Como Nossos Pais é coroado na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado

Os vencedores! Foto: Edison Vara / Pressphoto
Como Nossos Pais saiu como o grande vencedor da 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado com seis Kikitos na premiação que ocorreu na noite deste sábado, em Gramado. O longa dirigido maravilhosamente pela Laís Bodanzky levou prêmios como, claro, de Melhor Direção, Melhor Filme, Melhor Montagem, Melhor Atriz Coadjuvante para Clarisse Abujamra, Melhor Ator para Paulo Vilhena e Melhor Atriz para Maria Ribeiro. Estes dois últimos troféus foram entregues de forma equivocada e muito errada, pois devido aos concorrentes da dupla, eles eram considerados os menos fortes a ganharem os seus prêmios. Maria Ribeiro tinha Magali Biff por Pela Janela e Camila Morgado em Vergel, com dois papéis superiormente mais fortes em comparação ao seu trabalho, e Paulo Vilhena foi a maior zebra e digo que ele nem deveria estar ali, queridinho.

Laís Bodanzky com Kikito de Melhor Direção. Foto: Edison Vara / Pressphoto
Mas enfim, voltando à premiação, a justiça foi feita com os longas As Duas Irenes, de Fabio Meira, e Bio, de Carlos Gerbase que levaram quatro e trêss Kikitos, respectivamente. O filme de Meira foi consagrado como Melhor Roteiro, Prêmio do Júri da da Crítica e Melhor Ator Coadjuvante para Marco Ricca, mostrando a grande riqueza que a produção tem e mereceu cada destaque da noite. Assim como Bio, que confesso que fiquei com coração na mão achando que este falso-documentário não seria valorizado como merece ser. E foi. O trabalho de Gerbase foi reconhecido pelo Melhor Desenho de Som e com as honrarias do Júri Popular e Prêmio Especial do Júri. Uma pena que filmes como Pela Janela e Vergel passaram despercebidos e foram embora sem nenhum Kikito. O que é uma vergonha devido ao belo trabalho das diretoras fizeram com histórias vividas por mulheres. Esta representatividade também merecia maior reconhecimento. Principalmente ao tamanho talento visto em cena pelas protagonistas que esbanjam talento em cena.

Já nos Curtas-Metragens brasileiros, a premiação foi mais justa e soube reconhecer um pouco de cada trabalho visto nessa semana no Festival. A Gis foi a grande vencedora com três Kikitos. O pequeno registro do diretor Thiago Carvalhaes recorda a história de Gisberta Salce, uma mulher transexual brasileira que foi brutalmente assassinada em 2006 em Portugal, local onde vivia. Ela se tornou um símbolo da luta pelos direitos transexuais e inspirou uma música composta por Maria Bethânia. O documentário é lindo e emocionante. Ainda bem que foi justamente premiada em honra a Gis. O Quebra-Cabeça de Sara também foi outro querido da premiação e teve a própria protagonista do filme, a amada Sara Neves, recebendo o Kikito. Mas o momento mais emocionante da noite foi com Nando Cunha, ganhando o seu primeiro Kikito como Melhor Ator pelo curta Telentrega, que não economizou nas lágrimas e demonstrando muita alegria com este prêmio. “Queria provar que nós atores negros, podemos fazer qualquer trabalho. Somos atores, somos artistas”, afirmou Nando em protesto por mais artistas negros no cinema.

Nando Cunha e Carlos Gerbase registram a comemoração. Foto: Edison Vara/ Pressphoto
Apesar de contrariada com alguns dos principais prêmios, não vou negar que adorei maratonar na sala de cinema assistindo filmes ainda inéditos no circuito do Brasil e acompanhar de perto cada momento de um festival de cinema. Ainda mais quando é pertinho de casa. Em 2018, estaremos novamente em Gramado para mais uma empolgante cobertura.

Confira a lista completa dos premiados da 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado:

