Trama Fantasma ★★

Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson, encerra a temporada de estreias no Brasil dos filmes candidatos ao prêmio principal do Oscar. O longa que marca, por enquanto, a despedida de Daniel Day-Lewis dos cinemas, chega discretamente no circuito nacional trazendo a história do renomado estilista britânico, Reynolds Woodcook, que veste importantes nomes da elite e da realeza europeia. Certo dia, ele conhece e se interessa por Alma (Vicky Krieps), uma simples mulher, mas que acaba se tornando a sua inspiração e modelo favorita. O relacionamento do casal avança entre brigas e vestidos, e o filme não oferece muito além deste caminho um tanto perturbador.

Quem vai esperando que Trama Fantasma seja sobre os bastidores da moda britânica nos anos 1950 sairá muito decepcionado das salas de cinema. A história inicia seduzindo com o clima elegante que apenas Londres poderia proporcionar e logo engatamos neste inocente romance protagonizado por Reynolds e Alma. Tudo sob supervisão da irmã do estilista, Cyril (Lesley Manville), que cuida da vida pessoal da mesma forma que os negócios do irmão.  Se por um lado, o relacionamento dos protagonistas começa a desmoronar, por outro, parece que é justamente isto que vai unir eles novamente. O casal retrata, perfeitamente, uma relação monogâmica convencional e antiquada visto que Alma se dispõe inteiramente submissa ao companheiro que não esconde a sua irritação com o passar dos anos. Mas para não perder o posto de Senhora Woodcook, a jovem se submete a planos sacanas apenas para não se dar por vencida nesta disputa de quem é mais teimoso neste casamento.

Daniel Day-Lewis escolheu, novamente, mais um filme em que ele apresenta um papel com ar de superior em um ritmo lento. Perfeccionista, o estilista se considera um solteiro invicto e possui diversas armas de sedução que mais parecem conselhos do seu tio-avô, mas que de certa forma, se torna carinhoso nestes momentos. Infelizmente, é difícil enxergar um motivo desafiador que o tenha inspirado a escolher este personagem para ser o seu último nas telas. Já Vicky Krieps se transforma com o desenrolar do drama, mas que em nenhum instante, ela perde o seu olhar angelical. Mesmo quando resolve mostrar que a sua aparência engana. Mas não chega nem perto do grande destaque do longa que fica para Lesley Manville, que nos proporciona um show de talento com sua seriedade e ironia como a terceira integrante naquela casa.

Trama Fantasma parece ter esta proposta de trazer antiguidades em pauta seja em termos de roupas, cultura ou simplesmente, em relacionamentos. Mas tamanha oscilação de humores e opções que a história apresenta em cena, acaba oferecendo um filme esnobe e fraco para ser aprovado na sua prova final.

Phantom Thread | Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson | Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville | Gênero: Drama e Romance | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 2h10min

Três Anúncios Para Um Crime ★★★

Três Anúncios Para Um Crime despontou como o grande favorito da temporadas de premiações e, num momento feminista que toma conta de Hollywood e em boa parte da sociedade, é compreensível entender o motivo que trouxe o filme na frente de todos. Mildred (Frances McDormand) aluga três outdoors numa rodovia pouco movimentada para pressionar a investigação da polícia da pequena cidade de Ebbing, em Missouri, sobre o assassino e estuprador que matou a sua filha. Tal atitude faz com que a população fique contra esta mãe que tampouco está se importando com a opinião e sentimentos dos outros. Isto, claro, faz com que certas consequências aconteçam com Mildred e alguns poucos de quem ela ainda gosta. O episódio do estupro seguido de morte é um debate constante e e é algo que acontece todos os dias, infelizmente, em qualquer parte do mundo. Logo, a busca por respostas da protagonista é outra discussão que o filme tenta justificar a todo custo com muitas situações aleatórias e inexplicáveis.

Os atos de Mildred, por muitas vezes, parecem serem tomados por uma vingança totalmente gratuita. Como se ela tivesse o direito de atacar quem quer que fosse só por conta da sua situação. O que justifica logicamente a escolha de Frances McDormand para este papel que exige muito de uma postura extremamente firme. A atriz tem a sua marca característica de durona e rabugenta que enalteceram a sua carreira. E aqui, ela não está nem um pouco diferente do que já vimos. O que não é ruim, mas não há nenhum elemento surpresa que nos arrepie o bastante para acreditar nesta dor específica. Ao contrário de Frances, Sam Rockwell é quem definitivamente pisou no acelerador do policial Jason Dixon e o deixou na pessoa mais escrota que poderia existir. Possuído de preconceitos e palavrões, o ator entrega uma interpretação atacada com muitas piadas racistas e inapropriadas. Ambos tem interpretações diferentes, mas extremas demais. Woody Harrelson está o típico xerife “boa praça” Bill Willoughby que quer conciliar o bem estar de todos e tenta proteger Mildred mesmo com a pressão dos outdoors. A sua presença é essencial para os conflitos e desperta a redenção de um dos personagens que rouba totalmente a atenção do público.

