar constrangedor vira um caos total. Merlí não é um simples professor ou um homem formal. Ele é impulsivo, criativo, manipulador e sem um pingo de filtro na sua boca. E melhor, a sua vida é totalmente baseada em grandes mestres da filosofia.

Já no primeiro dia de aula, Merlí tira todos os alunos da sua zona de conforto e os leva para uma aula dentro da cozinha da escola e lá coloca os jovens na mesma posição que os peripatéticos, discípulos de Aristóteles, que costumavam aprender as teorias do filósofo: caminhando e refletindo. Referências de outros teóricos não são poucas dentro da série. Só pelo fato de Merlí provocar a mente dos seus alunos foi o bastante para conquistá-los à primeira vista. Apesar da relutância dos demais professores da escola, cada um vai percebendo que toda “merlinada” que o protagonista causa não é só para o bem dos outros, mas urgentemente necessário.

Os ensinamentos nada ortodoxos de Merlí são o gatilho para que os jovens se inspirem nas filosofias e comecem a praticá-las em suas vidas. A série seduz muito com as reflexões propostas e melhor ainda, coloca questionamentos provocantes sobre pequenos detalhes que vão desde relacionamentos amorosos, comportamento, a sociedade e até os sentimentos. A essência do programa, claro, fica em cima do professor Merlí que tem uma personalidade difícil que se mantém fortemente durante as três temporadas, mas que volta e meia apresenta as suas fragilidades. Ele é o cara que muda com palavras a vida de colegas e alunos tentando tirar a máscara da hipocrisia que os sufoca. E aí está a grande lição do personagem que é trazer a verdade para todos, indagar a si e os outros e abrir os olhos para o mundo.

Eu poderia classificar Merlí como uma Malhação com Filosofia. Porque apesar da temática filosófica ser o grande atrativo da série, a narrativa é leve e gostosa de acompanhar. A turma dos alunos estão no ensino médio e passam por situações universais como virgindade, sexualidade, problema com os pais, bullying e etc. No entanto, o roteiro não subestima nenhum drama e nem os trata como crianças. Eles conseguem evoluir a cada episódio e com muito estímulo de teorias aprendidas na sala ou onde o Merlí tenha dado aula, os personagens são tratados com maturidade, respeito e sinceridade como toda juventude deveria ser educada.

Merlí é um estímulo para os que gostam de continuar digerindo uma série depois de assisti-la. Merlí é excitante para quem gosta de chutar o balde e sair do seu quadradinho. Merlí é tudo o que você precisa para entender o mundo.

Nota: ★★★★