A Ghost Story ★★★★★

A Ghost Story tem uma aparência de filme de suspense, daqueles que querem nos assustar com a figura pitoresca de um fantasma de lençol. Porém, a verdade é que ele é assustadoramente triste sobre a perda de um grande amor. E tem outro porém. Seguimos o ponto de vista não do personagem que ficou, mas daquele que partiu. E segue sendo dolorido. C (Casey Affleck) e M (Rooney Mara) vivem isolados em uma área afastada da urbanização e quando estão prestes a se mudarem, C morre tragicamente em um acidente de carro a poucos metros de casa. Se para M perder brutalmente o amado foi um choque, para C se torna uma experiência frustante ver a companheira sofrendo. Digo isso, pois ele continua presente naquela casa como um fantasma, na sua mais inocente e inexpressiva figura. O personagem observa M tentando superar o luto ao mesmo tempo que ela se prepara para ir embora daquela casa e seguir em frente.

Para quem gosta de filmes contemplativos e pacientes, A Ghost Story é uma rica de experiência de tempo, vamos dizer assim. Com poucos diálogos, mas suficientes para nos fazer montar o quebra-cabeça, e muitos planos longos que nos remete a momentos de observação, quase como um reality show, o filme dirigido e roteirizado por David Lowerly é um exercício mental e espiritual da nossa presença na Terra. É difícil entrar em detalhes com este longa pois vai parecer que vou entregar tudo o que ele oferece, mas a verdade é que poucos filmes conseguem provocar tantas reflexões sobre o quanto estamos ocupando os espaços de outras histórias que existiram neste exato lugar onde você está agora. E mais. Nos faz perceber o quanto tentamos deixar a nossa marca enquanto vivemos para nunca sair da memória daqueles que ou abandonamos, largamos, deixamos ou simplesmente, terminamos um vínculo. E tudo isso um simples lençol consegue transmitir durante toda a projeção.

Para reforçar o clima nostálgico, a direção de fotografia de Andrew Droz Palermo traz o formato clássico de 4:3, como se fosse uma moldura a lá instagram, o que nos dá a sensação que estamos assistindo fotografias de famílias e pessoas aleatórias que passaram por aquela lugar. Lowerly também assume a edição e novamente, ele arrasa em mais uma categoria. Devido ao item principal do filme que é a passagem de tempo para o fantasma de C, que observa tudo transcorrer de forma rápida e lenta enquanto ainda vaga por aquela casa. Se para nós, o momento parece seguir sua forma natural, a figura do fantasma expressa o quanto ainda espera pela volta da sua amada. Rooney Mara continua sendo uma das mais talentosas atrizes da mais recente safra de Hollywood. Se M parece levar uma vida estável, mas ao mesmo tempo se sente inquieta com a sua constante necessidade de mudanças, ela também imprime uma tristeza raivosa ao devorar uma torta para preencher o vazio daquele momento de perda. Apesar de triste, a cena em que está sentada no chão da cozinha é uma das mais bonitas, onde é possível enxergar as suas lágrimas no reflexo da luz. Outra bela composição de Palermo. Já Casey Affleck parece ter se especializado em papéis com carga dramática. Depois de Manchester À Beira-Mar, aqui ele está mais leve e saudável, mas igualmente desleixado, mas num bom sentido. Posso dar um crédito a mais também com a sua atuação como fantasma, já que conseguiu nos fazer sentir a sua dor.

A Ghost Story é, de longe, um dos melhores filmes de 2017, que nos traz uma história sensível, reflexiva, dolorosa e melancólica. É sobre ter aquela falsa esperança de que alguém que amamos muito vai voltar. É sobre a história que deixamos gravadas no espaço por onde passamos. É sobre ter as respostas que esperamos por uma vida toda. É sobre descobrir se isso vai nos libertar ou não.

A Ghost Story (2017) | Direção e Roteiro: David Lowerly | Elenco: Casey Affleck, Rooney Mara, Kesha, Will Oldhm, Brea Grant, Kenneisha Thompson, Grover Coulson | Gênero: Drama | Nacionalidade: Austrália | Duração: 1h32min

 

Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton ★★★★

A noite de sábado estava fadada a terminar, mais uma vez, na roleta russa do Netflix e ficar naquele limbo de escolher um filme e nunca saber o que assistir. Ao abrir a página, o trailer de Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton começa a tocar involuntariamente e não demorou muito para que a aposta da noite fosse este documentário original da plataforma. Dirigido por Chris Smith, o longa trata de, basicamente, misturar duas biografias de comediantes de grande referência nos Estados Unidos: Andy Kaufman e Jim Carrey.

O primeiro foi um ator e comediante que durante os anos 1970 e 1980 estrelou a série Taxi e também se apresentava em stand ups onde extrapolava todos os limites possíveis do humor. Entre uma das suas bizarrices, era chamar mulheres para lutar com ele em ringues no meio dos seus shows. E acredite, elas respondiam ao chamado. Além disso, Kaufman também criou personagens irritantes e desagradáveis como Tony Cliffton. Já o segundo cresceu assistindo aos trabalhos de Kaufman e ali encontrou a sua vocação. Inspirado pelo humor do desconforto e que vira tudo de ponta cabeça, Jim Carrey tinha o sonho de se tornar tão famoso quanto o seu ídolo da infância. E não demorou até ser reconhecido por Hollywood e claro, seguindo a filosofia do primeiro comediante, Carrey não desperdiçava quando tinha a chance de ser tão desconfortavelmente criativo em público. Assim como viu a oportunidade de mergulhar na alma, literalmente, do seu herói quando o interpretou na cinebiografia O Mundo de Andy (1999). O que, até então, ninguém sabia era que de fato o ator era o próprio Kauffman durante aquele ano da produção do longa. Ele corrigia as pessoas quando não o chamavam de Andy, interpretou profundamente os seus personagens, provocava todos no set, e até mesmo proporcionou um reencontro com familiares de Kaufman.

Jim & Andy: The Freat Beyond é mais uma prova de como é possível entregar novas formas de contar histórias. Ao intercalar dois grandes nomes da comédia americana, o filme nos permite enxergar quem eram estes homens através de um documentário dentro de outro documentário. O longa relembra um documentário realizado nos bastidores de O Mundo de Andy produzido pela ex-namorada de Kaufman,  Lynne Margulies, e o roteirista e parceiro criativo, Bob Zmuda, em que registram a loucura que era trabalhar com Kaufman “reencarnado” em Jim Carrey na época. Até mesmo o próprio diretor da cinebiografia, Miles Forman, relatou o quão confuso estava dentro do set. Além disso, Carrey protagoniza a narrativa de Jim & Andy e expõe a sua intimidade e quanto trabalhar neste filme mudou a sua forma de viver a vida. Especialmente em Hollywood. Ele desabafa sobre as dificuldades da família antes de conquistar a fama, da saudades do seu pai e curiosidades da carreira, como as escolhas de alguns papéis combinarem exatamente com o momento da sua vida pessoal.  E claro, nisso tudo, ele conta como Kaufman influenciou o seu trabalho e com isso, vamos entendendo pouco a pouco, como Carrey se tornou um profissional único da indústria.

O grande triunfo do filme dirigido por Chris Smith é esta mescla de personalidades fortíssimas que se completam e que se explicam naturalmente ao público. Apesar de ser o único entrevistado do documentário, a presença de Jim Carrey é a única que importa, já que o filme caseiro de Lynne e Zmuda nos permite tirar as nossas próprias conclusões a respeito de todo o processo e se era real ou não, toda a aquela maluquice. Jim & Andy conversa com o público e nos instiga a refletir sobre a vida e de como, precisamos, sair fora desta caixinha diária que vivemos. Tirar férias de si mesmo foi uma das melhores coisas que Carrey fez na sua vida e que toda aquela jornada foi necessária para trazê-lo até aqui, com suas palavras doces e inquietas, fazer a minha noite de sábado valer a pena.

Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton (2017) | Direção: Chris Smith | Elenco: Jim Carrey, Andy Kaufman, Courtney Love, Lynne Margulies, Bob Zmuda, Danny DeVitto, Milos Forman, Hugh Hefnes, Peter Bonerz, Randall Carver, Tony Danza, Andy Dick | Gênero: Documentário | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 1h34min

Liga da Justiça ★★★

Liga da Justiça chega aos cinemas à espera de um público dividido em expectativas. Enquanto alguns esperam uma redenção por parte dos filmes da DC Comics, como aconteceu recentemente em Mulher-Maravilha, outros já acreditam que será mais uma catástrofe equiparada a Batman Vs Superman – A Origem da Justiça. Mas verdade seja dita, o diretor Zack Snyder está aprendendo com o resultado dos últimos filmes e, finalmente, podemos ter um pouco de luz no caminho de Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e de seus novos companheiros. A história retoma o que sobrou do último encontro entre o homem-morcego e Superman (Henry Cavill), entre as consequências está uma onda de medo, terror e confusão numa sociedade que vive sem esperanças de um mundo melhor após a morte do seu grande exemplo de super-herói. Surpreendido por uma ameça desconhecida em Gotham, Batman vê a oportunidade de restaurar a fé na humanidade e vai atrás de novos aliados para encarar  o vilão Lobo Estepe (Ciarán Hinds) que chega em busca de vingança e que quer transformar o mundo, literalmente, em um inferno. Diana Prince (Gal Gadot), ou melhor Mulher-Maravilha, é o seu primeiro contato devido ao evidente carisma e humildade que a personagem transmite desde da sua primeira aparição e que contribuirá, e muito, para o desenrolar do drama. Ao ser abordado, Barry Allen, ou popularmente conhecido como Flash (Ezra Miller), é o jovem recruta que não pensa duas vezes ao dizer sim ao magnata milionário quando é convidado para se juntar ao grupo. Os dois personagens mais complexos, Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa) e Victor Stone/Ciborgue (Ray Fisher), são os mais teimosos em aceitar o convite, mas nada que uma cutucada na ferida não os motive a salvarem o planeta do mal.

