Me Chame Pelo Seu Nome ★★★

Me Chame Pelo Seu Nome pode ser definido como uma história intensa de amor, que como em todo clichê, tem seu início, meio e fim. Porém, o filme dirigido pelo italiano Luca Guadagnino demora tanto para engatar alguma ação que faz parecer que estamos assistindo eternamente uma propaganda de margarina com pessoas felizes e saudáveis. Não é difícil ficar encantado pelas belas paisagens de uma Itália dos anos 80 e seu verão cheio de cores e temperatura quente. Ou de não se sentir atraída pelos personagens mais lindos que um filme poderia reunir  com Timothée Chalamet e Armie Hammer. Mas Me Chame Pelo Seu Nome tem suas armadilhas, e foi isso que certamente destruiu e salvou meu coração.

Estamos em uma belíssima casa de campo, situada no interior da Itália, onde a família de Elio (Chalamet), no auge dos seus 17 anos, passa as férias de verão. Tudo parece monótono demais até a chegada do americano Oliver (Hammer) que não economiza no charme e na simpatia. O hóspede chega para trabalhar em uma pesquisa com o pai de Elio, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg), um especialista em cultura grego-romana, e claro, para desfrutar dos prazeres locais. O interesse no americano é tão instantâneo que o adolescente sempre busca uma brecha para ficar perto ou de conversar sobre ele com qualquer pessoa. Oliver também demonstra que gosta da companhia do jovem, mas sempre deixa tanto o garoto quanto nós em dúvida em relação aos seus objetivos naquela casa. Ou melhor dizendo, das suas intenções amorosas naquele círculo de pessoas.

O roteiro de James Ivory, baseado na obra de André Aciman, parece ter seu ponto de partida, quando o casal finalmente cede às tentações, e a partir daí a paixão se intensifica à medida que o tempo corre entre os dois. Como um dos personagens questiona o outro sobre o quanto demoraram para ficarem juntos, como se todo o período anterior tivesse sido desperdiçado. E não é que é bem assim na vida quando encontramos uma paixão avassaladora? E apesar do romance ter iniciado escondido da família, aos poucos a situação se torna até mesmo esperada por todos em volta. O grande triunfo de Me Chame Pelo Seu Nome está exatamente nesta não-problematização do envolvimento amoroso entre o casal. Não existem tabus em relação a homossexualidade, não existe preconceito escancarado e não há barreiras que impeça a vontade deles ficarem juntos. Mas claro, aqui a história está longe de ter um final feliz para todos, e novamente, o filme alcança seu auge quando Elio está em pedaços e é consolado, da forma mais sincera, pelo seu pai, Mr. Perlman. Até mesmo o público vai se sentir de coração aliviado e esperançoso de que todo amor, principalmente o primeiro, vale a pena ser vivido.

Me Chame Pelo Seu Nome está longe de ser um drama que termina em tragédia – um caminho que felizmente está sendo desviado ultimamente nos cinemas – e retrata apenas a delícia e a dor de descobrir o amor sob o olhar juvenil. Afinal, estamos acompanhando Elio desde início desta jornada e ele parece inquieto com tudo ao seu redor. Estudioso, curioso, amoroso e ainda por cima, toca piano, o personagem não teme ao se expressar e é aberto a qualquer experiência. O longa ganha créditos por simplesmente deixar as ações ocorrerem sem que haja problematizações desnecessárias em cima dos assuntos, já que tudo não passa de processos naturais. O diretor Luca Guadagnino acertou em cheio ao trazer um relato direto sobre o relacionamento amoroso entre dois homens e fugir de qualquer julgamento perante a isto. Me Chame Pelo Seu Nome é exatamente como a vida deveria ser.

Call Me By Your Name | Diretor: Luca Guadagnino | Roteiro: James Ivory | Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar e Esther Garrel | Gênero: Drama, Romance | Nacionalidade: Itália, EUA, Brasil e França | Duração: 2h12min |

• Texto escrito originalmente para site Correio do Povo

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O melhor do tapete vermelho do Critic’s Choice Awards

Depois do furacão que foi o Globo de Ouro, hoje é a vez do Critics’ Choice Awards trazer mais uma reunião das estrelas de Hollywood. A premiação tende a coroar os melhores da televisão e do cinema americano do último ano e deve repetir a mesma lista de convidados que vimos participar no último domingo. Após as atrizes realizarem vestirem totalmente looks pretos, em protesto contra as denúncias de assédio sexual que foram, e continuam sendo, reveladas na indústria artística, hoje o luto dá espaço para cores leves e brilhantes no tapete vermelho.