Longas-Metragens Brasileiros 
Melhor Filme: Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky
Melhor Direção: Laís Bodanzky, por Como Nossos Pais
Melhor Atriz: Maria Ribeiro, por Como Nossos Pais
Melhor Ator: Paulo Vilhena, por Como Nossos Pais
Melhor Atriz Coadjuvante: Clarisse Abujamra, por Como Nossos Pais
Melhor Ator Coadjuvante: Marco Ricca, por As Duas Irenes
Melhor Roteiro: Fábio Meira, por As Duas Irenes
Melhor Fotografia: Fabrício Tadeu, por O Matador
Melhor Montagem: Rodrigo Menecucci, por Como Nossos Pais
Melhor Trilha Musical: Ed Côrtes, por O Matador
Melhor Direção de Arte: Fernanda Carlucci, por As Duas Irenes
Melhor Desenho de Som: Augusto Stern e Fernando Efron, por Bio
Melhor Filme – Júri Popular: Bio, de Carlos Gerbase
Melhor Filme – Júri da Crítica: As Duas Irenes, de Fabio Meira
Prêmio Especial do Júri: Carlos Gerbase, pela direção dos 39 atores e atrizes em Bio
Prêmio Especial do Júri – Troféu Cidade de Gramado: Paulo Betti e Eliane Giardini, pela contribuição à arte dramática no teatro, televisão e cinema brasileiros

Curtas-Metragens Brasileiros 
Melhor Filme: A Gis, de Thiago Carvalhaes
Melhor Direção: Calí dos Anjos, por Tailor
Melhor Atriz: Sofia Brandão, por O Espírito do Bosque
Melhor Ator: Nando Cunha, por Telentrega
Melhor Roteiro: Carolina Markowicz, por Postergados
Melhor Fotografia: Pedro Rocha, por Telentrega
Melhor Montagem: Beatriz Pomar, por A Gis
Melhor Trilha Musical: Dênio de Paula, por O Violeiro Fantasma
Melhor Direção de Arte: Wesley Rodrigues, por O Violeiro Fantasma
Melhor Desenho de Som: Fernando Henna e Daniel Turini, por Caminho dos Gigantes
Melhor Filme – Júri Popular: A Gis, de Thiago Carvalhaes
Melhor Filme – Júri da Crítica: O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro
Prêmio Canada 150 de Jovens Cineastas: Calí dos Anjos (Tailor)
Prêmio Canal Brasil de Curtas: O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro
Prêmio Especial do Júri: Cabelo Bom, de Swahili Vidal e Claudia Alves

Longas-Metragens Estrangeiros 
Melhor Filme: Sinfonia Para Ana, de Virna Molina e Ernesto Ardito
Melhor Direção: Federico Godfrid, por Pinamar
Melhor Atriz: Katerina D’Onofrio, por La Ultima Tarde
Melhor Ator: Juan Grandinetti e Agustín Pardella, por Pinamar
Melhor Roteiro: Joel Calero, por La Ultima Tarde
Melhor Fotografia: Fernando Molina, por Sinfonia Para Ana
Melhor Filme – Júri Popular: Mirando al Cielo, de Guzman García
Melhor Filme – Júri da Crítica: Pinamar, de Federico Godfrid
Prêmio Especial do Júri: Los Niños, de Maite Alberdi

Vergel ★★★

Escolhido para encerrar a semana de mostra competitiva de longas brasileiros na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Vergel soube ir a fundo em cada momento vivido por Camila Morgado. O marido da sua personagem morre durante as férias do casal na Argentina e devido a tamanha burocracia, ela tem que esperar vários trâmites legais para levar o corpo do amado de volta para o Brasil. Inicia aí, então, uma longa espera solitária que a fará perder noção da sua realidade e o silêncio perturbador da sua casa, tampouco, a ajudará a enfrentar este momento triste na sua vida.

Vergel retrata bastante sobre este período sombrio do luto em que a protagonista tem que, forçadamente, enfrentar. Enquanto busca explicações, e o público também, sobre a morte do marido, ela observa o cotidiano que segue normalmente, enquanto que ela, tem que seguir parada, em apenas um local, sendo impossibilitada de sair daquele sufocante e quente apartamento. Espaço que até em suas cores demonstra mais vida do que no corpo pálido e frágil da personagem de Camila. O único alívio que aparece na sua vida é a presença da vizinha que vai regar as plantas e que no final das contas, acaba “regando” literalmente a dor desta viúva que encontra nesta outra mulher o apoio emocional e sexual para tentar seguir em frente.

O longa dirigido por Kris Niklison é a coroação da mulher no cinema. Ao colocar a atriz Camila Morgado em várias cenas de nudez, sexo e masturbação, provoca o desafio de não objetificar o corpo feminino em cena. Ao contrário. O mais interessante é que não há julgamento e não coloca a protagonista em questionamentos sobre sua sexualidade. A relação com a vizinha, interpretada docilmente por Maricel Álvarez, não é, nem de longe, algo vulgar e gratuitamente pornográfico. A protagonista encontra ali o seu afeto e apoio para superar esta longa espera que a enlouquece. Com a vizinha, ela parece voltar a se encontrar como pessoa e se sentir viva. Ao contrário do que houve com seu marido. Assim, no encontro com outro ser humano, principalmente com outra mulher, com quem a personagem, de quem não sabemos nem o nome, pode voltar ao seu normal. Vergel é lindamente a superação desta loucura de viver a vida, sozinha.

