Gaga: Five Foot Two ★★★

O lançamento de Gaga: Five Foot Two não poderia ser mais propício do que neste momento em que a Lady Gaga se trata da fibromiagla, uma síndrome que provoca dor em todo o seu corpo. Tal dor que lhe causou o adiamento de vários shows da sua nova turnê Joanne, inclusive o tão esperado retorno ao Brasil com um show no Rock In Rio. O documentário, produzido por ela e pela Netflix, permite que o público entenda profundamente o que acontece além das fantasias e alta-costuras que nos acostumamos a acompanhar e adorar. O que ela confessa que gosta, claro, afinal quem não gostaria de ser amada por estas extravagâncias em uma época que a música pop estava saturada de jovens sexys e iguais? Ou melhor, ser quem revolucionou o pop depois do  excelente disco The Fame, que cegamente é um dos melhores e um dos meus favoritos de todos os tempos. E que sim, deu um novo gás para os amantes do “bate-cabelo”, moda e esquisitices. Graças à Gaga, muita coisa mudou. Especialmente a autoestima de muitos jovens devido as suas músicas exaltando a autoaceitação e que tudo bem ser diferente, pois you were born this way, baby. Five Foot Two pode ser uma estratégia de marketing, mas também é uma oportunidade  de ouvir  sobre o que ocorreu à Lady Gaga nos últimos anos quando pulou do topo do mundo até ao temido flop total. Mas diferentemente da maioria dos documentários, o filme dirigido por Chris Moukarbel não quer mostrar ao público quem é Stefani Joanne Angelina Germanotta, da onde veio e todas as suas inspirações, mas quem ela se tornou após a fama e o quanto isto lhe custou emocional e fisicamente, como dá para perceber.

A equipe acompanhou Gaga durante 8 meses. Época em que produzia o disco Joanne, filmava a 6ª temporada da série American Horror Story: The Hotel e alimentava a ideia de realizar o show do intervalo da final da National Football League (NFL), um dos ápices da carreira de todo músico. O filme a capta nestes bastidores profissionais que a consome 90% do dia e os 10% restantes são o que ela tanto lamenta em um dos seus desabafos quando diz que vai do caos de pessoas falando e a tocando o dia inteiro para à noite silenciosa e solitária. Aqui retratadas de formas bem dramáticas. Sua vida pessoal é apresentada de forma bem limitada e cuidadosa. O filme inicia com ela reclamando do seu ex-noivo, o ator Taylor Kinney, uma forma de tentar algo íntimo com o espectador, já que relacionamentos em gerais são as melhores formas de iniciar uma conversa com alguém, né non? Assim quando nos leva para conhecer sua avó e igualmente a história por trás do nome Joanne, uma tocante homenagem à uma tia que faleceu aos 19 anos.

Em pequenos detalhes vamos juntando os pequenos cacos que se tornou a vida da cantora nos últimos anos e isto foi um dos fatores que a me fizeram gostar ainda mais dela. Apesar de muito encenada alguns momentos, há uma sinceridade nas palavras de Gaga que fala abertamente do quanto há o lado bom e ruim da fama. Pode até parecer piegas, mas é compreensível o seu lado humano, e principalmente como mulher, em querer equilibrar o melhor dos dois mundos, como cantaria Hannah Montana (sorry). Preste atenção na chateação que Gaga tem com Madonna, pois a rainha do pop e maior exemplo para qualquer cantora do gênero, nunca a confrontou pessoalmente e apenas a cutucou e intimidou através da mídia. O que nos leva para, em seguida, assistir a gravação de Hey Girl com Florence Welch, que fala precisamente sobre sororidade e é o que Gaga gosta de espalhar por aí. Por que vamos ser sinceros, você nunca a viu atacando alguém por aí, não é? E o bom de ter esta edição na vida pessoal é mostrar o quanto cantar e botar para fora os seus sentimentos a ajudaram no processo de reconstrução na sua música. Não é à toa que Joanne se distancia da antiga Gaga se revelando um som mais limpo e autoral, mas sem deixar de lado as características que a transformaram na Mother Monster. Ao assumir suas inseguranças, Lady Gaga descasca mais uma pele em Five Foot Two para, aos poucos, superar as fraquezas e continuar acolhendo little monsters com sua música.

Gaga: Five Foot Two (2017) | Direção: Chris Moukarbel | Elenco: Lady Gaga, Bobby Campbell, Mark Ronson, Joe Germanotta, Donatella Versace e Florence Welch | Gênero: Documentário | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 1h40min |

Mãe! ★★

Mãe! se tornou um daqueles filmes-eventos, em que você terá que, obrigatoriamente, assisti-lo para poder acompanhar a onda de opiniões sobre o mais novo polêmico filme de Darren Aronofsky, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. Desde da sua sinopse não divulgada antes mesmo da sua primeira exibição no Festival de Veneza, a campanha foi forte para deixar o longa protagonizado pela Jennifer Lawrence como misterioso, criando uma expectativa tão grande nos fãs que adoram este frio na barriga. Porém, esqueceram que a queda poderia ser enorme em cima desta produção.

O longa dirigido por Aronofsky, que escreveu o roteiro em apenas cinco dias, seja exatamente o que falam sobre ser dificilmente digerido. Entretanto, este resultado se deve pelo excesso de confusões mentais e pela necessidade de a todo momento querer incomodar o espectador. Ou pior, querer assustar com os recursos mais clichês oriundos dos filmes de suspenses como, por exemplo, uma porta que se abre sozinha, alguém aparece repentinamente atrás da porta da geladeira ou simplesmente, algum personagem muda drasticamente de humor durante uma cena. Tudo isso acontece dentro de um casarão afastado de qualquer civilização urbana, onde a Mãe (Jennifer Lawrence) mora com o Poeta (Javier Bardem) e ali tentam reconstruir aquela residência que foi devastada por uma grande tragédia. A rotina do casal é interrompida com a chegada de um Médico (Ed Harris) e da sua Esposa (Michelle Pfeiffer), uma dupla completamente invasiva e inconveniente, mas que introduzem vida naquele espaço vazio. O que, claro, incomoda a Mãe, pois ela não quer nenhum estranho no meio da sua perfeita relação com o Poeta. A partir daí, situações estranhas e constrangedoras dominarão a história até o seu “desfecho”.

A atuação de Jennifer Lawrence é insuportavelmente passiva em meio a tanto caos e incomodação que a personagem tanto reclama. A performance da atriz não tem nem um terço da força expressiva, daquela que vem lá do útero, que esta Mãe necessita para um filme de Aronofsky. Talvez a falta de bagagem de Jennifer seja um dos fatores que a prejudique para um papel como este, sendo que a escolha dos seus papéis no cinema não a ajude muito para formar um currículo respeitável ou que crie uma experiência variada como atriz. O que só comprova o quão fraca ela ainda é perante aos seus colegas em cena. Javier Bardem é um monstro e este sim, é literalmente o maluco da história. Ele é daqueles atores que provocam vários sentimentos em um único momento e seu papel em Mãe! é um megalomaníaco sedento pelo amor dos outros. O ator desperta o frenesi desta adoração em cima do poeta vaidoso que representa o seu público e escreve exatamente o que os outros sentem e é aí que o filme tem seus pontos altos com estas representações do fanatismo excessivo, o egoísmo em ser o centro das atenções e da insatisfação pessoal.