Gal Gadot

Angelina Jolie

Saoirse Ronan

Alexis Bledel

Jaimie Alexander

Rachel Brosnahan

Heidi Klum

Madeline Brewer

Sarah Hyland

Kaley Cuoco

O Destino De Uma Nação ★★

Cinebiografias são um dos gêneros mais esperados pelo público, especialmente de fãs e admiradores, que esperam assistir uma história emocionante ou, ao menos, cheia de segredos surpreendentes. Winston Churchill (1874-1965) foi uma figura histórica importantíssima para Grã-Bretanha, que assim como Margareth Tatcher (1925-2013) em A Dama de Ferro (2011), também é lembrado nos cinemas em O Destino de Uma Nação, dirigido por Joe Wright, que estreia nesta quinta-feira. O longa foca especificamente em um dos desafios mais complicados que Churchill teve que enfrentar logo quando foi eleito Primeiro Ministro em 1940, quando praticamente todo exército britânico estava encurralado pelos nazistas nas praias de Dunkirk, na França, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O Destino de Uma Nação é, basicamente, um complemento de Dunkirk, de Christopher Nolan, em que os políticos do parlamento inglês discutiam estratégias para salvar os mais de 300 mil soldados que lutavam para sobreviver no litoral francês. Tal crise quase mudou os rumos da Segunda Guerra Mundial e também, por pouco, não destruiu a carreira de Churchill, já que muitos não acreditavam na ideia da resistência do exército e imploravam para que o então Primeiro Ministro aceitasse um acordo de paz com Adolf Hitler. Mas como já era de se esperar, ele reforçou a sua fama de teimoso contra o plano que seus desafetos criaram dentro do comitê de guerra – que foi criado especialmente para tratar desta operação – para mostrar o quão fraco o Primeiro Ministro era em situações extremas.

O filme ganha força notória graças a interpretação de Gary Oldman que, não por menos, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme Drama pela sua interpretação como Churchill, e provavelmente deve ganhar a maioria dos prêmios em que concorrer nesta temporada. O longa depende muito da presença de Oldman para garantir que o espectador se mantenha interessado na história. O ator apresenta um bom desempenho, mas que por muitas vezes, entrega um personagem caricato para simplesmente justificar a fama de difícil do parlamentar e alterna com momentos em que se torna o rabugento carismático incompreendido. Assim como foi com Meryl Streep em “A Dama de Ferro”, a maquiagem repete o trabalho árduo de garantir a ilusão de que estamos realmente assistindo o ex-primeiro ministro, e não Gary Oldman em cena. Ao contrário visto na série The Crown com John Lithgow, responsável por interpretar Churchill, sem utilizar qualquer recurso estético para nos fazer acreditar em suas palavras e nos deixar impactado com a sua ótima atuação.

Infelizmente, O Destino De Uma Nação não passa de um filme de registro de uma época, de uma situação e principalmente, de uma pessoa importante para história de um lugar. O diretor Joe Wright aproveitou poucas oportunidades de criar uma narrativa eficaz para um contexto que precisa de energia para manter a atenção. O longa caminha pelos clichês do gênero biográfico no cinema, principalmente por se tratar de uma figura política ao querer provar de que um personagem assim também esteve ao lado do seu povo ou que tem um lado sensível. Como por exemplo, no filme, quando Churchill confessa nunca ter andado de transporte público para depois fugir e pegar o primeiro trem quando tem um momento de epifania. Ou até mesmo quando se fragiliza ao ouvir o desabafo de sua datilógrafa Elizabeth Layton (Lily James) sobre seu irmão morto durante a guerra ou mostra sua insegurança diante do Rei George Vi (Ben Mendelsohn).

O Destino De Uma Nação pode se tornar empolgante à primeira vista, com a caracterização de Gary Oldman ou até mesmo por suas cenas em ambientes londrinos e edição impactante com corpos de soldados mortos guiando um mapa em Dunkirk, mas certamente não é um filme para ficar registrado em nossas memórias.