Toda esta introdução é feita de forma direta, apesar de algumas enrolações dramáticas para, claro, reforçar o tom sombrio tão característico da DC Comics. Entretanto, a narrativa da Liga da Justiça te encaminha com um único objetivo ao longo do filme, que entre batalhas e surpresas, consegue atingi-lo de uma forma, inesperadamente, boa. O roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon ainda sofre com um milhão de diálogos complicados pois é inútil tantas informações em tão pouco tempo. Principalmente nas cenas em que somos introduzidos à rotina de Flash, Ciborgue e Aquaman, que ainda são desconhecidos do grande público. O retorno do Superman – e isso não é um spoiler – tem um impacto importante, mas absurda por causa de seu temperamento ao reencontrar Lois Lane (Amy Adams) e nada mais importar. Mas se falha nesta condução, é possível parabenizar o bom humor que foi adicionado nas linhas dos personagens ao não largar piadas óbvias e apostar na espontaneidade. Inclusive Batman aparenta estar mais relaxado e Ciborgue, que inicialmente é tido como o mais distante, aos poucos se solta dentro do grupo. Claro que o grande destaque humorístico do filme fica nas mãos de Ezra Miller como Flash, que pelos trailers, já demonstrava ser um dos heróis que nos conquistaria fácil, e com a sua breve história, encanta ainda mais. Assim como Jason Momoa como Aquaman, que certamente é um dos personagens mais aguardados para chegar às telas com um filme solo, rapidamente já ganha a nossa simpatia pela proteção que tem com seu povo e pelo seu tom debochado e sincero com tudo ao seu redor. E para balancear o clima na tela, Ray Fisher é quem traz a carga dramática devido à sua condição trágica de meio robô e meio humano como Ciborgue, e aqui está um dos erros da produção em deixá-lo tão discreto que acaba deixando a sua presença muito questionável durante o desenrolar da história. Já Gal Gadot continua maravilhosa e cada vez mais conquistando o seu espaço como Mulher-Maravilha. Não é à toa que percebendo a influência que a personagem possui, tanto Batman quanto Snyder, a colocaram como a líder do batalhão.

É possível perceber que a boa recepção de Mulher-Maravilha ajudou nos moldes da DC Comics que parece ter encontrado o seu caminho nos cinemas. A direção de Snyder na Liga da Justiça mostrou o seu amadurecimento ao perceber os erros dos últimos filmes ao querer ousar demais e não entregar nem 1% do que havia prometido. O cineasta finalmente abraçou a ideia de não ter medo de realizar um longa de super-heróis e os clichês do gênero. Entre eles, um vilão mediano que acredita ser invencível, mas só prova que mais late do que morde. E vamos combinar, apesar das tecnologias do Século XXI, quem é que ainda se assusta com um personagem digitalmente criado na pós-produção? Não é de se surpreender que Lobo Estepe vem sendo criticado. Mas ao contrário destes momentos, as cenas de ação e efeitos especiais se dividem entre boas e vergonhosas. Mulher-Maravilha é uma das responsáveis por protagonizar os mais eletrizantes combates, assim como Aquaman lutando contra os inimigos no fundo do mar e os primeiros confrontos em conjunto da Liga são surpreendentes. Porém, a produção perde o ritmo, principalmente após a chegada de Superman na turma, e até mesmo os efeitos se tornam tão superficiais que não existe mais energia para acompanhá-los. O que pode ser resultado da participação de Joss Whedon, que assumiu a edição final do longa após Snyder se ausentar por problemas pessoais, que teve que lidar com uma direção já quase finalizada. Com duas cenas pós-créditos – uma que aproveita o novo toque cômico e outra que revela que tem mais aventuras vindo por aí – a Liga da Justiça não chegou no nível que DC Comics quer alcançar com seus filmes, mas pretende se divertir enquanto percorre o caminho certo.

• Texto escrito originalmente para site Correio do Povo

Justice League | Direção: Zack Snyder | Roteiro: Chris Terrio e Joss Whedon | Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Jason Momoa, Amy Adams, Ezra Millher, Amber Hears, Henry Cavill, J.K. Simmons, Ray Fisher, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons | Gênero: Ação e Aventura | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 2h |