Desobediência ★★★

Sexualidade e religião nunca foram temas fáceis de se trabalhar no cinema. Mas com muito talento, é possível contar uma história envolvendo os dois assuntos respeitosamente. Graças ao diretor chileno Sebastián Lelio – ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano com Uma Mulher Fantástica – o filme Desobediência é um exemplo de como é possível quebrar tabus e transmitir esperança em romances LGBTQ+.

Após ser expulsa de casa na juventude, a britânica Ronit (Rachel Weisz) é uma fotógrafa bem sucedida em Nova York, nos Estados Unidos. Inesperadamente, um dia ela recebe a notícia da morte do seu pai, Rav Krushka (Anton Lesser), um rabino altamente respeitado dentro da comunidade judaica ortodoxa. Atordoada, ela volta rapidamente para cidade natal e causa desconforto entre familiares e amigos que apostavam que ela nunca retornaria por causa de suas desavenças com o pai. Lá, ela reencontra Esti Kuperman (Rachel McAdams) sua antiga paixão da adolescência que está casada com o próprio primo, Dovid Kuperman (Alessandro Nivola), potencial sucessor do cargo de Rav na sinagoga. O reencontro traz à tona os sentimentos que Esti e Ronit sentiam e que provocou a trágica separação de ambas no passado. A partir daí, uma série de conflitos emocionais colocam o casal, especialmente Esti, em discussão sobre as escolhas de suas vidas.

O filme é simples, sombrio e não problematiza as escolhas de cada personagem. A bissexualidade de Ronit existe, mas nem por um segundo é estereotipada. Assim como seu estilo de vida que foge dos costumes tradicionais dos seus conhecidos. A rotina dos judeus ortodoxos e seus ensinamentos também estão lá, mas nem por um momento o filme quer atacar este ponto conservador. Entretanto, ele quer trazer o debate sobre o livre arbítrio dentro de uma comunidade limitada à sua própria visão. Ronit escolheu não seguir as tradições da sua família e foi embora. Abrindo mão da comodidade, mas ganhou a liberdade de fazer as suas próprias regras. Já Esti não teve tanta coragem de também fazer a sua própria história e ficou submetida aos que os outros achavam que era melhor para ela. E quis o destino que o casal se reencontrasse para que a vida de cada uma pudesse ter um novo sentido.

Rachel Weisz e Rachel McAdams possuem a delicadeza e a precisão para viverem estas personagens tão opostas. Weisz é segura no papel e a sua personagem não demonstra nenhum pouco do arrependimento de ter ido embora, mas sofre por não ter se resolvido com o pai. A atriz é sútil, mas ao mesmo tempo consegue transparecer uma melancolia para história. Já Adams surpreende pela dramaticidade que sua personagem vive. Aparentemente forçada a casar com o primo, Esti aceitou o seu destino para cumprir o papel que lhe foi determinado segundo manda a sua religião. Mas com a inspiração do seu primeiro amor, ela vai desbrochando e encontrando o seu próprio caminho. O terceiro destaque do longa fica para Alessandro Nivola que apresenta um ótimo discurso nos seus minutos finais.

Representatividade já virou uma especialidade de Sebastián Lelio. Se em Uma Mulher Fantástica, ele soube retratar delicadamente a dor do luto de uma mulher transexual, agora em Desobediência, o diretor abre o espaço para as dificuldades deste romance lésbico dentro de uma comunidade religiosa. A narrativa é conduzida pelo casal e Lelio sabe equilibrar o ponto de vista de cada uma, além de inserir os famosos burburinhos alheios, e incomodativos, em volta. O diretor foge de armadilhas clichês sobre casais lésbicos, não transforma uma cena de sexo em erotismo barato e dá novos propósitos para cada personagem. Desobediência poderia ser facilmente definido como um romance LGBTQ+, mas ele consegue ir além e ser um grito de esperança e independência feminina.