• Texto escrito originalmente para site Correio do Povo

Darkest Hour | Direção: Joe Wright | Roteiro: Anthony McCarten | Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup e Stephen Dillane | Nacionalidade: Inglaterra | Gênero: Drama, Biografia | Duração: 2h05min

O melhor do tapete vermelho do Globo de Ouro

A gente sabe que começou o ano quando inicia a temporada de premiações em Hollywood, e hoje ocorre o tapete vermelho da 75° edição do Globo de Ouro. E este ano, as atrizes vão vestir preto em protesto contra os abusos sexuais que, infelizmente, assolaram as mulheres neste tempo todo na indústria cinematográfica. Então a mensagem não vai ser em vão, pois todas se uniram neste movimento que está unindo muito a categoria e estão fazendo bonito tanto na iniciativa quanto no tapete vermelho.

Meryl Streep acompanhada de Ai-jen Poo

Alison Brie

Dakota Johnson

Mandy Moore

Susan Kelechi Watson

Zuri Hall

Alexis Bledel

Isabelle Huppert

Jessica Chastain

Kendall Jenner

Viola Davis

Nicole Kidman

Kerry Washington

Star Wars VIII – Os Últimos Jedi ★★★

A temporada de fim de ano se tornou uma época especial para os fãs de Star Wars. Desde O Despertar da Força, há de se comemorar que pelo menos um filme por ano chegou aos cinemas para alimentar a fome de novas aventuras espaciais. Em 2016, Rogue One: Uma História Star Wars preencheu a lacuna de espera enquanto a maioria aumentava as teorias de Os Últimos Jedi. Vamos combinar que é um título bastante sugestivo se você não tiver medo da verdade. O oitavo episódio da saga, agora dirigido por Rian Johnson, retorna novamente liderado pela jovem Rey (Daisy Ridley) que foi em busca de Luke Skywalker (Mark Hamill), o único que seria possível lhe ensinar sobre o poder da Força e também ser a arma fundamental para ajudar a Resistência, comandada pela General Leia Organa (Carrie Fisher) a combater os ataques da Primeira Ordem, que tem na linha de frente General Hux (Domhnall Gleeson) e Kylo Ren (Adam Driver).

Se à primeira vista, o enredo de Os Últimos Jedi parece ser simples, prepara-se pois o roteiro escrito pelo próprio Johnson consiste em querer estender momentos desnecessários ou complicar em desenvolvimentos apenas pelo efeito do choque. O longa inicia de modo energético e impactante já com os primeiros combates entre a Resistência e a Primeira Ordem. Muitas ações acontecem neste período e isto torna estas cenas empolgantes pois decisões e especulações começam a surgir inesperadamente. Enquanto isso, também acompanhamos o encontro mais esperado que é entre Luke e Rey, que é ponto de equilíbrio para o público após tantos acontecimentos nas batalhas no meio da galáxia, agora é o momento da reflexão. Encontro que é um dos pontos mais altos do filme todo. Trazendo com boas doses de humor e sabedoria por parte do lendário Jedi. Se com Mestre Yoda, lá na clássica trilogia, aprendemos sobre o que a Força é capaz, Luke repassa os ensinamentos para a jovem que assim como um antigo aprendiz do Luke, possui muitas inquietações dentro de si.

Enquanto o filme se concentra nestes dois enredos, a narrativa se desenvolve muito bem. Entretanto, as histórias extras que vão surgindo no decorrer do caminho vão se desgastando ao invés de serem mais objetivas. Por exemplo, a amizade entre Fin (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) é um momento novo e super carinhoso, mas ambos demoram até encontrarem, de fato, a direção para onde devem ir. Outro ponto desnecessário é tamanha subjetividade que a personagem Vice Admiral Holdo (Laura Dern) transmite durante a sua participação. Assim como a pouca aparição de outros ícones que tanto amamos como Chewbacca (Joonas Suotamo) e os androides C-3P0 (Anthony Daniels) e R2D2 (Jimmy Vee), que sendo os personagens mais antigos da saga, ainda poderiam ser mais presentes. E aquela cena do Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) é pego de surpresa durante um conflito é querer subestimar a inteligência do espectador. Please, bitch! 