• Filme assistido na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado 

Bio ★★★★★

Bio é anunciado como um documentário impossível, mas a verdade é que se trata de um filme imaginativamente possível. Exibido nessa quinta-feira na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado, o longa do diretor Carlos Gerbase é narrado por 39 personagens que recordam acontecimentos que moldaram o caráter deste protagonista que vive apenas nas palavras ditas ao espectador e nunca é apresentado em cena. O mais interessante deste falso documentário é provocar o público a criar a sua própria opinião deste personagem sem nome, que nasceu de tabelinha e viveu por 101 anos na Terra. Não seria exagero em considerá-lo um dos melhores longas exibidos nesta semana no evento serrano que tem sua mostra encerrada nesta sexta-feira. Então não vou me acanhar e sim, vou classificá-lo como o meu segundo favorito do Festival, sendo o primeiro ainda com As Duas Irenes.

Mas voltando a Bio, o diretor Carlos Gerbase construiu uma narrativa em que desde dos pais até a neta, toda a inusitada história deste personagem é revelada em depoimentos de pessoas que participaram efetivamente na sua vida. O filme é separado por capítulos e sempre com três personagens que de forma muito ágil e natural, conversam, riem e desabafam sobre o determinado período que estão relembrando. O mais fascinante de Bio é o roteiro, que também foi escrito por Gerbase, ser basicamente criado a partir dos diálogos e que instigam o público a costurar cada uma das histórias que estão sendo narradas e que juntas, formam uma só. Outro detalhe que pode ser considerado dificílimo para os realizadores de documentários é colher depoimentos logo após de tais fatos terem ocorrido. Este é outro item ousado do diretor que não se limitou em construir este registro que segue uma linha cronológica, mas que capta a fala dos envolvidos sempre no tempo presente. Então vai ter os irmãos exatamente caracterizados nos anos 1960, da professora do colégio após uma confusão em 1970 ou da neta que é responsável por criar esta “biografia” do avô e presta suas última palavras para contar quem foi este ser humano singular em 2070.

Bio é provocativo por justamente atiçar desde dos primeiros minutos de projeção. É um falso documentário que faz cada um criar a sua própria percepção deste ser que colheu uma vida cheia de experiências maravilhosas, fruto, talvez, da sua mania de sempre falar a verdade. E melhor, faz com que nossa mente trabalhe para costurar a história deste cara que não passou em vão neste universo. Bio é genial na sua execução, na sua interpretação e principalmente, na nossa imaginação.

Bio (2016) | Direção e Roteiro: Carlos Gerbase | Elenco: Maria Fernanda Cândido, Maitê Proença, Marco Ricca, Werner Schünemann, Rosanne Mulholland, Sheron Menezzes, Tainá Müller, Bruno Torres, Branca Messina, Felipe Kannenberg, Carla Cassapo, Artur Pinto, Roberto Oliveira, Mateus Almada. Luísa Horta, Lívia Perrone, Nadya Mendes, Milena Corte, Léo Ferlauto, Enzo Petry, João Pedro Alves, Júlia Bach, Thainá Gallo, Gabriela Poester, Júlio Conte, Felipe De Paula, Luiza Ollé, Elisa Heidrich, Carlos Cunha, Déborah Finocchiaro, Nadinne Oliveira, Fredericco Restori, Luciano Mallmann, Giulia Góes, Guilherme Kury, Zé Victor Castiel, Fernanda Carvalho Leite, Charlie Severo, Girley Paes | Gênero: Drama | Nacionalidade: Brasil | Duração: 105min

• Filme assistido na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado

Sinfonia Para Ana ★★

Exibido nessa terça na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Sinfonia Para Ana tem uma proposta interessante com a sinopse de ser o registro de uma época bem conturbada na Argentina. Situado durante a ditadura militar (1966-1973), o longa mostra Ana (Isadora Ardito) que vive o auge da adolescência, onde está, não só na descoberta do amor, como descobrindo também os problemas políticos que o país passa com o pré-golpe de estado. Inicialmente, o filme aparenta mostrar a luta engajada da jovem, mas o enredo se perde em focar nos dramas românticos do que nos interesses sociais da protagonista.