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo 

Disobedience (2017) | Diretor: Sebastián Lelio | Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz | Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Anton Lesser, Alessandro Nivola, Allan Corduner, Nicholas Woodeson, Bernice Stegers e Cara Horgan | Nacionalidade: Inglaterra, Irlanda e Estados Unidos | Gênero: Drama e romance | Duração: 1h54min |

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Paraíso Perdido ★★★

Cinema e música são duas combinações que não poderiam dar mais certo para mim. Em Paraíso Perdido, o filme dirigido por Monique Gardenberg possui os elementos necessários para fazer um ótimo entretenimento para agradar o público que quer algo fácil digestivo. Principalmente para os que estão desconstruindo uma visão antiquada. O longa traz um melodrama embalado por canções exageradamente românticas e antigas, mas totalmente repaginadas pelas novas versões cantadas pelo elenco. A história se passa dentro de um bar de música ao vivo dirigido por José (Erasmo Carlos), um senhor idoso que contrata o policial Odair (Lee Taylor) para ser segurança particular do seu neto Ímã (Jaloo), uma cantora drag queen que sofre uma agressão na rua após ser envolver com Pedro (Humberto Carrão). Lá, Odair também conhece Ângelo (Júlio Andrade), filho de José, que se apresenta na boate e sofre por causa do desaparecimento da sua esposa, e de Celeste (Julia Konrad), filha de Ângelo que descobre que está grávida do seu infiel namorado. Enfim, dá para perceber que Paraíso Perdido está longe de ter uma sinopse fácil de explicar, não é mesmo?

Entretanto, o longa é carregado sob o ponto de vista de Odair que parece ter sido, inexplicavelmente, seduzido por este bar que possui muitas histórias de amor que não terminaram bem. Aos poucos, ele vai desvendando os segredos daquele lugar ao mesmo tempo que ganha a confiança daquela família e também se torna parte dela. Mas a verdade é que tudo naquele ambiente também conta um pouco da própria história e mostra que a sua chegada não foi pura coincidência. Aí que entra a inserção de mais personagens neste enredo novelesco: Nádia (Mallu Galli), mãe de Odair que se tornou muda após ser vítima de uma violência no passado, Eva (Hermila Guedes) filha de José e mãe de Ímã, que estava presa há 20 anos, e Milena (Marjorie Estiano), companheira de Eva na cadeia e também se integra ao grupo. Com mais estas personagens, a trama vai se enrolando cada vez mais e confundindo o entendimento que o público estava amarrando até aqui. O que não foi fácil, visto que inúmeras histórias abertas podem perder a sua validade se nem todas possuírem o mesmo significado.

A diretora Monique Gardenberg, também responsável por Ó, Pai, Ó (2007), talvez repita a mesma fórmula que teve com o hit baiano agora com Paraíso Perdido. Não vou mentir que estas histórias de amores impossíveis são deliciosas para mim. Com uma cena musical anexada em seguida então, já ganhou o meu coração. Porém, talvez o único problema na narrativa seja entregar demais quando não precisa. Existem muitos pequenos conflitos que seriam muito mais interessantes em uma série ou novela do que em menos de duas horas para resolvê-las. Por exemplo, no elenco ainda tem a presença de Seu Jorge como Teylor, outro cantor da casa noturna que, infelizmente, vai perdendo a sua relevância e se torna apenas um convidado de luxo do filme. O que é uma pena já que sabemos que Seu Jorge também arrasa nas telas do cinema. Contudo, é preciso ressaltar a inclusão social que o filme aborda. Seja com Ímã assumindo a sua personalidade confiante, apesar dos problemas que a sociedade ainda preconceituosa insiste em causar, ou seja com Nádia trazendo à tona a linguagem em libras juntamente com a sua sensibilidade encantadora. Enfim, Paraíso Perdido possui a liberdade poética para ser brega e dramática como deve ser. Ainda mais quando se trata dos assuntos do coração.

Paraíso Perdido | Direção: Monique Gardenberg | Elenco: Lee Taylor, Jaloo, Erasmo Carlos, Júlio Andrade, Seu Jorge, Humberto Carrão, Marjorie Estiano, Mallu Galli, Hermila Guedes, Julia Konrad e Nicole Puzzi | Nacionalidade: Brasil | Gênero: Drama | Duração: 110 minutos |

Deadpool 2 ★★★

Dizem que é na dor que encontramos amadurecimento e motivações para seguir em frente. Por incrível que pareça em Deadpool 2 o anti-herói parece ter encontrado um caminho para trilhar. Dirigido por David Leitch, o longa que estreia nesta quinta-feira retoma as aventuras desbocadas e sujas de Deadpool (Ryan Reynolds) que forma a sua própria equipe de mutantes na esperança de salvar o jovem Russell (Lewis Tan) do soldado viajante do tempo Cable (Josh Brolin). E assim como no primeiro filme, esta sequência está recheada de referências do mundo pop e da própria Marvel, o que mostra o quanto o roteiro se apega a estes conteúdos para não deixar a peteca humorística cair. Os diálogos sagazes e rápidos são os maiores responsáveis pelo pique do filme do que necessariamente o enredo principal, que querendo ou não, beira ao comum.

O tom de Deadpool 2 está muito mais preocupado em ser engraçado do que politicamente correto e o filme conquista muito mais pelo descompromisso com o seu universo. Se alguma coisa não faz sentido ou simplesmente dá errado, ele instantaneamente assume a ficção que está inserido. Se, por exemplo, em Vingadores: Guerra Infinita existe uma dramaticidade em querer salvar o mundo, Deadpool está pouco se importando com seriedade e na luta incansável pela justiça. Mas também ser este mercenário que não poupa a vida de ninguém tem as suas consequências traumáticas. O que leva o personagem ter o seu fundo do poço para finalmente entender as mensagens subliminares que o “roteiro fraquinho”, como ele mesmo define, lhe direciona. É neste ponto que o personagem, talvez, tem a sua transformação pessoal para dar sentido a sua permanência na Terra. Porém, o desfecho é levemente decepcionante pois parece ser uma tentativa de virada que invalida tanto a nossa quanto a experiência de Deadpool nesta aventura.

Não existe Deadpool sem Ryan Reynolds e vice-versa. Nesta sequência, o ator só confirma ainda mais a genialidade deste “match” nas telas que dificilmente outra pessoa conseguiria unir o carisma e a sacanagem que o papel pede. O restante do elenco é formidável. Principalmente pela grande diversidade que a história oferece e sem qualquer problematização. Aqui vai desde do adolescente gordinho que reclama da falta de representação nos quadrinhos até o casal de lésbicas que oscila entre amor e ódio ao Deadpool. Os maiores destaques ficam com Josh Brolin, que mesmo sendo o principal vilão, arranca risos e suspiros, e também com a integrante do X-Force, Dominó (Zazie Beetz), com o seu super-poder chamado sorte. Sim, o fato dela ser sortuda é o que salva todos nesta história.

Deadpool 2 manteve o mesmo nível de entretenimento que o seu antecessor, e mesmo sem o terceiro filme confirmando, já deixou o público engatilhado para desvendar mais uma das suas loucuras. Com muito mais deboche e sacanagem, Deadpool continua divertindo sem qualquer compromisso. Um filme que tem Celine Dion, AC/DC e Cher na trilha sonora, só pode ser lacre, não é mesmo?

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo 

Direção: David Leitch | Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds | Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Josh Brolin, Zazie Beetz, Bill Skarsgård, Terry Crews, T.J. Miller, Brianna Hildebrand e Julian Dennison | Gênero: Ação e comédia | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 1h59min

O Processo ★★★★

O Processo é um documentário que recorda um dos períodos mais polêmicos da política brasileira no século 21. Dirigido e escrito por Maria Augusta Ramos, o filme tem como objetivo trazer os bastidores do Congresso Nacional durante o processo do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.  A população brasileira vai recordar como se fosse ontem todo escândalo causado por causa das pedaladas fiscais, que hoje em dia, não são mais considerados crimes de responsabilidade. Se naquela época já era possível perceber as motivações do por que derrubar Dilma por causa da Operação Lava-Jato, agora em O Processo, a diretora mostra a arquitetura que foi feita para a destituição da primeira mulher eleita presidente do Brasil.

O filme inicia com a clara divisão que o Brasil se tornou após as eleições de 2014 com o plongée realizado sobre a região da esplanada em Brasília com uma área dominada pelo vermelho e a outra tomada pelo verde e amarelo. Esta imagem representa o campo de guerra que o País se tornou, supostamente, por causa do governo do PT. Sem qualquer tipo de narração em off, o que a câmera registra se torna autoexplicativo com os discursos, de ambos os lados, retirados das sessões que aconteciam na Câmara dos Deputados e no Senado. A única intervenção da diretora acontece com a inserção dos letreiros intitulando a fase em que o processo se encaminhava.

Apesar de ser a personagem central, Dilma pouco se faz presente durante o filme. Seus momentos ocorrem através das entrevistas coletivas ou quando está discursando no plenário. E ah, não esquecendo daqueles deputados que “lavaram a honra da família brasileira” durante a votação na Câmara para abertura do processo do impeachment e seu líder, o ex-deputado Eduardo Cunha, que também tem a sua queda na história, porém foi tarde demais. Por isso, o filme acompanha incansavelmente alguns dos protagonistas do impeachment como foram os senadores Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann (PT), o advogado-geral da União (AGU) José Eduardo Cardozo, a coautora da denúncia do impeachment, a advogada Janaína Paschoal e os senadores Raimundo Lira (PSD) e Antonio Anastasia (PSDB).

Por mais que o documentário abra mais espaço para defesa da ex-presidente, já que a oposição não permitiu a participação da filmagem nas suas reuniões, o filme não deixa de registrar os momentos de estrelismo de alguns personagens, como foi o caso de Janaína Paschoal. Ela não perdia a oportunidade de impor a sua histeria ou atacar o outro lado. Além de simplesmente aproveitar os seus 15 minutos de fama. Como dito anteriormente, a diretora não precisou de qualquer esforço para mostrar o quão frustrante foi o processo do impeachment, e tampouco necessitou de qualquer depoimento exclusivo para revelar ainda mais a personalidade dos envolvidos.

O Processo impacta pelo realismo que é retratado e conforme se desenvolve, a narrativa se torna desesperançosa. Mas o documentário também não deixa de recordar os problemas dentro do governo petista e de como isso enfraqueceu o apoio de uma boa parte da população. E mesmo este fator não ser o ponto central, o filme de Maria Augusta Ramos apresenta tópicos suficientes para mostrar a hipocrisia que foi o impeachment de Dilma Rousseff.

O Processo foi premiado no Festival Documenta Madri, na Espanha, no Festival Indie Lisboa, em Portugal e na Competição Internacional do Festival Internacional de Documentários Visions du Reel em Nyon, na Suíça. O documentário também foi ovacionado na sua estreia mundial, em fevereiro, na mostra Panorama do Festival de Berlim.

Direção e roteiro: Maria Augusta Ramos | Elenco: Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, Michel Temer, Gleisi Hoffmann, Aécio Neves, Lindbergh Farias, Janaína Paschoal, Raimundo Lira e Antonio Anastasia | Nacionalidade: Brasil | Gênero: Documentário | Duração: 1h40min

Estrelas de Cinema Nunca Morrem ★★★

Estrelas de Cinema Nunca Morrem é um filme melancólico que retrata a tristeza dos últimos suspiros que uma atriz dos tempos de ouro de Hollywood podia dar. Foi assim que o diretor Paul McGuigan narrou a história de Gloria Grahame (1923-1981), uma estrela do cinema noir estadunidense que teve seu maior sucesso nas décadas de 1940 e 1950 e viu sua carreira decair conforme a idade avançava. Além dos escândalos sexuais que a ajudaram cair no esquecimento do público. Porém, ao passar uma temporada em Liverpool, Inglaterra, no fim dos anos 1970, ela conhece Peter Turner (James Bell), um ator iniciante com quem logo engata um intenso relacionamento e volta a se sentir inspirada pela vida novamente.

Confesso que até a noite desse domingo eu não sabia quem era Gloria Grahame e por pouco não creditei este filme como uma ficção. Mas logo dando uma espiadinha no Google, fiquei surpresa com a revelação de que a personagem interpretada por Annette Bening era real. Principalmente pela sinopse ser tão romântica, mas sem um propósito maior que pudesse me conquistar. (Eu ignorei completamente a frase “A True Story”). Mas em Estrelas de Cinema Nunca Morrem, a narrativa carrega este clima de nostalgia misturada com decadência justamente por esta solidão que uma mulher, acostumada com bajulos e sucessos, tem que enfrentar depois de certa idade.