Mas a verdade é que Os Últimos Jedi pode ser definido como o fim e o início de um novo ciclo do universo Star Wars. A mão do diretor Rian Johnson provocou que o filme tivesse ao mesmo tempo um clima nostálgico, trazendo os elementos característicos da franquia, e conseguisse criar uma nova identidade para o selo criado por George Lucas. É de ficar babando com os efeitos especiais tão bem finalizados. Olha que não sou nenhuma especialista do gênero, mas é tamanha perfeição que chega a se tornar realidade. Além do humor debochado que Johnson modificou dentro dos diálogos que mostra uma atualização dentro do roteiro. Assim como a diversidade no elenco é algo de se aplaudir e pedir que tenha ainda mais negros, asiáticos, mulheres e quem mais puder dentro dos próximos projetos. É inegável que Os Últimos Jedi é inteiramente dedicado para Luke Skylwalker e Rey. A protagonista ganha ainda mais destaque e chaves que vão abrindo os horizontes sobre a sua origem e o seu papel naquele universo. É animador vê-la lutando e modernizando ainda mais a história. Porém, há de ser ressaltado que tudo que Rey está se tornando foi graças a Luke, que assim como os antigos mestres, é a luz, e óbvio, a Força que todo jovem precisa no seu caminho.

Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi (2017) | Direção e Roteiro: Rian Johnson | Elenco: Daisy Ridley, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Kelly Marie Tran, Laura Dern e Benício Del Toro | Gênero: Ação e Aventura| Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 2h32min

A Força está com Elas!

Todo final de ano terá uma força especial acendendo dentro do coração dos fãs da saga Star Wars. Desde de O Despertar da Força, cada lançamento tem animado os apaixonados pelas aventuras de Mestre Yoda e companhia. E para as meninas que também adoram todo o enredo possuem um motivo a mais para amar estes últimos filmes lançados já que desta vez, quem comanda a história é a jovem Rey (Daisy Ridley). Ela foi a responsável por trazer de volta a força, não só para as telas, mas principalmente para a representatividade feminina em produções do gênero da ficção-cientifica. Com novos capítulos da franquia sendo lançados anualmente nos cinemas, como ocorre nesta quinta-feira com Os Últimos Jedi, a hora é perfeita para continuar com o pé na frente na história da indústria cinematográfica. Se lá nos 1970, especificamente em 1977, quando Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança foi lançado, o diretor George Lucas trouxe Princesa Leia (Carrie Fisher) totalmente fora dos estereótipos de princesa, com voz de comando e tomando a frente da luta contra o Império.

A personagem, com grandes méritos para a atriz, construiu o seu legado neste tempo inteiro no imaginário e principalmente no coração das fãs que enxergaram na Princesa Leia, um modelo de que as mulheres podem fazer parte destas aventuras galácticas. Afinal de contas, existem muitas meninas que adoram este universo geek e nada mais justo apresentar um exemplo tão sério quanto os demais personagens masculinos em cena. Além de mostrar que não era preciso apelar para os clichês da sensualidade e colocá-la na posição indefesa de mocinha à espera do herói.

O mais empolgante em todas os filmes de Star Wars é que Princesa Leia sempre foi posicionada no mesmo patamar de importância que os homens. Mesmo que não seja protagonista da história, ela é tão importante quanto Luke Skywalker (Mark Hamill) e Han Solo (Harrison Ford). Ela é uma princesa que não usa vestidos. Ela é uma princesa que trabalhou ao lado de seus súditos e lutou contra Darth Vader junto dos companheiros. Ela não tem pose de madame e tampouco gosta de ficar esperando para agir. E o principal de tudo, ela não tinha medo, pois ela era uma rebelde. De princesa chegou ao posto de General da Resistência e de lá nunca mais saiu. Ninguém tem mais força que a Princesa Leia.

Em 1999, com Episódio I: Ameaça Fantasma, foi a vez de Natalie Portman ser a nova líder feminina como a Rainha Padmé Amidala. Apesar de ser considerada uma trilogia mais fraca em comparação com a primeira, a saga não deixou de dar importância a uma personagem feminina. Padmé é completamente diferente de Princesa Leia, mas igualmente marcante para história. Afinal, ela é a fonte de esperança para o futuro da sua nação com seus filhos. Inicialmente com aparência inocente, a personagem vira completamente o jogo quando revela a sua estratégia com a participação da sua sósia, Sabé. E aqui está outro ponto interessante na saga que foi colocá-la em um cargo político e altamente diplomático.

