O Grande Circo Místico brinca com a fantasia da realidade

Responsável por iniciar a maratona de filmes da 46º edição do Festival de Cinema de Gramado, O Grande Circo Místico realizou também a sua estreia em solo brasileiro. O longa dirigido por Cacá Diegues foi exibido, primeiramente, na 71ª edição do Festival de Cannes e desde então ficou guardado para ser apresentado na Serra gaúcha na noite dessa sexta-feira. Fora de competição da Mostra Competitiva, a produção chama atenção tanto pelo investimento da sua estética quanto pela reunião de grande elenco como Jesuíta Barbosa, Mariana Ximenes, Bruna Linzmeyer, Marcos Frota e Juliano Cazarré. Inspirado no poema de mesmo título de Jorge de Lima, a obra conta a história de cinco gerações de uma mesma família circense, do apogeu à decadência, passando por grandes amores e aventuras.

A narrativa é guiada pelo radiante Celaví (Jesuíta), o personagem que nunca envelhece, que apresenta a origem do Grande Circo Místico fundado por Fred (Rafael Lozano) para presentear a amada Beatriz (Bruna) que se torna a principal atração do local. Aclamada pelo público, a jovem dá a luz à primeira herdeira do circo, Charlotte (Marina Provenzzano). Ao contrário da mãe, a filha se torna submissa às ordens do marido, o charmoso ator Jean Paul (Vincent Cassel), mas encontra o amor em seus filhos. Quando adultos, Clara (Flora Diegues) vai embora do circo e o deixa nas mãos de Oto (Juliano), que se vê sem raízes após a morte da mãe e o abandono da irmã. Após ter uma noite regado a drogas e sexo com uma desconhecida, ele volta a ter motivos para sorrir quando nasce a sua filha Margarete (Mariana). Contrariada com o seu destino, a herdeira do Circo Místico está decidida a cortar o cordão umbilical desta eterna família circense.

O Grande Circo Místico brinca com a fantasia da realidade. E por se tratar de um cenário repleto de criatividade e inocência, o filme abusa do potencial de levar o público a sonhar acordado. A começar pelo queridíssimo Celaví, dono de uma positividade que representa a alegria de um circo. Jesuíta Barbosa se destaca ao longo da projeção não por causa deste quesito, mas por ser a chama que mantém o circo de pé. Mariana Ximenes impressiona pela complexidade da sua personagem. A sua Margarete é o pivô do sofrimento que as mulheres desta família circense viveram nestas cinco décadas no momento em que se reconhece em outra figura parentesca e enxergar o milagre que, talvez, fosse o que precisava para sua miserável vida.

A história desta herança circense, que mais parece um fardo, mostra como o coração desta família é o grande fraco de todos. Cacá Diegues toma O Grande Circo Místico como um poema visual nas telas, mas não conquista completamente. Apesar da essência do filme ser as memórias desta herança familiar, a falta de objetivo torna a experiência nula. Principalmente se for se apegar apenas nos abusos de efeitos especiais que tenta seduzir. O Grande Circo Místico tenta ser o típico “o show tem que continuar”, mas fica devendo no seu ato final.

O Grande Circo Místico estreia nos cinemas brasileiros no dia 6 de setembro.

• Filme assistido na 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado 

• Texto escrito originalmente para o site do Correio do Povo

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Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo abraça o ridículo e tenta festejar como uma Dancing Queen

A verdade é que não precisava de uma sequência para Mamma Mia! O FIlme. Porém, convenhamos que para os fãs do musical estrelado por Meryl Streep e Amanda Seyfried mais uma dose desta parceria não seria de todo mal, não é? Devido a isso, Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo estreia nesta quinta-feira com altas expectativas para todo mundo. Inclusive para quem aposta no fracasso deste novo filme. O que não é o caso. Com a proposta de resgatar as memórias de Donna Sheridan (Lily James/Meryl), o longa começa do mesmo jeito que o primeiro: com Sophie (Amanda) enviando convites para um grande evento que, desta vez, trata-se da inauguração do hotel Bella Donna. A dúvida na lista de convidados fica se a jovem convida ou não a avó materna que nunca conheceu. E claro, como esta família não aceita-se qualquer membro, esta senhora é uma outra estrela musical conhecida como Ruby Sheridan, interpretada por ninguém menos que Cher. Enquanto aguardamos o grande dia, a juventude de Donna é relembrada pelos seus ex-amados Harry (Colin Firth), Biil (Stellan Skargard) e Sam (Pierce Brosnan) durante os contratempos que acontecem naquela inesquecível ilha grega.

Dirigido por Ol Parker, o filme possui um contraste gritante em comparação com o primeiro. Pelas mãos de Phyllida Lloyd, Mamma Mia! tinha uma energia contagiante e radiava uma sincera ingenuidade no seu desenrolar. Para o público, era muito perceptível que o elenco estava se divertindo com aquela filmagem com toda a teatralidade envolvendo as músicas do ABBA ao lado de figurantes carismáticos. Em Lá Vamos Nós de Novo, o tom é outro. Sem a participação onipresente de Donna, o clima melancólico deixa a história contida, o que impede uma disposição mais energética para a reunião destes personagens tão queridos. E se no primeiro filme, era assumido a comédia exagerada, aqui não existe a intensidade tão particular de Mamma Mia! O Filme. Entretanto, o que mantém a trama interessante são os flashbacks de uma destemida Donna Sheridan. É possível sentir uma conexão entre o trabalho de Meryl e Lily graças a entrega da jovem atriz que abraçou o espírito da protagonista.

A presença das amigas Tanya (Christine Baranski) e Rosie (Julie Walters) é outro aspecto positivo. Elas possuem uma química imbatível e comprova que não se limitaram a direção de Parker. O timing cômico da dupla oferece os melhores momentos da história. Assim como a participação de Cher, que abusa da fantasia proporcionada a sua personagem que parece ser uma extensão da sua figura. Ainda que o seu papel poderia ser muito mais explorado e sido um gancho mais envolvente para a sequência. Ela é uma diva que não precisa de muito para conquistar o público. Especialmente os que amam musicais. No filme, a cantora também é responsável por cenas dignas do gênero ao lado de Andy Garcia, que a propósito, estava a passeio no longa. Mas vamos ao que interessa: Meryl Streep. A ícone atriz foi a alma de Mamma Mia! O Filme e é por causa de dela que Lá Vamos Nós De Novo existe. A principal essência dos dois filmes, no geral, é o amor desta pequena família de duas mulheres independentes de pai ou marido. Quando isto é relembrado, a sequência desabrocha e volta a ter o seu verdadeiro charme. Aquele pelo qual os fãs são apaixonados. Não é à toa que os números entre Meryl e Amanda são os mais emocionantes de todo o filme. Lágrimas escaparão.

Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo agrada, mas o longa, em si, poderia se divertir muito mais. O roteiro possui algumas incoerências em relação a história original, o que é desnecessário já que os encaixes poderiam ser ajustados se tivesse tido uma atenção nos detalhes. De fato, o filme é uma homenagem que serve para preencher o coração dos apaixonados por Mamma Mia! e também por musicais. Somente uma produção como esta abraça o ridículo e festeja como uma Dancing Queen.

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo 

Nota: ★★★ 

Mamma Mia! Here We Go Again | Direção: Ol Parker | Roteiro: Ol Parker, Richard Curtis e Catherine Johnson | Elenco: Amanda Seyfried, Andy Garcia, Lily James, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Dominic Cooper, Julie Walters, Christine Baranski, Pierce Brosnan, Stellan Skarsgård, Colin Firth, Cher, Meryl Streep | Gênero: Musical | Nacionalidade: Estados Unidos e Inglaterra | Duração: 1h54min

Category is… Pose!

Pose se tornou uma das minhas séries favoritas do momento. Criada e produzida por ninguém menos que Ryan Murphy (Glee, American Horror Story, American Crime Story), o programa tem como principal atrativo os famosos bailes produzidos pela comunidade LGBT dos anos 1980 em Nova York. Aqueles mesmo que RuPaul tanto se inspira em Drag Race ou o próprio documentado em Paris Is Burning. Felizmente, a série é muito mais que os desfiles nas passarelas e trouxe dignidade para aqueles que sempre foram rejeitados durante a vida. Isto é bem exemplificado após uma cena de discriminação em que a personagem Lulu (Hailie Sahar) desabafa dizendo que existe uma cadeia social onde todo mundo precisa de alguém para fazê-los sentirem-se superiores. Começando pelas mulheres, negros, latinos, gays, até chegar na parte mais baixa que são os transexuais, segundo Lulu. Porque mesmo dentro da própria comunidade LGBT, os transexuais são vistos como aberrações. Mas Pose chegou para mostrar que este grupo tem muito a nos ensinar sobre o amor ao próximo.

Tudo começa quando Blanca (MJ Rodriguez) descobre que está infectada pelo HIV, justo na época que a epidemia era assustadora, e resolve sair da Casa Abundance, comandada por Elektra (Dominique Jackson). Já Elektra enxerga a saída da sua pupila como um ato de ingratidão e rivalidade. Mas Blanca cansou de ser sugada pelas ordens de sua “mãe” e resolve criar a sua própria casa. Batizada como Casa Evangelista, ela acolhe Damon (Ryan Jamaal Swain), Ricky (Dyllón Burnside), Papi (Angel Bismark Curiel) e Angel (Indya Moore). Cada um possui uma triste história de abandono, mas que aos poucos, eles vão criando um lar para esta família que escolheram para chamar de sua.

As chamadas Casas são, na sua maioria, abrigos para gays que eram expulsos dos seus lares. O que basicamente acontece com todos os personagens, mas ali também se torna um espaço para criatividade. E com isso, eles exploram isso no único lugar onde são exaltados por serem do jeito que são: os bailes. Encontrar o seu refúgio em um mundo onde você não é bem-vindo é a principal essência da série.

Angel, Damon e Blanca da Casa Evangelista

Pose consegue ir além desta disputa de moda nos clubes noturnos. Na época, a epidemia da AIDS gerava medo na população. Principalmente nos gays. O que claro, culminou ainda mais no preconceito contra eles. A série aborda este assunto com uma sensibilidade incrível e com toque necessário para conscientizar sobre a doença. O episódio Love Is The Message é o mais emocionantes da temporada que alcança tudo que Ryan Murphy quis trazer com esta série. Nestes pontos, Pose mostra todo o amor que o mundo precisa e enriquece nosso tempo com gestos simples de solidariedade.

O requisito do amor impossível ficar a cargo de Angel, uma jovem prostituta trans, e Stan (Evan Peters), um executivo pupilo de Donald Trump. Ela, um doce de menina, se apaixona pelo rapaz casado e com duas filhas. Apesar da química evidente entre os dois, as obrigações sociais deste hétero, branco e de classe média falam mais alto quando não consegue decidir o que quer para sua vida, já que sempre existiu alguém para lhe dizer o que fazer.

Apesar de Blanca ser a personagem mais forte e importante, há de se considerar que Pray Tell (Billy Porter) rouba a cena sempre que pode. O anfitrião dos bailes é a voz da razão dentro destas Casas. A energia carismática, mas ao mesmo tempo irônica, faz com que toda pessoa se sinta poderosa enquanto desfila e preencha todo vazio com a sua forte narração. Ou maldosa se o look não for digno de 10. Além dele, Dominique Jackson possui uma dominação constante em cena. Ela lembra uma Naomi Campbell madura, mas única. E a sua personagem tem a melhor reviravolta. MJ Rodriguez podia parecer insegura no início, mas agora a sua personagem conquistou o espaço que merecia. O amor que ela tem por seus filhos é inspiradora e isto comprova que ser mãe é dar à luz de muitas formas.

Pose é uma série necessária e inclusiva, visto que o elenco é o maior com artistas gays ou trans da televisão americana. A narrativa é clássica e dramática, e os episódios recheados de novidades que fazem com que a história não fique trancada. Nenhum episódio ficou devendo. E se ficou devendo, foi apenas pela vontade de assistir mais para também fazer parte desta festa. Porque se uma coisa a série pode te ensinar é viver, amar e arrasar!

Nota: ★★★★★

Comédias delicinhas para hora do almoço

Não é de hoje que eu me acostumei a estar sempre assistindo algum programa durante o meu horário de almoço. Tive uma infância solitária e para não ficar no total silêncio da minha casa, enquanto minha mãe trabalhava, sempre estive acompanhada de uma televisão por perto. Logo este costume cresceu junto comigo e pelo menos, até o dia de hoje, eu gosto de assistir alguma coisa enquanto estou tendo o momento feliz da tarde. E graças à Netflix, tem muito seriado delicinha para se divertir nesta hora do dia, que às vezes tende a ser rápido, antes de voltar a encarar a vida lá fora. Trouxe alguns dos meus seriados favoritos para compartilhar caso você aí que está passando o olho no meu blog esteja procurando alguma coisa diferente e rápida para assistir seja na hora do almoço ou em qualquer outra hora do seu dia.

Brooklyn Nine-Nine

A série foi ganhadora do Globo de Ouro de 2014 e retrata o cotidiano em uma delegacia de polícia. Os personagens são a alma do lugar e cada um carrega uma identidade singular e que é de fácil comparação a algum colega seu no trabalho. Jack Peralta (Andy Samberg) é o protagonista da série e a principal cola entre seus colegas do esquadrão. Ele é o típico piadista e tagarela da turma, porém eficiente no trabalho. Logo viu no Capitão Holt (Andre Braugher) a figura paterna que nunca teve e aí nasce o desafio de encarar a chegada do seu novo chefe como amadurecimento tanto pessoal quanto profissionalmente. Esta união entre os dois personagens é cômica, mas ao mesmo tempo carrega um significado importante para alguém que precisa de uma referência e também para quem precisa repassar as suas experiências adiante.

A série, no geral, tem esta troca entre os demais personagens, e mesmo com o tom debochado da história, nenhum episódio desperdiça o tempo e sempre traz a sensação de ter passado um momento entre amigos. Brooklyn Nine-Nine ainda conta com gente incrível como Terry Crews, interpretando sargento fisiculturista que é um amorzinho, Melissa Fumero e Stephanie Beatriz trazendo a representatividade latina e feminina dentro da polícia, e Chelsea Peretti e seu humor peculiar que ninguém mais neste mundo poderia substituir ou superar. A série foi renovada para sexta temporada e deve estrear só em 2019.

Unbreakable Kimmy Schmidt

Eu não faço a mínima ideia de como fui parar nesta série, até porque a sinopse não me foi nenhum um pouco atraente. Kimmy Schmidt (Ellie Kemper) foi sequestrada quando tinha 15 anos e viveu até aos 30 aprisionada por um pastor em um cativeiro com mais três mulheres. Quando foi libertada, ela tem que reaprender a socializar com o mundo e recuperar o que perdeu nos últimos anos. A história é temperada com muito humor sarcástico devido as tragédias que Kimmy viveu, e ainda viverá dentro da série, mas ao mesmo tempo traz a positividade que a segurou na sua época de prisioneira. O fato do programa querer meter o dedo na ferida dos traumas de Kimmy é uma maneira de ajudá-la a superá-los. E para isso, ela vai contar com muitas pessoas que vão querer se aproveitar da situação, mas a ingenuidade da moça vai fazê-los mudar de ideia.

Começando com Titus Andromedon (Tituss Burguess), um ator desempregado que busca o sucesso e trabalho à sua maneira. Ele recebe Kimmy em sua casa após ver nela a possibilidade de um retorno financeiro, mas graças ao destino, os dois criam uma querida amizade. Neste meio, surgem Jaqueline White (Jane Krakowski), uma socialite que se divorcia e tenta manter as aparências e Lillian Kaushtupper (Carol Kane), uma velhinha muito doida, mas que sabe ser útil na história. No geral, Unbreakable Kimmy Schimdt trouxe debates atuais, principalmente no que remete ao machismo e abusos, e que sabe usar o humor afiado para cutucar diversas situações dentro da nossa sociedade. A série sabe ri de si mesma e faz com que a vida não pareça tão dura lá fora. O programa estreou a sua última temporada no Netflix e a dividiu em duas partes. A primeira já está disponível e a segunda chega na plataforma em janeiro de 2019.

Chewing Gun

A série chamou a minha atenção no momento em que vi uma imagem da personagem Tracey (Michaela Coel) rezando para um pôster da Beyoncé. O programa surgiu na época que a Netflix  ainda engatinhava nas suas produções originais. Então a criatividade borbulhava a mil naquela época. Mas enfim, a história é narrada pela jovem cristã Tracey, que aos 24 anos decidiu perder a sua virgindade a qualquer custo com o seu noivo Ronald (John McMillan), que a enrola há seis anos e nem ao menos um beijo eles tiveram. Claro, tudo isto é mantido a aparências visto que a menina vive em uma comunidade pobre de Londres e a sua mãe (Shola Adewusi) é uma fervorosa religiosa que quer manter as filhas longe das tentações do diabo.

O maior charme de Chewing Gun é a imprevisibilidade que a história nos oferece com a diversidade de personagens inseridos. Além dos absurdos que Tracey se envolve. Ela quer fugir da moralidade que a sua mãe prega e quer descobrir os prazeres que a vida pode lhe proporcionar fora das páginas da bíblia. É fofo o modo como a personagem trata a sua família, mas reconhece que aquilo não a faz feliz e que precisa batalhar sozinha pelos seus objetivos. A série traz reflexões sobre a descoberta da sexualidade, mas não torna isto vulgar ou didático. Na real, torna tudo divertido e sem vergonha. Escrito pela própria Michaela, o roteiro é esperto para fugir da obviedade e traz o tema em diferentes formas para lidar com uma boa dose de ironia. Além de abordar outros assuntos como a desigualdade social, machismo e questões étnicos-raciais. Infelizmente, Chewing tem apenas duas temporadas e não há esperanças para uma terceira tão cedo.

Bojack Horseman

A série não é muito delicinha para os fãs de comédias fáceis. O programa é um extra nesta lista se você curte um dramédia que seria a melhor definição do que é Bojack Horseman. A animação retrata Hollywood repleta de humanos e animais antropomórficos vivendo lado a lado. Entre eles, está o famoso ator dos anos 1990 Bojack Horseman (dublado por Will Arnett) que tenta voltar a relevância social ao contratar a jovem Diane (Alison Brie) para ser a sua ghostwritter em uma biografia. Enquanto relembra a sua trajetória, ele tenta voltar aos holofotes com a ajuda da sua agente Princesa Caroline (Amy Sedaris) e sobrecarrega o amigo Todd (Aaron Paul) com seus dramas e tarefas.

O cenário é composto por celebridades decadentes e personalidades que enxergam qualquer oportunidade como lucro. A série é repleta de críticas sobre o universo fútil dos famosos e seus egos carentes, mas também abre espaço para mexer com o vazio existencial que assombra estes ícones. Como é uma animação sobre personagens meio-humanos e meio-animais, dificilmente vai querer sensibilizar o público com estas reflexões, mas é possível te deixar abalado.

O programa só evoluiu ao longo das suas quatro temporadas. E mesmo sendo algo para não ser levado a sério, ele consegue manter uma narrativa que aborda questões como depressão, dependência química, solidão e problemas familiares – só para citar algumas – em um nível maduro. Claro, mantendo o humor sarcástico e bem sem noção, a história tem uma carga dramática e realística devido a proximidade íntima que acontecem em muitas situações. Mesmo sendo ambientado em uma Hollywood egoísta e falida, é possível encaixar Bojack Horseman em nossa vida. A quinta temporada estreia em agosto na Netflix.