O diretor Pal McGuigan consegue apresentar estas silenciosas dores que Gloria sofreu nos últimos anos de vida, ainda mais depois da descoberta de um câncer. Claro, tudo isso com a interpretação doce de Annette, tudo fluiu facilmente para que a protagonista nos soasse perfeitamente humana, e não como uma diva iludida de última categoria. É impossível não se deixar seduzir pelos toque que Annette apresenta em cena. A confiança que somente uma mulher com sua experiência pode exalar é realmente charmoso. James Bell acompanha o ritmo muito bem pois o papel de Peter é emotivo demais. Ele não tem que lidar somente com a volta de alguém que ama, mas com o pedido de socorro da mesma. E claro, a dinâmica do casal é contagiante.

Entretanto, as únicas falhas do filme foram não aproveitarem esta dramaticidade que Hollywood provocava na carreira de mulheres de meia-idade. Em tempos que o movimento feminista está mais em evidência e lutando por mais respeito em qualquer setor, esta seria a hora perfeita para que Estrelas de Cinema Nunca Morrem cutucasse a ferida que deixou em atrizes como Gloria. Outro problema do longa foi não se aprofundarem, ou até mesmo explicarem, as polêmicas que arruinaram a carreira da atriz. Um dos fatos que mais escandalizou na época foi ela ter se casado com o seu ex-enteado Anthony Ray, filho do diretor Nicholas Ray (1911-1979), que foi o seu segundo marido. Mas como o roteiro de Matt Greenhalgh foi baseado nas memórias do próprio Peter Turner, é compreensível o cuidado em não remexer nestas histórias.

Estrelas de Cinema Nunca Morrem é exatamente aquilo que promete: uma história de amor de cinema inspirada na vida real.

Film Stars Don’t Die in Liverpool (2017) | Direção: Paul McGuigan | Roteiro: Matt Greenhalgh | Elenco: Annette Bening, Jamie Bell, Kenneth Cranham | Gênero: Biografia | Nacionalidade: Reino Unido | Duração: 1h 45min |

Baseado Em Fatos Reais ★★★

Roman Polanski é conhecido por filmes que são cultuados pelo seu domínio em suspenses que brincam com os sentidos do público. Baseado Em Fatos Reais é uma simples tentativa de trazer novamente uma situação cotidiana que flerta com a fantasia e o real que há nas mentes inquietas como é o caso da sua protagonista Delphine (Emmanuele Seigner). No longa, a personagem é uma escritora de sucesso que recentemente lançou um livro autobiográfico que relembra a sua relação conturbada com a mãe e que, coincidentemente, muitos dos seus fãs se identificam com tal história. Em uma sessão de autógrafos, a autora conhece Elle (Eva Green), uma jovem ghost writer que se declara uma fã assídua e dedicada. Tanto que não demora muito para que as duas iniciem uma amizade e uma parceria profissional onde muitos sentimentos serão confrontados.

O longa que chega nos cinemas nesta quinta-feira nos traz esta história difícil de ser definida, mas facilmente é desmascarada. Mas não vou mentir que o filme, pelo menos, não deixa a desejar. Baseados em Fatos Reais percorre em clichês como a presença de uma jovem femme fatale que é obcecada pela sua ídolo e que a todo custo quer a mesma devoção em troca, a crise criativa de um escritor após ter tido sucesso com uma obra e claro, a famosa viagem para se afastar de qualquer distração urbana para focar no trabalho que requer uma inspiração divina. São elementos que funcionam em qualquer narrativa que propõe um suspense psicológico, mas o diretor soube costurar estas características de forma simples e objetiva. Conduto, o que desagrada no desenrolar é simplesmente a rápida introdução de Elle na vida de Delphine que parece ser muito questionável à primeira vista. Porém, com a aparência da jovem e sua trova em cima da escritora, que parece carente e necessitada de orientação, não é difícil entender do porque de Elle ter esta força em cima da protagonista. É interessante assistir esta obcecada relação entre Elle e Delphine.

Emmanuele Seigner inicia o filme com uma imagem desgastada que traduz para o público como aquele livro que acabou de escrever a esgotou física e emocionalmente. Porém, é difícil de se conectar com Delphine por causa da sua resistência em nos deixar entrar na sua vida e causa uma imagem de arrogância. Mas aí, foi só Eva Green chegar pedindo um autógrafo que tanto Delphine quanto o público ficam desconcertados com a presença da atriz. Esta mudança de humores mostra a proposta quando há a presença e a ausência de cada personagem. Se com Delphine ficamos de certa forma pacíficos, com Elle, o ambiente é contagiado por muita ansiedade e mistério. Eva Green exagera em algumas feições nos momentos mais tensos, mas ao mesmo tempo, ela consegue enganar facilmente quando é sutil. É um incrível trabalho que presenciamos com estas duas atrizes.

O diretor Roman Polanski soube os caminhos que teve que seguir para entregar um filme funcional que sabe brincar e provocar a mente com as diversas situações que narra. Baseado Em Fatos Reais não surpreende, mas também não fica devendo em nada.

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo

Basead On A True Story (2017) | Direção: Roman Polanski | Roteiro: Olivier Assayas e Roman Polanski | Elenco: Eva Green, Emmanuelle Seigner e Vincent Perez | Nacionalidade: França, Polônia e Alemanha | Gênero: Drama e Thriller | Duração: 1h40min |

Semana dos favoritos da Lou: Pedro Almodóvar

A Semana dos favoritos da Lou só vai acabar quando eu decidir, tá bem? Então tá bem. Retomando o meu especial, hoje venho para falar sobre um cara insubstituível na minha vida: Pedro Almodóvar. O diretor espanhol entrou na minha vida em 2009, no meu primeiro ano de faculdade de Cinema na PUCRS. Entre as sugestões de alguns colegas, resolvi arriscar o meu vale na locadora da faculdade com o filme Fale Com Ela (2002). E eu, que estava tão acostumada com os blockbusters e clássicos, me vi perdidamente apaixonada pela obra que acabara de assistir. Almodóvar foi o cara que me fez amar, definitivamente, a sétima arte. Nada do que já tinha visto durante toda minha vida se comparava com aquela experiência que me tirou do meu comodismo e fez enxergar o que era paixão, o que era perda, o que era vida. Aquela intensidade era exatamente o que eu precisava na minha vida. E eu só queria mais.

Não demorou para que eu fosse atrás de mais filmes do Almodóvar e logo entrei de cabeça nos últimos lançamentos como Volver (2006), Má Educação (2003), Tudo Sobre Minha Mãe (1998), Carne Trêmula (1997) e etc. Claro, também fui atrás das primeiras produções lá dos anos 1980. De alguns gostei, outros nem tanto, e tem um ou dois que faltam para rabiscar da minha listinha de “vistos”. Os elementos surpresas que surgem nos desenvolvimentos são características tão únicas de Almodóvar que não é nenhum absurdo aceitá-las. E isto torna cada aventura especial e intensa. Mas a verdade é que em cada filme que assistia, mais eu tinha certeza de que Almodóvar era o homem da minha vida.Digo isso, pois por mais que não tenha vivido nada parecido com as suas histórias, ele consegue explorar a alma feminina como nenhuma mulher, talvez, conseguiria. É exagero meu, claro, mas não deixa de ser uma admiração minha pelo talento não só como diretor, mas também como ser humano.

As suas heroínas são mulheres de todos os tipos, mas nunca comuns. Até mesmo a coadjuvante ou a figurante. Todas vão ter algum elemento bizarro e isto nunca será visto como defeito. Pelo contrário. Apesar da intensidade, o diretor sempre coloca humanidade e personalidade forte em suas protagonistas. Eu amo como as “mulheres Almodóvar” sofrem e não tem vergonha de assumirem as dores em suas vidas. Mas o que as torna heroínas são como elas mesmas se salvam de seus dramas. E isto não poderia ser mais empoderador. É até maluco dizer como um homem pode conhecer tanto sobre uma mulher e mesmo assim fazer poesia. Ouso dizer que cada filme seu é uma homenagem às mulheres.

Seja amando, se vingando, lavando chão ou até mesmo matando, ele consegue dar um toque singular em cada história que é capaz de trazer novos significados. Ou até mesmo, respostas. Eu gosto, principalmente, da libertação da caixa em que vivemos. O errado é não viver intensamente e explorar o não-óbvio da vida. Quando disse anteriormente, que assistir a um filme deste cara é equivalente a uma sessão de terapia, eu não estava brincando. A verdade é que ninguém me entende mais do que Pedro Almodóvar.