Irônico é perceber que os fatores que incomodam a Mãe sejam os que mais deixam o drama interessante, já que em nenhum momento ela nos provoque a curiosidade de conhecê-la. A protagonista simplesmente está ali para agradar os outros e servir de fantoche nas mãos do marido. De acordo com o andamento da narrativa, você vai comprando a ideia e encaixando as peças da história, e então criando a sua interpretação sobre submissão, individualismo e o medo do desconhecido que o filme propõe. O diretor acerta nos pontos de sufocamento, principalmente quando coloca a câmera nas costas de Jennifer e deixa o público tonto com seus passos, e na subjetividade que coloca nos intrusos daquela casa. Porém, quando a loucura toma conta daquele local, não há SWAT que a salve. A pancadaria que acontece na virada final é absurda e chega a se tornar desnecessária com a tamanha confusão gratuita que Aronofsky insiste que a gente abrace de olhos fechados. Provando que Mãe! é um exagero, e gritaria, por nada. Mas vou reconhecer que Aronofsky cumpriu, mais uma vez, a tarefa de sempre mexer, de alguma forma, com a gente. 

• Texto escrito originalmente para o site Correio do Povo 

Mother! (2017) | Direção e Roteiro: Darren Aronofsky | Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer | Gênero: Drama | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 2h1min

Uma Mulher Fantástica ★★★

Uma Mulher Fantástica estreia hoje nos cinemas levando para o público o relato dolorido da perda de um grande amor e as consequências de ter que lidar com a família conservadora do amado. Entretanto, o sofrimento que o público irá assistir será completamente em dobro devido a protagonista ser uma mulher transexual e sofrer absurdamente com preconceitos vindos de todos os lados da história. Esta é uma das denúncias que é possível presenciar no longa dirigido pelo chileno Sebástian Melo, que já reproduziu outras momentos femininos no seu último trabalho Gloria (2013) e mais uma vez, traz um outro universo protagonizado por uma mulher para os fãs de um dramalhão.

No filme, Marina (Daniela Vega) é uma garçonete e cantora que namora Orlando (Francisco Reyes), um homem mais velho, e que inesperadamente, morre no dia do seu aniversário após uma romântica comemoração. A partir daí inicia uma série de humilhações que envolvem médicos, policiais e principalmente da família do falecido, que não esconde por um momento a vergonha de ver a protagonista como a escolhida daquele pai e marido exemplar. O diretor Sebástian Melo escolhe cuidadosamente a forma como exibir estes constrangimentos que a personagem desnecessariamente passa, mas ao mesmo tempo, faz com que o espectador compreenda esta violência diária que uma transexual vive na sociedade. É interessante também como Melo apresenta o íntimo de Marina, que foge de qualquer esterótipo, que friamente tem que absorver todo o avalanche que ocorre em questão de 24 horas e que nem por um momento, deixa de ser esta mulher fantástica em cena.

A atriz Daniela Vega imprime caprichosamente uma personagem abalada com os acontecimentos e que quando menos se espera, surpreende com cenas como o ataque em cima da ex-mulher no funeral do namorado e principalmente com a sua performance final. Se à primeira vista, a protagonista Marina possa aparecer sem expressão, é possível sentir a sua necessidade de um carinho neste momento tão maluco na sua vida. Retrato que o longa apresenta delicadamente quando Marina visita seu professor de música, sendo este o único a enxergá-la sem filtros.

Cenas como esta, cheias de significados e que preenchem fortemente a história, também são expressados durante o longa quando Marina encontra na música o seu refúgio para expressar a dor, ou nos minutos finais quando se depara com o vazio de um armário, simbolizando materialmente a herança que, infelizmente, o amado lhe deixou. A resistência e força deste conjunto apenas reforçam o título de Uma Mulher Fantástica que é atribuído para todas as Marinas deste mundo.

• Texto escrito originalmente para o site Correio do Povo 

Una Mujer Fantástica (2017) | Direção: Sebastián Melo | Roteiro: Sebastián Melo e Gonzalo Maza | Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco, Aline Küppenheim, Sergio Hernandez e Antonia Zegers | Nacionalidade: Chile | Gênero: Drama | Duração: 1h44min

Bingo: O Rei Das Manhãs ★★★★

Bingo: O Rei Das Manhãs é um filme sensacional por assumir a ousadia e a alegria de ser, literalmente, um palhaço sem-vergonha. O filme dirigido por Daniel Rezende é livremente baseado na vida de Arlindo Barreto, interprete do palhaço Bozo nos anos 1980 durante a programação matutina do SBT. Mas devido aos direitos autorais do personagem, no longa todos os nomes foram modificados, mas de fácil identificação para os que têm as noções mais básicas de conhecimentos da história da televisão brasileira. Fato que é quase difícil separá-lo  da evolução da sociedade que parece que mais ficou careta do que progrediu com o passar dos anos. Digo isso, pois é uma loucura assistir à algumas cenas de Bingo e perceber o quanto era normal uma mulher seminua dançar rodeada de crianças, um palhaço ter um palavreado tão ambíguo com um público tão inocente e um homem vestido de mulher sem tamanhos escândalos em um horário dedicado aos pequenos que se divertiam com estas coisas. Aparentemente, todos cresceram sadios e sem traumas.

Rezende optou por uma direção segura ao apostar na narrativa cronológica dos fatos e ir intercalando com a decolada na carreira de excessos do ator de pornochanchadas Augusto Mendes (Vladimir Brichta) com a vida pessoal, onde cuida da mãe, a também atriz Marta Mendes (Ana Lúcia Torres) e do filho Gabriel (Cauã Martins). Apesar de óbvia, a aposta de seguir esta ordem funcionou devido a união do roteiro e montagem super ágeis que não pouparam na coragem de arriscar sem pudores, em por exemplo, diálogos, sexo, alfinetadas e até mesmo no humilde plano sequência lá no seu finalzinho. Acredito que umas das melhores coisas que funciona em Bingo: O Rei das Manhãs é ter esta narrativa mais clichê já que, afinal, nada na história de Bingo seria tão maçante para maquiar com artimanhas cinematográficas. As apostas em suas devidas fichas foram mais do que vitoriosas. O filme é extremamente rico graças à direção de arte em recriar elementos importantes juntamente com a direção de fotografia que soube utilizar luzes e cores para nos alucinar nesta viagem sem juízo de Augusto com milhões de referências pop e histórica. Mas como nem só whiskey e orgias se vive da cafonice glamourosa da televisão, o palhaço também tem seus dias cinzas e isto também ajuda a nos sensibilizar com a figura que tem que se esconder atrás do nariz e da máscara de Bingo.

O responsável por nos levar lá nas alturas e nos arrastar no chão com Bingo é Vladimir Brichta que comprova, mais do que nunca, o seu talento como artista. Nem é mais ator depois deste papel, ele é um verdadeiro artista. Com energia de sobra, Brichta apresenta um Augusto esperto e comprometido a cumprir o impossível e com todo tesão que os desafios no trabalho poderiam lhe proporcionar. O ator é puramente a alma do filme com a sua entrega tão espontânea que sinceramente, eu nem sei mais quem foi Bozo, mas sim Bingo. Não vou negar que em um dos seus momentos mais à flor da pele, eu nem conseguia olhar para tela por causa de mais um excesso do personagem. Mas claro, tudo encaixadamente dentro do trabalho de Brichta que merece todos os aplausos do mundo. Leandra Leal interpreta a produtora do programa Lúcia, uma frígida crente que segue todas as regras e que nossa, é gigante em dividir a tela com Vladimir Brichta e é tão marcante na narrativa. Assim como Ana Lúcia Torres, que como as atrizes de meia-idade, a sua personagem sofre com a geladeira da emissora Mundial e a sua desilusão nos machuca tanto. Assim como o pequeno Cauã Martins, que é rapidamente compreendido pelo público através da tristeza do seu olhar e da sua postura ao ter que lidar com o pai que brinca com todas as crianças do mundo, menos com o próprio filho. E assim como alegrias e tristezas da vida, todo o conjunto de Bingo: O Rei Das Manhãs foi uma palhaçadas mais bem feitas do cinema brasileiro.

Bingo: O Rei Das Manhãs (2017) | Direção: Daniel Rezende | Roteiro: Luiz Bolognesi | Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torres, Cauã Martins, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Domingos Montagner e Augusto Madeira | Nacionalidade: Brasil | Gênero: Drama | Duração: 1h53min