Ao contrário da Princesa Leia, Padmé é mais teórica do que prática quando tem que lutar pelo seu povo. Rainha de Naboo e depois Senadora do Senado Galáctico, sempre se manteve em altos cargos para lutar pelo que acreditava ser o certo. Mas infelizmente, o seu envolvimento com Anakin Skywalker (Hayden Christensen) a partir do Episódio II: Ataque dos Clones e Episódio III: A Vingança dos Sith, ofuscou os seus interesses políticos e prejudicou o seu desenvolvimento na história. Já que o diretor George Lucas errou no tom e a submeteu como apenas ao interesse romântico do protagonista e priorizou esta história como se fosse o único objetivo de Padmé dar a luz à Luke e Leia. Mas apesar do desequilíbrio, a Rainha Padmé também carrega uma força inspiradora.

Após o sucesso do retorno da saga Star Wars aos cinemas com O Despertar da Força, os produtores não pensaram duas vezes ao trazer Jyn Erso (Felicity Jones) como a protagonista de uma nova aventura no Império Galáctico em Rogue One: Uma História de Star Wars (2016). Ela é a líder de um time especial reunido pela Aliança Rebelde e se torna o elemento crucial na obtenção de informações sobre uma nova arma secreta do Imperador Palpatine e seu braço direito, Darth Vader. Nascida fora da realeza, Jyn, desta vez, é a representação da voz do povo que está em busca de sobrevivência. O que chama atenção de Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) que a recebe e lhe propõe a missão especial de descobrir a arma que está sendo construída secretamente pelo Império e como ela deve ser destruída.

Com questões traumáticas por trás da sua motivação para participar desta nova batalha, Jyn entrega a força feminina lutando nos combates contra o Império, mostrando que é fácil dar este espaço para que mulheres também possam agir como heroínas. É interessante também a tamanha complexidade que a protagonista possui na sua personalidade. Se por um lado, Jyn é resistente em se unir ao grupo para destruir a Estrela da Morte, por outro, é surpreendente como existe uma preocupação com a sua história para montar todo o quebra-cabeças dentro da trama. Desta vez, Star Wars acertou em não subestimar a força de Jyn nesta missão.

Por fim, Rey foi a verdadeira responsável por alimentar a força das mulheres em filmes de ação e aventura. E por se tratar de uma série clássica e poderosa como Star Wars, certamente esta conquista abre caminhos para o futuro do gênero no cinema. A personagem encabeça esta nova trilogia que tem mostrado diversidade no elenco e maior empoderamento à estas pessoas consideradas secundárias no passado. A presença de Rey, e também de outras mulheres como a Capitã Phasma (Gwendoline Christie) – a stormtrooper feminina da Primeira Ordem porque também existem mulheres no Lado Negro da Força – trouxe maior identificação do público feminino ao universo Star Wars. As personagens como Rey e a própria General Leia permitem para as fãs se imaginarem nestes papéis e não mais se fantasiando como os personagens masculinos da série, que claro, não há nenhum problema nesta escolha, mas abre mais espaço para a inserção das jovens ao universo.

Em O Despertar da Força vimos que Rey é uma jovem independente, forte e decidida em várias questões, tanto que a sua alma aventureira soube exatamente como agir em diversas situações. Assim como conhecemos seu lado acolhedor e sensível, mas em nenhum momento frágil a ponto de ser seu ponto fraco. E trazer a personagem da atriz Daisy Ridley ao protagonismo também importa no sentido de continuar apostando na força das mulheres em dar fôlego para a narrativa e instigando novos questionamentos dentro da própria saga. Afinal, será que existe a oportunidade dela ser uma Jedi? Um núcleo que era dominado e limitado apenas aos homens? Quem são seus pais? Ela vai se juntar ao Lado Negro da Força? Talvez algumas das respostas estejam em Os Últimos Jedi, mas a verdade é que todo time feminino da saga ensinou ao longo de todos estes anos é de que não pode existir conformismo nem mesmo na galáxia muito menos nos cinemas. O protagonismo feminino em Star Wars ganhou, timidamente, o seu espaço e só deve aumentar enquanto Princesa Leia, Rainha Padmé, Jyn e Rey continuarem inspirando com suas histórias de uma galáxia muito distante.

