Desobediência ★★★

Sexualidade e religião nunca foram temas fáceis de se trabalhar no cinema. Mas com muito talento, é possível contar uma história envolvendo os dois assuntos respeitosamente. Graças ao diretor chileno Sebastián Lelio – ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano com Uma Mulher Fantástica – o filme Desobediência é um exemplo de como é possível quebrar tabus e transmitir esperança em romances LGBTQ+.

Após ser expulsa de casa na juventude, a britânica Ronit (Rachel Weisz) é uma fotógrafa bem sucedida em Nova York, nos Estados Unidos. Inesperadamente, um dia ela recebe a notícia da morte do seu pai, Rav Krushka (Anton Lesser), um rabino altamente respeitado dentro da comunidade judaica ortodoxa. Atordoada, ela volta rapidamente para cidade natal e causa desconforto entre familiares e amigos que apostavam que ela nunca retornaria por causa de suas desavenças com o pai. Lá, ela reencontra Esti Kuperman (Rachel McAdams) sua antiga paixão da adolescência que está casada com o próprio primo, Dovid Kuperman (Alessandro Nivola), potencial sucessor do cargo de Rav na sinagoga. O reencontro traz à tona os sentimentos que Esti e Ronit sentiam e que provocou a trágica separação de ambas no passado. A partir daí, uma série de conflitos emocionais colocam o casal, especialmente Esti, em discussão sobre as escolhas de suas vidas.

O filme é simples, sombrio e não problematiza as escolhas de cada personagem. A bissexualidade de Ronit existe, mas nem por um segundo é estereotipada. Assim como seu estilo de vida que foge dos costumes tradicionais dos seus conhecidos. A rotina dos judeus ortodoxos e seus ensinamentos também estão lá, mas nem por um momento o filme quer atacar este ponto conservador. Entretanto, ele quer trazer o debate sobre o livre arbítrio dentro de uma comunidade limitada à sua própria visão. Ronit escolheu não seguir as tradições da sua família e foi embora. Abrindo mão da comodidade, mas ganhou a liberdade de fazer as suas próprias regras. Já Esti não teve tanta coragem de também fazer a sua própria história e ficou submetida aos que os outros achavam que era melhor para ela. E quis o destino que o casal se reencontrasse para que a vida de cada uma pudesse ter um novo sentido.

Rachel Weisz e Rachel McAdams possuem a delicadeza e a precisão para viverem estas personagens tão opostas. Weisz é segura no papel e a sua personagem não demonstra nenhum pouco do arrependimento de ter ido embora, mas sofre por não ter se resolvido com o pai. A atriz é sútil, mas ao mesmo tempo consegue transparecer uma melancolia para história. Já Adams surpreende pela dramaticidade que sua personagem vive. Aparentemente forçada a casar com o primo, Esti aceitou o seu destino para cumprir o papel que lhe foi determinado segundo manda a sua religião. Mas com a inspiração do seu primeiro amor, ela vai desbrochando e encontrando o seu próprio caminho. O terceiro destaque do longa fica para Alessandro Nivola que apresenta um ótimo discurso nos seus minutos finais.

Representatividade já virou uma especialidade de Sebastián Lelio. Se em Uma Mulher Fantástica, ele soube retratar delicadamente a dor do luto de uma mulher transexual, agora em Desobediência, o diretor abre o espaço para as dificuldades deste romance lésbico dentro de uma comunidade religiosa. A narrativa é conduzida pelo casal e Lelio sabe equilibrar o ponto de vista de cada uma, além de inserir os famosos burburinhos alheios, e incomodativos, em volta. O diretor foge de armadilhas clichês sobre casais lésbicos, não transforma uma cena de sexo em erotismo barato e dá novos propósitos para cada personagem. Desobediência poderia ser facilmente definido como um romance LGBTQ+, mas ele consegue ir além e ser um grito de esperança e independência feminina.

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo 

Disobedience (2017) | Diretor: Sebastián Lelio | Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz | Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Anton Lesser, Alessandro Nivola, Allan Corduner, Nicholas Woodeson, Bernice Stegers e Cara Horgan | Nacionalidade: Inglaterra, Irlanda e Estados Unidos | Gênero: Drama e romance | Duração: 1h54min |

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