O longa dirigido por Ernesto Ardito e Virna Molina tem uma boa proposta, mas é inconsistente ao misturar o cenário político com a vida pessoal da protagonista. Afinal, o recheio do filme acaba sendo as indecisões amorosas enquanto que colegas de Ana são perseguidos e grupos realizam protestos. E ela ali, observando tudo de longe, sem nem ao menos se mostra ativa contra o governo. O segundo problema do filme é a incoerência da narrativa ao colocar Ana, gravando uma fita, recordando esta história, para alguém que viveu tudo junto com ela. É cair na cilada de dar um toque mais dramático, mas acaba sendo absurdamente redundante.

Particularmente não gosto da ideia desta mistura histórica como pano de fundo com temas como ditadura e demais relacionamentos, pois este assunto político é muito traumático, independente da região, e tira a sua importância, que sim, deve ser lembrada como memória para que não se repita na história da humanidade. Ao interligar estes dois focos em um longa, sem costurar devidamente os pontos, torna superficial uma trama que poderia ter seu potencial elevado, já que visualmente, Sinfonia Para Ana é um deleite. Mas infelizmente, não é o bastante para salvar a pátria do filme.

Direção: Ernesto Ardito e Virna Molina | Roteiro: Ernesto Ardito, Virna Molina e Gaby Meik | Elenco: Isadora Ardito, Rafael Federman, Ricky Arraga, Sergio Boris, Valentina Bdrodsky, Mariana Carrizo, Andres Cotton e Leonor Courtoisie | Nacionalidade: Argentina | Gênero: Drama | Duranção: 1h59min

• Filme assistido na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado 

Pela Janela ★★★

Vou roubar as palavras ditas pela equipe do longa Pela Janela e definir a história de Rosália como uma experiência para ser sentida, antes de mais nada, para enfim, poder compreender a protagonista vivida pela atriz Magali Biff. O filme dirigido por Caroline Leone, exibido na noite dessa quarta-feira na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado, exibe o drama de Rosália, que é demitida do seu trabalho após 30 anos de dedicação. Deprimida, ela é consolada pelo querido irmão José (Cacá Amaral) que a leva para uma viagem de carro até Buenos Aires, Argentina. A viagem será fundamental para Rosália ampliar a sua visão sobre o mundo e também de si mesma.

Como dito antes, Pela Janela não é um filme de ação, mas de reflexão. Com seu modo silencioso, nós acompanhamos a viagem destes dois irmãos que reafirmam este sentimento de união até o fim do trajeto. Ele, por não querer ser invasivo, não toca no assunto da demissão e a vai conduzindo sutilmente no famoso “bola pra frente” que a vida segue. O trabalho de Cacá Amaral é delicado e demonstra todo carinho que o personagem tem pela irmã, que também se dedicou a cuidá-lo ao longo dos anos. Seria muito mais como uma troca de papéis neste momento difícil na vida de Rosália. Ela, que aparentemente não tem filhos e nenhum vinculo fora do emprego, se vê perdida neste período que pode ser tão complicado para um mulher no auge dos seus 60 e poucos anos. O olhar, a postura e o sentimento de tristeza é expressado corporalmente pela atriz Magali Biff que compõe uma personagem difícil. Entretanto, é muito fácil se solidarizar com Rosália, que nos detalhes da sua passagem na tela, vai conhecendo muito mais do mundo fora da sua realidade e que absorve isto como forma de autoconhecimento.

O filme de Caroline Leone abre espaço para colocar uma mulher madura em cena e deixá-la representar esta história tão próxima do nosso cotidiano. É importante ressaltar que Pela Janela é um filme para ser observado em todos os seus aspectos. O olhar que a diretora apresenta para o público é para exatamente nos colocar como companheiros de Rosália, como se de alguma forma, nós estamos ali também para apoiá-la neste momento solitário. É um filme sensível, que traz a representatividade destas mulheres com mais de 60 anos nas telas, e principalmente, quer que cada porta fechada seja a oportunidade de abrir uma nova janela na vida.

Pela Janela (2017) | Direção e Roteiro: Caroline Leone | Elenco: Magali Biff e Cacá Amaral | Gênero: Drama | Nacionalidade: Brasil | Duração: 1h27min

• Filme assistido na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado

A Fera na Selva ★★

Todo ser humano sofre do mal de, às vezes, ser tão passivo à vida que esquece da principal tarefa que Deus, ou do maluco que inventou a Terra, colocou nas nossas mãos: viver. E é exatamente isto que A Fera Na Selva, exibido nessa terça-feira na 45ª edição do Festival de Gramado, esqueceu de fazer em toda a essência do filme. A sinopse dá a deixa de que vamos presenciar algo de extraordinário que está prestes a acontecer na vida de João (Paulo Betti), que tem na amizade com Maria (Eliane Giardini), a companhia para esperar este fascinante acontecimento na sua vida.