O longa dirigido por Martin McDonagh foge de uma narrativa convencional ao nos conduz na história como se tivéssemos, literalmente, de passagem por aquela cidade e vamos embarcando nos desdobramentos das ações de Mildred. Entre um momento e outro, somos contextualizados da família desestruturada em que viviam mãe e filha, dos problemas da investigação, os dramas do xerife Bill Willoughby e das bizarrices do policial Dixon. Porém, tantos conflitos paralelos fazem com que o eixo central perca a força e nossas expectativas vão diminuindo conforme o desenrolar da história. O que de certa forma encaixa na nossa realidade onde inúmeros casos de estupros acontecem e ninguém é preso, ninguém é investigado e ninguém pode ajudar. Muitos menos em uma corporação predominantemente masculina. Mas ao mesmo tempo, o diretor esqueceu de ter um propósito maior, já que Três Anúncios não pode ser classificado nem como um filme-denúncia já que em determinado ponto, ele já não tem mais o que os nos oferecer. Três Anúncios Para Um Crime está longe de ser uma jornada inspiradora para os acreditam na justiça feita com as próprias mãos, mas também mostra que a vida nunca é justa com ninguém.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri | Direção e roteiro: Martin McDonagh | Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Amanda Warren e Peter Dinklage | Gênero: Drama | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 1h55min |

Lady Bird: É Hora de Voar ★★★★★

Lady Bird: É Hora de Voar pode ser definido com a frase que é dita por um dos personagens mais queridos da história. Padre Leviatch (Stephen Henderson) abre a cena ensinando para uma turma de estudantes que “Não importa estar certo, só importa ser verdadeiro” e esta é a maior essência do longa de estreia da agora então diretora, Greta Gerwig. O filme não poderia ser mais sincero em como retratar esta fase tão intensamente complicada de uma adolescente que vive longe do agito e cultura de uma cidade grande e, o que não falta para Christine “Lady Bird” McPherson (Saiorse Ronan) é vontade de viver. Logo quando conhecemos a protagonista, outro personagem também é introduzido com a mesma chama nos olhos. Se trata de Marion (Laurie Metcalf), a mãe da Lady Bird que é praticamente uma versão mais ácida e sincera da própria filha. E aos poucos, vamos conhecendo a rotina da garota que está no último ano do Ensino Médio e logo pretende dar o grande passo para a vida adulta. Mas claro, tudo do seu jeito, se não, não é do jeito certo.

Como uma jovem que viveu boa parte do que Lady Bird exibiu em cena, é incrível como algo tão simples pode ser universal. Assistir o longa foi como reviver vários diários escritos ao longo de todos estes anos. A diretora Greta Gerwig acertou em como contar tanto em tão pouco tempo e nada do que é apresentado em cena é gratuito. A costura entre os personagens e as situações recheiam o longa com riqueza e espontaneidade de uma família de classe média baixa que não esconde os seus problemas. Greta apresentou um talento incrível também com timing perfeito para manter o ritmo com altos e baixos da protagonista com quem nos conectamos facilmente. Lady Bird se encaixaria perfeitamente como um antecessor de Frances Ha (2012), longa que a própria Greta estrela, já que não deixa de ser um retrato do fim de uma fase se interligando com o desenrolar com as responsabilidades da vida adulta.

A outra parcela de Lady Bird funcionar tão perfeitamente é em função do elenco maravilhoso. Saiorse Ronan mostra, mais uma vez, o seu talento neste longa que foge do romantismo visto em Brooklyn (2016) e O Grande Hotel Budapeste (2014), e comprova a sua versatilidade com esta adolescente cheia de hormônios e opiniões para serem ditas. A atriz possui carisma necessário para criar empatia com público e a sinceridade da juventude para interpretar esta jovem que está construindo o seu futuro e sua identidade. Laurie Metcalf é outra que surpreende com a tamanha identificação que percebemos quando ela age exatamente como nossas mães em momentos extremos. O papel de Marion é tão intenso quanto da própria Lady Bird. Mesmo com poucos recursos, a atriz imprime este amor maternal briguento e carinhoso. E a união das duas em cena expressa o quanto amor existe entre mãe e filha, mas devido a disputa destas duas personalidades fortes, é inevitável que cada uma precise do seu espaço para refletir o quanto uma é importante para a outra. Outra sacada de gênio de Greta em unir estes elementos que são tão fundamentais na vida de uma menina.

O filme retrata uma geração que cresceu com o privilégio de poder escolher o seu futuro, a sua profissão e o modo como quer ser chamado, praticamente. Lady Bird não tem medo de errar ou falar o que pensa, pois cada atitude é um reflexo da sua inocência e do quanto quer aprender sobre a vida. Então nunca fez tanto sentido de que não existe o certo ou errado, mas ser verdadeiro consigo mesmo. A verdade é que Lady Bird expressa o desejo de conquistar o mundo que todo mundo, um dia, já teve. Principalmente quando chega aquela fase da vida em que a liberdade está logo ali nos chamando para voar. E assim como Christine, batemos asas para descobrir o nosso lugar no mundo.

Lady BirdDireção e roteiro: Greta Gerwig | Elenco: Saiorse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues e Marielle Scott | Nacionalidade: Estados Unidos | Gênero: Drama | Duração: 1h34min