Drag queen é pop, hip hop e funk!

Assim como foi com a chegada de RuPaul’s Drag Race na televisão americana, Pabllo Vittar invadiu o Youtube com a sua versão de Lean On Me, de Major Lazer, batizada como Open Bar. Confesso que na minha época de festinhas, eu nem poderia adivinhar quem cantava esta música, apenas dançava. Não demorou para que a fama na internet a consagrasse e em seguida, lançasse o seu primeiro disco Vai Passar Mal. Com isso, logo começoua participar de várias músicas de artistas como Anitta e Lukas Lucco.

Confesso que não esperava que uma drag queen alcançasse o sucesso que Pabllo conquistou no Brasil, um país preconceituoso e intolerante com quem é diferente. Mas por sorte, aos poucos, tudo vai melhorando. Enquanto isso, eu só posso comemorar por ter mais uma cantora brasileira para seguir. O estilo musical de Pabllo é bem diversificado, mas todas as suas músicas foram feitas para dançar e esquecer dos embutes lá fora. Eu gosto que além de fazer os outros se divertirem, ela também tem usado o seu trabalho para reforçar mensagem contra violência e trazer esperanças para comunidade LGBTQ+.

E nas sugestões do Spotify, quem um dia apareceu para mim? Gloria Groove. E em questão de algumas músicas, eu fiquei apaixonada por ela. A cantora é espetacular com seu gingado, maquiagem, roupas, danças e toda simpatia que ela exala nas redes sociais. Logo pela manhã, eu assisto religiosamente os stories dela no Instagram para saber o que tem feito e que roupa vestiu na noite anterior. Fiquei viciada nela, confesso. E tudo isso devo às suas músicas que possuem letras poderosas contra machismo e homofobia, para conquistar os boys e rebolar nas pistas, além de ressaltar toda esta belezura. Gloria canta muito e todo dia quando escuto o álbum O Proceder, a minha autoestima vai de zero a 10 rapidinho. Eu só tenho a agradecer a Gloria Groove.

E não é só no pop que as drag queens brasileiras fazem história na música. No funk, Lia Clark pode ser considerada uma das pioneiras no gênero. Eu não sou muito fã do estilo, até porque não consigo fazer quadradinho de oito e me frustro muito por isso, mas é importante reconhecer toda vez que alguém conquista o seu espaço dominado por MCs ostentação. O grande mérito nas músicas de Lia Clark são as subjetividades que rola livremente e é muito divertido ouvir as suas brincadeiras com palavras e sentidos. Lembra facilmente Valesca Popozuda na sua época da Gaiola das Popozudas.

Bibi Ribeiro chega para encerrar a minha lista de drag queens Made In Brazil. Ela é gaúcha, natural de Rio Grande, e recentemente lançou o seu primeiro single Aceita. Também adotando o funk, a cantora fala sobre amor próprio e manda a opinião alheia para bem longe. Seja gorda, magra, cacheada ou monalisa, o importante é a aceitação de que você é uma maravilha. Eu conheci Bibi através do Workroom, bar inspirado no programa RuPaul’s Drag Race, e já acompanho nas redes para saber o que mais vem por aí. #SupportYourLocalQueens 

O meu pequeno especialzinho foi feito não só para mostrar a visibilidade que as drag queens estão tendo na música, mas também para homenagear estas divas. Já que eu sou fã de cantoras no geral, elas não poderiam ficar de fora do meu repertório. Afinal, já que não nasci com talento musical, o que posso fazer é cantar e dançar junto com elas.

Drag queen é pop, rock e country!