Assim como o longa Um Limite Entre Nós, o filme dirigido pelo trio Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel também é baseado em uma obra literária e levada do mesmo jeito para a tela. A Fera Na Selva é baseado no livro, de mesmo nome, do escritor inglês Henry James, e tem a sua narração entoada pelo ator José Mayer. Mas assim como o personagem de Paulo Betti, também ficamos na espera, na espera e na espera de alguma ação. Ao contrário do longa dirigido por Denzel Washigton, aqui a história não acontece nem pelos diálogos poeticamente declamados pela dupla intelectual em cena. Passa tempo, locais, rotinas e festas, e Maria e João continuam debatendo sobre o que estão esperando. O que pode parecer até sugestivo ou até uma indireta ao fato de que a gente deixa a vida acontecer, não chega a ser inspirador para quem assiste, definitivamente, tomar alguma atitude e viver.

A Fera Na Selva é perfeitamente produzido com uma arte, figurinos e cenários para dar vida ao imaginário desta produção 100% literária. Com tantas frases de efeito, é uma pena o filme desperdiçar tanto talento em cena. Principalmente com a elegância da atriz Eliane Giardini, que ilumina a história do início ao fim com sua energia e sedução com a personagem que também fica esperando e esperando o fantástico acontecer na sua vida. João, interpretado por Paulo Betti, chega no ponto de ser uma pessoa irritante e egoísta ao tomar toda atenção para si e ser tão desprezível com tudo na sua volta. Infelizmente, A Fera Na Selva é exatamente aquilo que se propôs: esperar para nada acontecer.

A Fera Na Selva (2017) | Direção: Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel | Roteiro: Paulo Betti, Eliane Giardini e Rafael Romao Silva | Elenco: Paulo Betti e Eliane Giardini | Gênero: Drama | Nacionalidade: Brasil | Duração: 1h30min |

• Filme assistido na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado

X500 ★★

Ter que lidar com a solidão em uma cidade estranha após a morte dos pais é um dos desafios que norteiam os protagonistas de X500, do diretor Juan Andrés Arango Garcia, filme exibido na noite dessa segunda-feira na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Primeiramente, a história parece ser sobre as dificuldades que três jovens migrantes enfrentam em pontos diferentes da América, que lidam com uma rotina bem diferente que viviam em seus lares. Entretanto, recomeçar é o principal desafio de Maria (Jembie Almazan), David (Bernardo Garnica Cruz) e Alex (Jonathan Diaz Angulo).

O filme começa nos colocando no lar vazio de David, um indígena que deixa a sua tribo após a morte do pai, e se muda para o Chile para morar em um bairro perigoso com seu primo. Em seguida, conhecemos Alex, órfão de mãe, que é deportado dos Estados Unidos e volta para Colombia, onde moram sua tia e o irmão caçula em um bairro totalmente controlado por criminosos. A última, e a minha história preferida, é Maria, que vai morar com a sua avó no Canadá, após a morte da sua mãe nas Filipinas. O interessante do longa de Garcia é acompanhar as decisões destes migrantes após os choques de realidade de suas novas rotinas. O diretor coloca o espectador, praticamente, nas costas dos personagens para que também se sinta inserido em cada ambiente. Infelizmente, o longa tem uma narrativa arrastada e que deixa o desenrolar das histórias tão demorado que é impossível não ficar impaciente. Se não fosse pela terceira história conduzida por Maria, seria difícil manter a curiosidade pelo desfecho. Apesar do filme ter este trio como foco, os personagens secundários chamam mais atenção e deixam a história um pouco mais empolgante. O destaque fica para avó gritona de Maria e o irmão caçula de Alex que resolve também dar uma nova direção para sua vida.

X500 é um filme com uma proposta atrativa e que cuidadosamente apresenta cada detalhe do vazio que os personagens tentam preencher ao longo da história. Entretanto, a condução poderia ser mais inspiradora, e madura, para estes jovens que estão iniciando esta nova jornada.

X500 (2016) | Direção e Roteiro: Juan Andrés Arango Garcia | Elenco: Jembie Almazan, Bernardo Garnica Cruz e Jonathan Diaz Angulo | Gênero: Drama | Nacionalidade: Canadá, México e Colômbia | Duração: 1h44min

• Filme assistido na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado