Baseado Em Fatos Reais ★★★

Roman Polanski é conhecido por filmes que são cultuados pelo seu domínio em suspenses que brincam com os sentidos do público. Baseado Em Fatos Reais é uma simples tentativa de trazer novamente uma situação cotidiana que flerta com a fantasia e o real que há nas mentes inquietas como é o caso da sua protagonista Delphine (Emmanuele Seigner). No longa, a personagem é uma escritora de sucesso que recentemente lançou um livro autobiográfico que relembra a sua relação conturbada com a mãe e que, coincidentemente, muitos dos seus fãs se identificam com tal história. Em uma sessão de autógrafos, a autora conhece Elle (Eva Green), uma jovem ghost writer que se declara uma fã assídua e dedicada. Tanto que não demora muito para que as duas iniciem uma amizade e uma parceria profissional onde muitos sentimentos serão confrontados.

O longa que chega nos cinemas nesta quinta-feira nos traz esta história difícil de ser definida, mas facilmente é desmascarada. Mas não vou mentir que o filme, pelo menos, não deixa a desejar. Baseados em Fatos Reais percorre em clichês como a presença de uma jovem femme fatale que é obcecada pela sua ídolo e que a todo custo quer a mesma devoção em troca, a crise criativa de um escritor após ter tido sucesso com uma obra e claro, a famosa viagem para se afastar de qualquer distração urbana para focar no trabalho que requer uma inspiração divina. São elementos que funcionam em qualquer narrativa que propõe um suspense psicológico, mas o diretor soube costurar estas características de forma simples e objetiva. Conduto, o que desagrada no desenrolar é simplesmente a rápida introdução de Elle na vida de Delphine que parece ser muito questionável à primeira vista. Porém, com a aparência da jovem e sua trova em cima da escritora, que parece carente e necessitada de orientação, não é difícil entender do porque de Elle ter esta força em cima da protagonista. É interessante assistir esta obcecada relação entre Elle e Delphine.

Emmanuele Seigner inicia o filme com uma imagem desgastada que traduz para o público como aquele livro que acabou de escrever a esgotou física e emocionalmente. Porém, é difícil de se conectar com Delphine por causa da sua resistência em nos deixar entrar na sua vida e causa uma imagem de arrogância. Mas aí, foi só Eva Green chegar pedindo um autógrafo que tanto Delphine quanto o público ficam desconcertados com a presença da atriz. Esta mudança de humores mostra a proposta quando há a presença e a ausência de cada personagem. Se com Delphine ficamos de certa forma pacíficos, com Elle, o ambiente é contagiado por muita ansiedade e mistério. Eva Green exagera em algumas feições nos momentos mais tensos, mas ao mesmo tempo, ela consegue enganar facilmente quando é sutil. É um incrível trabalho que presenciamos com estas duas atrizes.

O diretor Roman Polanski soube os caminhos que teve que seguir para entregar um filme funcional que sabe brincar e provocar a mente com as diversas situações que narra. Baseado Em Fatos Reais não surpreende, mas também não fica devendo em nada.

• Texto escrito originalmente para Correio do Povo

Basead On A True Story (2017) | Direção: Roman Polanski | Roteiro: Olivier Assayas e Roman Polanski | Elenco: Eva Green, Emmanuelle Seigner e Vincent Perez | Nacionalidade: França, Polônia e Alemanha | Gênero: Drama e Thriller | Duração: 1h40min |

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Semana dos favoritos da Lou: Pedro Almodóvar

A Semana dos favoritos da Lou só vai acabar quando eu decidir, tá bem? Então tá bem. Retomando o meu especial, hoje venho para falar sobre um cara insubstituível na minha vida: Pedro Almodóvar. O diretor espanhol entrou na minha vida em 2009, no meu primeiro ano de faculdade de Cinema na PUCRS. Entre as sugestões de alguns colegas, resolvi arriscar o meu vale na locadora da faculdade com o filme Fale Com Ela (2002). E eu, que estava tão acostumada com os blockbusters e clássicos, me vi perdidamente apaixonada pela obra que acabara de assistir. Almodóvar foi o cara que me fez amar, definitivamente, a sétima arte. Nada do que já tinha visto durante toda minha vida se comparava com aquela experiência que me tirou do meu comodismo e fez enxergar o que era paixão, o que era perda, o que era vida. Aquela intensidade era exatamente o que eu precisava na minha vida. E eu só queria mais.

Não demorou para que eu fosse atrás de mais filmes do Almodóvar e logo entrei de cabeça nos últimos lançamentos como Volver (2006), Má Educação (2003), Tudo Sobre Minha Mãe (1998), Carne Trêmula (1997) e etc. Claro, também fui atrás das primeiras produções lá dos anos 1980. De alguns gostei, outros nem tanto, e tem um ou dois que faltam para rabiscar da minha listinha de “vistos”. Os elementos surpresas que surgem nos desenvolvimentos são características tão únicas de Almodóvar que não é nenhum absurdo aceitá-las. E isto torna cada aventura especial e intensa. Mas a verdade é que em cada filme que assistia, mais eu tinha certeza de que Almodóvar era o homem da minha vida.Digo isso, pois por mais que não tenha vivido nada parecido com as suas histórias, ele consegue explorar a alma feminina como nenhuma mulher, talvez, conseguiria. É exagero meu, claro, mas não deixa de ser uma admiração minha pelo talento não só como diretor, mas também como ser humano.

As suas heroínas são mulheres de todos os tipos, mas nunca comuns. Até mesmo a coadjuvante ou a figurante. Todas vão ter algum elemento bizarro e isto nunca será visto como defeito. Pelo contrário. Apesar da intensidade, o diretor sempre coloca humanidade e personalidade forte em suas protagonistas. Eu amo como as “mulheres Almodóvar” sofrem e não tem vergonha de assumirem as dores em suas vidas. Mas o que as torna heroínas são como elas mesmas se salvam de seus dramas. E isto não poderia ser mais empoderador. É até maluco dizer como um homem pode conhecer tanto sobre uma mulher e mesmo assim fazer poesia. Ouso dizer que cada filme seu é uma homenagem às mulheres.

Seja amando, se vingando, lavando chão ou até mesmo matando, ele consegue dar um toque singular em cada história que é capaz de trazer novos significados. Ou até mesmo, respostas. Eu gosto, principalmente, da libertação da caixa em que vivemos. O errado é não viver intensamente e explorar o não-óbvio da vida. Quando disse anteriormente, que assistir a um filme deste cara é equivalente a uma sessão de terapia, eu não estava brincando. A verdade é que ninguém me entende mais do que Pedro Almodóvar.

Semana dos favoritos da Lou: RuPaul’s Drag Race

RuPaul’s Drag Race virou um guia espiritual na minha vida. Para muitos pode parecer absurdo a forma como deposito minha energia e atenção para filmes, músicas e até séries de televisão. Como é o caso de Drag Race. Mas a verdade é que muitos destes entretenimentos viraram meus companheiros ao longo da minha vida. Eu fui muito solitária quando criança. Com pais trabalhando fora, uma irmã adolescente que também trabalhava e estudava, minha única alternativa era ficar em casa – sozinha, porém protegida – assistindo TV a Cabo e conhecendo um mundo bem diferente. Com isso, passava tardes decorando coreografias da Britney Spears, esperando ansiosamente a hora de passar Friends e programando o videocassete para gravar algum filme bobinho da TNT. Muitos destes produtos e artistas me ensinaram coisas e formaram muito a minha opinião. Alguns buscam fé na igreja, por exemplo. Eu busco em uma música da Madonna. Alguns buscam ajuda em terapias. Eu faço minha terapia com filmes do Pedro Almodóvar.

Mas enfim, toda esta introdução foi para tentar explicar como me sinto, atualmente, com o programa apresentado por Ru Paul. Lembro perfeitamente da noite em que recomecei assistir a série, pois foi uma noite como a de hoje. Estava triste e não tinha sorrido nenhuma vez durante o dia. Fui procurar uma distração naquela roleta russa que é o Netflix e aí apareceu RuPaul’s Drag Race. Já conhecia o programa. Eu tinha assistido a primeira temporada na época em que Netflix nem era um embrião, entretanto nunca mais tive acesso para as demais temporadas. Foi aí que Ru Paul voltou para minha vida. O reality show que coloca 12 drag queens desconhecidas para brigarem pelo título de America’s Next Drag Superstar e o prêmio de 100 mil dólares virou muito mais que um entretenimento para mim.

Com o programa tive acesso a uma cultura nova e diferente. Principalmente com o conhecimento desta profissão maravilhosa que é ser drag queen, o que pra foi uma surpresa boa, pois tirou muito dos estereótipos que eu mantinha sobre elas. Para umas pessoas, drag queen é apenas um homem de peruca, na série a gente aprende que há um extenso trabalho por trás de glitters, hairspray e vestidos. A profissão é um entretenimento que não é fácil e nem um pouco barata. Existe preconceitos a serem enfrentados tanto pela profissão quanto pela sexualidade, existe discriminação racial, falta de apoio de família e da própria comunidade gay. Muitas queens já confessaram que “o seu tipo de drag” é incompreendida pelo público e possuem dificuldade de encontrar trabalho por causa disso. Porque sim, existe diversidade entre a proposta das drag queens que vão deste comediantes de stand-up, dançarinas, dubladoras até as que apenas participam ferozmente em concursos de beleza. É um mundo em infinita construção e o que não vai faltar é inspiração nestas artistas. E é exatamente isto que me atrai tanto no programa.

A inspiração é contínua para quem assiste. Com diversas pessoas com características muito distintas, mas absurdamente ricas, é impossível você não se inspirar e adotar os pensamentos, bordões, estilos e até mesmo tom de voz da sua drag queen favorita. Eu fiquei muito mais vaidosa depois que comecei a assistir Drag Race. Investi em maquiagens, aprendi a fazer contorno, unhas cumpridas são lei para mim, rio alta com direito a grito, estalo dedos para aplaudir, finjo que estou comentando meu dia que nem as participantes narram o episódio, aposto muito mais no carão e no improviso para fotos, nunca aceitar apenas o básico ou o “safe”, o look do dia – seja roupa, cabelo, bolsa ou sapato – tem que expressar a minha personalidade e por causa disso tudo, aprendi a gostar muito mais de mim. Os conselhos e experiências que tanto as queens quanto Ru Paul exploram no programa também contribuiriam muito para o que sou hoje. Até mesmo as piadas, as loucuras e os shades ajudam a colocar esta minha diva interior para fora. Pois assim como Ru Paul enfatiza a cada fim de episódio: se você não se amar, como diabos você vai amar outra pessoa?

Por isso que digo que o programa tem um forte poder sobre mim, pois além deste reforço na minha autoestima, Drag Race também é a minha salvação para meus momentos solitários. Independente do episódio, eu sei que qualquer um vai injetar um sorriso no meu rosto. Não é somente pela distração, mas assistir o programa provoca um sentimento genuíno e divertido que me faz dizer foda-se para o que me deixou triste e seguir em frente. O que me faz pensar que eu esteja viciada porque não quero enfrentar os problemas da vida real. Mas quer saber? Sashay away pra eles.

Como RuPaul’s tem 10 temporadas e mais 3 spin-offs, separei meus momentos favoritos para terem uma ideia das divas que tanto me fazem bem.

Semana dos favoritos da Lou: Queen Latifah

Dana Elaine Owens, ou melhor dizendo, Queen Latifah é uma das minhas atrizes favoritas do cinema. O principal motivo é pelo seu carisma que nos conquista rapidamente. Ela não coleciona grandes papéis no cinema, mas é fácil querer assistir qualquer filme com ela porque parece um reencontro com uma amiga. Queen iniciou a carreira como cantora – atividade que volta e meia é retomada, mas sempre em um filme – e em seguida começou a investir mais na dramaturgia. A atriz começou timidamente em participações especiais na série Um Maluco No Pedaço no início dos anos 1990 e aos poucos foi conquistando papéis em Hollywood. A maioria dos trabalhos foram mais secundários, mas dificilmente passaram despercebidos. Como no musical Chicago (2002) como Mama Morton 0u até mesmo na comédia Táxi (2004) como a motorista Belle.

Um dos seus trabalhos que mais adoro é no musical Hairspray – Em Busca da Fama (2007), onde interpreta Motormouth Maybelle, uma apresentadora de televisão que divide o programa musical The Corny Show com Corny Collins (James Marsden) e enfrenta os preconceitos raciais da época na cidade de Baltimore nos anos 1960. Apesar desta premissa, o filme é bastante divertido e tenta levar o debate do racismo e da segregação em tom pacífico. A personagem de Queen é uma lutadora que não perde a alegria de viver, mesmo com as dificuldades que sua oponente Velma (Michelle Pfeiffer) coloca no seu caminho. Maybelle sabe dar a volta por cima com a sua paciência e resistência.

As Férias da Minha Vida (2006) é daqueles filmes aconchegantes que te proporcionam os sentimentos mais genuínos enquanto se encanta com a história de Georgia Byrd. Na tela, a vendedora descobre que sofre de uma doença terminal e decide aproveitar ao máximo os últimos dias da sua vida. Com isso, ela viaja para Europa para realizar todos seus sonhos gastando cada centavo das suas economias. A sinopse é simples e é a típica comédia romântica para assistir com a sua mãe, mas ele carrega uma ótima energia e bom humor. Em As Férias da Minha Vida, a leveza com que o enredo flui faz com que se torna prazerosa esta última aventura com Queen, que é responsável por tornar este tempo agradável. Ela extravasa, mas com muita elegância, e não deixa de expressar o que sente para ninguém.

Pulando do 8 para o 80, Queen Latifah também já passeou em um drama pesadíssimo em Bessie (2015), no qual foi premiada no SAG Awards 216 na categoria Melhor Atriz por Telefilme/Minissérie. Na cinebiografia, ela interpreta Bessie Smith (1894-1937), considerada uma lenda do blues e que levou uma vida intensa e desregrada. Ela era abertamente bissexual – chegando a ter um marido, uma namorada e um amante – administrava a própria carreira e turnê e, durante um tempo, foi a cantora mais bem paga dos Estados Unidos. Sua personalidade forte, no entanto, também atrapalhava em diversas decisões na vida.

Foi surpreendente ver Queen em uma zona totalmente do qual eu estava acostumada e ficar sedenta por mais de Bessie em cena. O longa foi um divisor na filmografia da atriz que se consolidou em comédias e aqui provou, pra quem ainda duvidava, do seu talento com este dramalhão. A história pessoal da cantora não foi fácil, entretanto, é exatamente um dos fatores que aumenta a qualidade deste filme. E ter alguém como Queen, emprestando seu corpo e alma para compor Bessie, faz o amor pelo cinema valer a pena.

Semana dos favoritos da Lou: Batman de Nolan

Como dona e proprietária deste blog, eu decidi compartilhar filmes, músicas, artistas e o que mais me inspiram na vida durante esta semana através de posts já que meu aniversário se aproxima. Hoje começo trazendo a trilogia do diretor Christopher Nolan: Batman Begins (2005), The Dark Knight (2008) e The Dark Knight Rises (2012). É inegável a tamanha qualidade que os dois primeiros filmes, especialmente o segundo, possuem tanto em termos técnicos quanto no novo caminho que estas produções trouxeram para esta nova era de super-heróis nos cinemas. O Batman sempre foi o meu herói favorito. Desde criança, talvez por influência do meu pai, assim como ocorreu com a escolha do time de futebol, o personagem esteve presente na minha infância com desenhos e principalmente com os filmes que eram exibidos nas Sessões da Tarde ou na Tela de Sucesso. Os longas dirigidos por Tim Burton eram ótimos, uma pena que a cada lançamento depois disso tudo foi por água abaixo.

Por sorte tivemos a volta do morcego em grande estilo não só pelas mãos de Nolan, mas com Christian Bale assumindo a responsabilidade de salvar Gotham e a reputação de Batman nos cinemas. E nossa, que dupla! É verdade que a trilogia tem um pacote completo e pelo menos o diretor tentou se manter fiel ao estilo que adotou para as produções. Batman Begins traz a clássica forma de contar as origens de um super-herói, mas desta vez com muito mais pé no chão do que qualquer outra fantasia das revistas em quadrinhos. O filme tem um tom sério, foge do caricato e coloca um super-herói em uma realidade muito mais próxima a nossa do que qualquer outro poderia chegar. Claro, há elementos como explosões, lutas e vilões que nos deixam assustadoramente fascinados que definem o termo de filme de super-herói. O que só reforçado em The Dark Knight, o melhor da trilogia e de qualquer outra tentativa do gênero. Por sorte, eu assisti a saga inteira nos cinemas, e este segundo eu cheguei a conferir três vezes de tão apaixonada que eu fiquei na época. Não era um simples filme, era um obra-prima. Era não, ainda é!

The Dark Knight supera as expectativas com as complexas histórias que se desenvolvem, os personagens inesquecíveis e o tom ainda mais sombrio que o ambiente proporciona do início ao fim. É incrível como Nolan consegue passear pelo drama, aventura e o suspense em cada cena. E quando conhecemos Coringa (Heather Ledger) é um outro nível de interpretação que nem tão cedo iremos presenciar novamente nos cinemas. Nem é preciso me rasgar em elogios para expressar em como o personagem é único e que o talento do ator foi essencial na construção, em parceria, com o roteiro de Nolan. Este vilão em mãos erradas poderia estragar totalmente o filme.

E por último, The Dark Knight Rises tenta ser uma cópia muito frustrada do seu antecessor e por isso, fica devendo e muito na conclusão desta trilogia que poderia ser brilhante. O elenco era magnifico, que contou até com Marion Cotillard, mas a história quis misturar o passado com o presente para testar os princípios de todos e aí acabou cedendo ao melodrama para o encerramento da saga. Não vou negar que me pego assistindo The Dark Knight Rises na TV e torcendo tanto para Bane (Tom Hardy) quanto para Batman nos tempos de bobeira. Mas a verdade é que Nolan trouxe uma forma mais humana de retratar os super-heróis nos cinemas, sem precisar apelar aos clichês e apostando na realidade, que pode ser tão assustadora quanto um universo paralelo com monstros e super-poderes. Batman é este herói que carrega um pouco de nós dentro de si mostrando que existem possibilidades de fazer justiça em um mundo sem esperanças.

 

Encerrando a Maratona Oscar 2018

Sally Hawkins rouba meu coração em A Forma da Água

Ao contrário dos últimos anos em que dedico um post para cada filme candidato a Melhor Filme no Oscar, este ano acabei acumulando muitos filmes e poucos textos. Além de claro, estar um pouco atrasada com este meu especialzinho desta temporada que considero a minha Copa do Mundo. Mas para não ficar em falta e registrar os últimos  longas que assisti, vamos a um resumão mais direto tanto dos candidatos, e alguns vencedores do Oscar, a categoria principal e também outros que merecem o destaque.

Vamos por ordem de preferência e assim começamos com A Forma da Água, de Guillermo del Toro, que venceu muito mais que merecidamente os principais prêmios do Oscar com Melhor Diretor e Filme. O longa retrata uma linda história de amor entre duas criaturas totalmente distintas, mas que em nenhum momento demonstra ser um relacionamento impossível. Claramente vocês estão cansados de ouvir tanto sobre esta história e não é por menos. Poucos podem não perceber, mas discretamente, del Toro coloca personagens tão excluídos na realidade e os coloca como os principais heróis desta fantasia. Giles (Richard Jenkins) é um artista gay que vive escondido em sua casa e tem apenas a companhia da sua melhor amiga Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda que se apaixona por um monstro capturado para pesquisas no laboratório secreto do governo americano onde ela trabalha. Lá ela compartilha os seus segredos e aventuras com a colega, e também amiga, Zelda (Octavia Spencer).

A dupla, com o apoio de Giles, precisa se defender do autoritarismo do chefe, o homem branco, bem sucedido, explorador e praticamente maléfico Richard Strickland (Michael Shannon). Não é incrível esta distribuição de papéis que del Toro colocou dentro desta aventura e por exatamente por isso, criamos tanta empatia pelo filme? A Forma da Água tem uma base simples, que não é difícil pescar as referências de fábulas infantis, mas aqui possui a maturidade e sensibilidade de transformar tudo em pontas de esperança. O longa resgata todo aquele fascínio que gostamos de assistir na tela do cinema com cenas lindas, músicas românticas e a prova de o verdadeiro amor existe em diversas formas e jeitos. Nota: ★★★★★

Margot Robbie dá um show de talento em Eu, Tonya

Eu, Tonya foi uma das melhoras surpresas que esta temporada poderia ter apresentado. O filme de Craig Gillespie é porrada atrás de porrada sobre a versão da ex-patinadora Tonya Harding (Margot Robbie), que ficou famosa mundialmente tanto por seu talento nas pistas de gelo, chegando a ficar em segundo lugar no Mundial, quanto por seus feitos nas Olimpíadas nos anos 1990. Entre eles, o bizarro caso em que o seu ex-marido Jeff Gillooly (Sebastian Stan) teria se envolvido, com mais dois caras, em um plano para quebrar a perna da principal concorrente de Tonya nos Jogos Olímpicos de 1994. O que prejudicou eternamente a carreira da ex-patinadora. A cinebiografia de Tonya Harding possui a proposta de contar sob o ponto de vista da ex-atleta toda aquela confusão que destruiu a sua vida e reputação na época, mas o filme consegue ir além disto pois ele apresenta uma nova forma de contar histórias biográficas. Eu, Tonya foge daquela narrativa clássica, e por muitas vezes, maçante com início, meio e fim. O diretor capta desde do primeiro instante a personalidade forte e rebelde da verdadeira Tonya e tempera o filme com esta energia que vai desde do explosivo ao desespero total.

O filme mistura ações com depoimentos do ex-marido Jeff, da mãe abusiva LaVona (Alisson Janey) e do maluco do Shawn (Paul Walter Hauser), e torna a experiência do público em algo com muito ritmo devido a excelente montagem ágil de Tatiana S. Riegel e, além claro, da trilha sonora excelente com rock dos anos 1980, para chocar qualquer júri elitista. Aqui, fica comprovado de vez o talento de Margot Robbie que tanto foi usada em papéis onde era a gostosa (a esposa que não usa calcinha em O Lobo de Wall Street, a mulher nua na banheira de espuma em A Grande Aposta e a vilã insuportável em Esquadrão Suicida) e agora se desapega de qualquer vaidade ao se entregar a este papel mais desafiante da sua carreira. A atriz domina durante a projeção inteira e facilmente se dispõe ao que o momento precisava. Sem truques ou exagero, Margot já ganhou o meu coração por Tonya. No Oscar, apenas Alisson Janey levou a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante por ter interpretado a pior mãe dos últimos tempos no cinema. Agressiva, impaciente e ignorante, LaVona é uma mulher amargurada pelas derrotas na vida e desconta em Tonya a frustração e também a pressão para que a filha seja vitoriosa em alguma coisa. Eu, Tonya não foi indicado e Melhor Filme, o que foi uma pena, já que tinha todos méritos para ser reconhecido. Nota: ★★★★

Tom Hanks e Meryl Streep dividem o protagonismo em The Post

Há muito tempo que o diretor Steven Spielberg não me entusiasmava com algum filme. Até que finalmente ele trouxe The Post: A Guerra Secreta com um elenco tão cheio de estrelas, que até o time do Barcelona se morderia de inveja. Com Meryl Streep e Tom Hanks na linha de frente, logo mais vem Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Carrie Coon e Bradley Whitford para preencher a tela, logicamente o filme tinha tudo para ser espetacular. E foi. A sinopse traz mais uma investigação jornalística, desta vez produzida pelo Washington Post que tenta dar aquele famoso furo de reportagem ao revelar segredos e mentiras do governo dos Estados Unidos sobre a Guerra do Vietnã (1955-1975). O que provocou polêmica e uma briga feia com presidente na época, Richard Nixon (1969-1974), que tentou impedir a publicação de reportagens sobre o tema. O filme tem este tom de denúncia ao trazer discussões como a liberdade de imprensa, a guerra no estrangeiro e a política local com um presidente que não aceita críticas da mídia. Alguma coincidência?

Spielberg dirige The Post conforme estamos acostumados e é perfeitamente executado. O filme é estritamente mais agradável aos olhos dos colegas jornalistas que desfrutam, talvez, de uma rotina totalmente desconhecida já que voltamos no tempo e conhecemos uma apuração tradicional da profissão. É empolgante assistir a preocupação e a vontade de publicar uma reportagem que mudaria as páginas da história dos Estados Unidos. Desde da reunião de pauta até a impressão, o diretor sabe exatamente como apresentar estes detalhes importantes e aprofundar a essência do drama. Principalmente entre os personagens como é o caso do contraste da firmeza de Ben Bradlee (Tom Hanks) e a insegurança de Kay Graham (Meryl Streep), que exemplificam as responsabilidades que um editor e uma dona do jornal possuem dentro de uma publicação. The Post é mais um daqueles filmes que complementam e exaltam a importância que é o jornalismo em nossas vidas. Além claro de nos revelar tantos segredos mantidos por aqueles que mais nos enganam do que nos protegem. Nota: ★★★

Extras

Denzel Washington arrasa em Roman J. Israel

Só de ter o nome de Denzel Washington envolvido em algum projeto que rapidamente já tem a minha atenção. A principio ninguém sabia do que se tratava Roman J.Israel Esq. de Dan Girlroy, até que o Oscar indicou Denzel na categoria de Melhor Ator. Se não fosse por isso, talvez ninguém saberia da existência do filme que passou tão batido pelos cinemas americanos que apenas causou prejuízos aos bolsos do estúdio e no Brasil nem sequer estreou. O longa trata da história do advogado Roman J. Israel (Denzel) que entra em conflito pessoal quando começa a trabalhar para uma grande empresa de advocacia e vê seus princípios desmoronando quando percebe o pouco reconhecimento que as pessoas lhe dão.

A história é uma típica novelinha em que mostra os altos e baixos de um ativista social que acredita na defesa dos mais pobres do que a insignificância dos casos dos mais ricos, e que precisa encontrar forças para continuar lutando por seus verdadeiros ideais. Não vou mentir que senti um apreço pelo filme, especialmente pela atuação de Denzel que mostra toda a sua versatilidade, e também por debater constantemente questões moralistas e se vale a pena mudar quando a vida lhe dá as costas. Nota: ★★★

Mudbound vale apenas por Mary J. Blige e Carey Mulligan

Mudbound – Lágrimas Sobre O Mississippi foi um filme que me decepcionou devido a sua narrativa arrastada e sem um propósito. Duas famílias morando em uma fazenda rural no Mississippi, sob as mesmas condições, porém uma é negra e outra é branca, e o filme trata de mostrar as dificuldades que ambas vivem naquele pequeno lugar. Nem é preciso destacar que a família negra é a que mais sofre por causa do racismo na época, estamos nos anos 1940 nos Estados Unidos e onde existiam fortes leis de segregação. Porém, o filme de Dee Rees parece querer explorar o sofrimento e tenta equilibrar o nível de pobreza destas famílias como se realmente fosse algo justo. Infelizmente Mudbound erra ao inserir diversas situações cotidianas e sem amarrar linhas que pudessem construir algum valor.

Entretanto, é interessante como o filme dá voz para todos os personagens terem seus momentos de protagonismo e desabafarem sobre suas vidas. O destaque do filme fica para estreia de Mary J. Blige, indicada ao Oscar por Melhor Atriz Coadjuvante, nas telas e soube dar conta de Florence Jackson com grandiosidade, assim como Carey Mulligan que também merece o reconhecimento pela sua doce Laura. Mudbound  também foi indicado nas categorias de Melhor Canção Original, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia. Nota: 

Brooklynn Prince vive sem freios e filtro em Projeto Flórida

E literalmente eu encerrei a maratona Oscar com Projeto Flórida, de Sean Baker, que experimentou a mesma ideia de Boyhood – Da Infância à Juventude ao ligar a câmera e deixar acontecer. Me encantei pela naturalidade crua de uma comunidade pobre que tenta pagar o aluguel de um motel barato de beira de estrada e que não possuem grandes sonhos na vida. Mas apesar das dificuldades, os personagens estão pouco se preocupando com estas dores e tentam levar numa boa as adversidades e também as reclamações do gerente Bobby (Willem Defoe). O ator carrega um carisma natural devido a história, mas nada que justifique uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator, a única indicação do filme na premiação.

Ao contrário de Boyhood, eu gostei do filme por causa da espontaneidade das crianças, porque por mais que você se irrite com o comportamento delas ao mesmo tempo compreende o contexto daquele lugar. Moonee (Brooklynn Prince) vive tão a solta quanto a própria mãe Halley (Bria Vinaite) e por isso vive cada segundo com intensidade como se o mundo fosse um parque de diversões. Mas claro que não é sob aquela visão de criança fofa e ingênua. Moonee não tem filtros, briga e é tão temperamental quanto a sua mãe, uma adolescente tão infantil e sem educação quanto a sua filha. Claro que não demora para que diversas consequências dos atos desta família desfuncional acabem surgindo e encerrando esta temporada de férias das duas. Apesar de desnecessária tamanha duração do filme, Projeto Flórida mela demais o seu final ao pular de uma realidade tão forte e quebra toda uma sintonia para uma fantasia sem noção. Nota: 

Trama Fantasma ★★

Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson, encerra a temporada de estreias no Brasil dos filmes candidatos ao prêmio principal do Oscar. O longa que marca, por enquanto, a despedida de Daniel Day-Lewis dos cinemas, chega discretamente no circuito nacional trazendo a história do renomado estilista britânico, Reynolds Woodcook, que veste importantes nomes da elite e da realeza europeia. Certo dia, ele conhece e se interessa por Alma (Vicky Krieps), uma simples mulher, mas que acaba se tornando a sua inspiração e modelo favorita. O relacionamento do casal avança entre brigas e vestidos, e o filme não oferece muito além deste caminho um tanto perturbador.

Quem vai esperando que Trama Fantasma seja sobre os bastidores da moda britânica nos anos 1950 sairá muito decepcionado das salas de cinema. A história inicia seduzindo com o clima elegante que apenas Londres poderia proporcionar e logo engatamos neste inocente romance protagonizado por Reynolds e Alma. Tudo sob supervisão da irmã do estilista, Cyril (Lesley Manville), que cuida da vida pessoal da mesma forma que os negócios do irmão.  Se por um lado, o relacionamento dos protagonistas começa a desmoronar, por outro, parece que é justamente isto que vai unir eles novamente. O casal retrata, perfeitamente, uma relação monogâmica convencional e antiquada visto que Alma se dispõe inteiramente submissa ao companheiro que não esconde a sua irritação com o passar dos anos. Mas para não perder o posto de Senhora Woodcook, a jovem se submete a planos sacanas apenas para não se dar por vencida nesta disputa de quem é mais teimoso neste casamento.

Daniel Day-Lewis escolheu, novamente, mais um filme em que ele apresenta um papel com ar de superior em um ritmo lento. Perfeccionista, o estilista se considera um solteiro invicto e possui diversas armas de sedução que mais parecem conselhos do seu tio-avô, mas que de certa forma, se torna carinhoso nestes momentos. Infelizmente, é difícil enxergar um motivo desafiador que o tenha inspirado a escolher este personagem para ser o seu último nas telas. Já Vicky Krieps se transforma com o desenrolar do drama, mas que em nenhum instante, ela perde o seu olhar angelical. Mesmo quando resolve mostrar que a sua aparência engana. Mas não chega nem perto do grande destaque do longa que fica para Lesley Manville, que nos proporciona um show de talento com sua seriedade e ironia como a terceira integrante naquela casa.

Trama Fantasma parece ter esta proposta de trazer antiguidades em pauta seja em termos de roupas, cultura ou simplesmente, em relacionamentos. Mas tamanha oscilação de humores e opções que a história apresenta em cena, acaba oferecendo um filme esnobe e fraco para ser aprovado na sua prova final.

Phantom Thread | Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson | Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville | Gênero: Drama e Romance | Nacionalidade: Estados Unidos | Duração: 2h10min