• Texto escrito originalmente para site Correio do Povo

Em Busca de Fellini ★★

Em Busca de Fellini é um filme que tem dois propósitos durante o seu desenrolar. O primeiro, homenagear um dos cineastas mais importantes do cinema italiano, Federico Fellini (1920-1993), e segundo, servir como um cartão postal de vários pontos turísticos da Itália. O que poderia ser uma mistura empolgante, infelizmente o resultado acaba ficando insosso demais. Começando com o conto de fadas de Lucy (Ksenia Solo), uma jovem que ao completar 20 anos resolve encarar alguns desafios pessoais após descobrir a doença terminal da mãe Claire (Maria Bello). A protagonista viveu sobre a excessiva proteção da matriarca, que a sempre afastou de qualquer mal ou sofrimento alheio, e com quem aprendeu sobre o mundo do cinema. Em especial aos clássicos norte-americanos de Hollywood. Após um dia esquisito, ela acaba conhecendo as obras de Fellini em um pequeno festival na sua cidade e cai de encantos com este cinema tão peculiar e diferente de tudo que já assistiu. O que desperta na garota a necessidade de encontrar o diretor italiano e questioná-lo sobre o seu trabalho, e claro, sobre a vida no geral. E, mais uma vez, após uma decepção dentro de casa, a jovem parte para a Europa em busca de seu sonho.

Baseado em fatos reais, Em Busca de Fellini poderia facilmente encaixar os seus desafios e torná-lo uma história interessante, já que o diretor Taron Lexton utiliza várias referências do homenageado, com uma mistura de realidade e fantasia. Entretanto, as situações que ocorrem ao longo do filme acabam exagerando na ingenuidade da personagem Lucy. Por mais que dentro de uma sala de cinema, devemos abrir a nossa mente e deixar uma história nos conquistar, aqui temos o problema dos clichês dos romances onde os casais exploram belas paisagens, mas onde não existe nenhum conflito. Assim como ocorre com a pequena família da jovem, onde Claire, acompanhada da irmã Kerri (Mary Lynn Rajskub), também fantasia com a viagem da filha enquanto assiste as obras de Fellini e assim, tenta entender o que instigou tanto Lucy a ir atrás do cineasta. E aqui está o problema da narrativa toda. A passividade e a tranquilidade com as ações que ocorrem entre os personagens e ninguém parece reagir de acordo. Além da insensibilidade e incoerência de alguém decidir viajar quando descobre que a mãe está morrendo. Mas enfim, são detalhes que até podem ser compreensíveis se for analisar de fato a essência das personagens principais.

A atriz Ksenia Solo possui a fragilidade exata para encarar uma personagem como Lucy. O tipo físico e o olhar encantado são ideais para protagonizar um filme sobre descobertas pessoais como este. Assim como não reclamamos de coadjuvantes como Angelo (Lorenzo Balducci) que carrega o mesmo espirito sonhador e sedutor, que felizmente acaba sendo mais um incentivador para as conquistas de Lucy. Os principais filmes que a norteam durante a viagem são A Doce Vida (1960) e A Estrada da Vida (1954), pois conseguem costurar as linhas da narrativa, já que mesmo sendo produções distintas, influenciam a aventura da protagonista que em cada passo, vai descobrindo tanto sobre si mesma e quanto ao mundo. Não é difícil se encantar com as belíssimas imagens até mesmo os diálogos inspiradores, como do próprio secretário de Fellini que atende inúmeras vezes as ligações de Lucy, chegam a mexer com nosso emocional. Só é uma pena que Em Busca de Fellini apele demais para o melodrama e a fantasia, ao invés de entregar um resultado agridoce, assim como é a vida. Assim como era Fellini.

• Texto escrito originalmente para site Correio do Povo

In Search of Fellini (2017) | Direção: Taron Lexton | Roteiro: Nancy Cartwright e Peter Kjenaas | Elenco: Ksenia Solo, Maria Bello, Mary Lynn Rajskub,Lorenzo Balducci, Paolo Bernardini e Peter Arpesella | Gênero: Drama | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 1h33min