Eu sou muito fã de RuPaul’s Drag Race e isto qualquer um pode perceber em dois segundos de stalker em qualquer rede social. Mas a verdade é que o programa se tornou uma janela incrível para os fãs do próprio RuPaul terem a chance de conhecerem outras drag queens com diversos talentos. Entre elas estão as queens que seguem carreira musical. Assim como o RuPaul que tem diversos álbuns e se diverte com as suas músicas, diversas ex-participantes do reality show aproveitaram o embalo e engataram a divulgação para investirem neste sonho de se tornarem uma drag queen pop star. Assim foi com Sharon Needles, Jinkx Moonson e Trixie Mattel que são algumas que já lançaram discos bem bonitinhos, além de outras que estão apostando aos poucos com singles como Detox, Shangela e Aja.

No Brasil, Pablo Vittar não precisou de um programa na televisão para revelar o seu trabalho musical, mas conseguiu assumir o posto de pop star no cenário brasileiro. E com isso, abriu as portas para outras artistas drag queens aparecerem e ganharem também o seu espaço. Com isso, resolvi separar algumas das minhas cantoras favoritas visto que a cultura drag queen está se tornando pop de modo geral graças à internet. Aqui é possível ter maior conhecimento sobre a cultura LGBTQ+ em blogs, Youtubers, Instagramers e com isso aprender mais sobre esta maravilhosa e divertida arte de ser drag queen.

Começando com uma das minhas favoritas do programa, Alaska Thunderfuck. O estilo musical da ex-participante da 5ª temporada e vencedora do All Stars 2 é o tradicional pop dançante, mas as suas letras são palhaçadas atrás da outra. Porém, o que torna tudo isso único é a pretensão que ela dá em cada canção. As músicas são a pura tradução de quem é Alaska Thunderfuck: sarcástica, moderna e totalmente louca.

Agora pulando da água para o vinho, Adore Delano. Ela, que foi uma das finalistas da 6ª temporada e aguentou apenas um episódio e meio do All Stars 2, tem o maior contraste com as outras queens cantoras. Seu último álbum, Whatever, assume a veia grunge que incorpora muito o estilo da Adore. Desde da sua primeira participação em Drag Race, ela foge do glamour esterótipo e expressa a rebelde que vive dentro dela. E eu não poderia amá-la ainda mais pela sua atitude punk e dramática.

Confesso que Blair St. Clair foi a minha maior surpresa na 10ª temporada de Drag Race. Eu apostei que ela seria uma das primeiras eliminadas, mas ficou o bastante para me conquistar. E logo após a sua eliminação, Blair divulgou o seu primeiro single e o lançamento do seu primeiro álbum será nesta sexta-feira (29). Mas o que deu para perceber é que as músicas de Blair serão a mistura do pop clássico com o frescor juvenil para ficar grudado na gente.

Shea Couleé não tem um álbum completo, mas tem singles poderosos. Se na 9ª temporada ela demonstrou que tem talento de sobra – apesar do Lipsync for the Crown – na música não poderia ser diferente. Ao contrário das queens anteriores, Shea transita entre o rap e o hip hop nas suas músicas, e isto a torna tão especial no gênero. Ela arrasa também nos videoclipes, nas roupas, na maquiagem e na coreografia. Enfim, não existem motivos para não exaltar esta rainha. P.s.: olha a The Vixen aí! 

Eu não curto country music, mas vale destacar a carreira de Trixie Mattel. Apesar de ter perdido um lipsync para a Pearl na 7ª temporada, Trixie voltou mais forte na All Stars 3, da onde saiu coroada, e com isso conquistou o primeiro lugar nas paradas musicais dos Estados Unidos com o lançamento do seu segundo álbum, One Song. Ela não esqueceu as suas raízes de Milwaukee, Wisconsin e trouxe o country-folk para os palcos, reforçando mais a identidade da sua drag queen.

Estas foram algumas das minhas cantoras favoritas oriundas de RuPaul’s Drag Race que mostram que drag queen é muito mais do que vestir uma peruca e subir no salto. No próximo post, pretendo desta vez exaltar as queens brasileiras que também ganharam não só o meu coração, mas de muitos outros fãs por aí.

Desobediência ★★★

Sexualidade e religião nunca foram temas fáceis de se trabalhar no cinema. Mas com muito talento, é possível contar uma história envolvendo os dois assuntos respeitosamente. Graças ao diretor chileno Sebastián Lelio – ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano com Uma Mulher Fantástica – o filme Desobediência é um exemplo de como é possível quebrar tabus e transmitir esperança em romances LGBTQ+.

Após ser expulsa de casa na juventude, a britânica Ronit (Rachel Weisz) é uma fotógrafa bem sucedida em Nova York, nos Estados Unidos. Inesperadamente, um dia ela recebe a notícia da morte do seu pai, Rav Krushka (Anton Lesser), um rabino altamente respeitado dentro da comunidade judaica ortodoxa. Atordoada, ela volta rapidamente para cidade natal e causa desconforto entre familiares e amigos que apostavam que ela nunca retornaria por causa de suas desavenças com o pai. Lá, ela reencontra Esti Kuperman (Rachel McAdams) sua antiga paixão da adolescência que está casada com o próprio primo, Dovid Kuperman (Alessandro Nivola), potencial sucessor do cargo de Rav na sinagoga. O reencontro traz à tona os sentimentos que Esti e Ronit sentiam e que provocou a trágica separação de ambas no passado. A partir daí, uma série de conflitos emocionais colocam o casal, especialmente Esti, em discussão sobre as escolhas de suas vidas.

O filme é simples, sombrio e não problematiza as escolhas de cada personagem. A bissexualidade de Ronit existe, mas nem por um segundo é estereotipada. Assim como seu estilo de vida que foge dos costumes tradicionais dos seus conhecidos. A rotina dos judeus ortodoxos e seus ensinamentos também estão lá, mas nem por um momento o filme quer atacar este ponto conservador. Entretanto, ele quer trazer o debate sobre o livre arbítrio dentro de uma comunidade limitada à sua própria visão. Ronit escolheu não seguir as tradições da sua família e foi embora. Abrindo mão da comodidade, mas ganhou a liberdade de fazer as suas próprias regras. Já Esti não teve tanta coragem de também fazer a sua própria história e ficou submetida aos que os outros achavam que era melhor para ela. E quis o destino que o casal se reencontrasse para que a vida de cada uma pudesse ter um novo sentido.

Rachel Weisz e Rachel McAdams possuem a delicadeza e a precisão para viverem estas personagens tão opostas. Weisz é segura no papel e a sua personagem não demonstra nenhum pouco do arrependimento de ter ido embora, mas sofre por não ter se resolvido com o pai. A atriz é sútil, mas ao mesmo tempo consegue transparecer uma melancolia para história. Já Adams surpreende pela dramaticidade que sua personagem vive. Aparentemente forçada a casar com o primo, Esti aceitou o seu destino para cumprir o papel que lhe foi determinado segundo manda a sua religião. Mas com a inspiração do seu primeiro amor, ela vai desbrochando e encontrando o seu próprio caminho. O terceiro destaque do longa fica para Alessandro Nivola que apresenta um ótimo discurso nos seus minutos finais.

Representatividade já virou uma especialidade de Sebastián Lelio. Se em Uma Mulher Fantástica, ele soube retratar delicadamente a dor do luto de uma mulher transexual, agora em Desobediência, o diretor abre o espaço para as dificuldades deste romance lésbico dentro de uma comunidade religiosa. A narrativa é conduzida pelo casal e Lelio sabe equilibrar o ponto de vista de cada uma, além de inserir os famosos burburinhos alheios, e incomodativos, em volta. O diretor foge de armadilhas clichês sobre casais lésbicos, não transforma uma cena de sexo em erotismo barato e dá novos propósitos para cada personagem. Desobediência poderia ser facilmente definido como um romance LGBTQ+, mas ele consegue ir além e ser um grito de esperança e independência feminina.

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo 

Disobedience (2017) | Diretor: Sebastián Lelio | Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz | Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Anton Lesser, Alessandro Nivola, Allan Corduner, Nicholas Woodeson, Bernice Stegers e Cara Horgan | Nacionalidade: Inglaterra, Irlanda e Estados Unidos | Gênero: Drama e romance | Duração: 1h54min |