Mormaço inspira resistência urbana de forma poética

Marina Provenzzano é Ana em Mormaço

Nunca a mensagem de resistência foi tão importante. Em Mormaço, filme de Marina Meliande, exibido primeiramente no Brasil no 46º Festival de Cinema de Gramado, uma simples pergunta coloca em reflexão sobre a transformação de uma cidade. “Você percebeu que a cidade está desaparecendo?”, questiona Ana (Marina Provenzzano). São nestas simples deixas de “Mormaço” que o filme desabrocha.

Na história, conhecemos Ana, uma defensora pública que dedica o seu trabalho na luta ao lado dos moradores da Vila Autódromo, uma comunidade pobre do Rio de Janeiro, que sofre ameaça de remoção para a construção de projetos voltados para as Olímpiadas. Ao mesmo tempo, a personagem também vive assolada pela mesma situação em seu prédio na Copacabana, zona Nobre carioca, para um empreendimento hoteleiro. O estresse acaba se manifestando no corpo de Ana, que desenvolve uma doença misteriosa que resulta em uma forte transformação corporal.

O filme da diretora Marina Meliande pode ter diversas interpretações, mas a força dele está explicitamente no fator político. A diretora construiu uma simbologia poética em cima de dramas reais que acontecem no nosso cotidiano e tampouco é discutido. O que poderia ser um simples longa com dramas sociais transforma-se fantasticamente no gênero de horror ao depositar toda a energia negativa da situação na no físico da personagem Ana.

Marina Provenzzano empresta o corpo e o psicológico para compor esta protagonista de maneira firme e ao mesmo tempo doce. O filme caminha no ritmo do trabalho de Marina, que começa sutilmente e logo em seguida vira o próprio caos. A atriz transparece em cena todo o sofrimento que a personagem descarrega no próprio corpo. Assim como Sandra Maria, que interpreta Domingas, moradora da Vila Autódromo, e participa do filme emprestando a sua história. Ela revive e dá o toque realistíco de um horror que é uma situação de despejo.

Mormaço puxa a fantasia para contar uma história carregada de dramas que acontecem diariamente, especialmente nas grandes metrópoles. A mensagem do filme é importante para reforçar e inspirar o ato de resistência para aqueles que precisam. Em Porto Alegre, o filme está em cartaz no CineBancários.

Em agosto do ano passado, eu cobri o 46º Festival de Cinema de Gramado pelo Correio do Povo e entrevistei a equipe de Mormaço. Confere aí:

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Guava Island critica, diverte e sonha sucessivamente

Rihanna e Donald Glover dividem divinamente a cena em Guava Island

No livro Como ver um filme, da jornalista Ana Maria Bahiana, a escritora escreve sobre como passar do estágio de plateia passiva para a que colabora com os realizadores acrescentando ao filme sua percepção. Compreendendo por que está vendo o que está vendo (e não outra coisa), nesta cena (e não em outra) e com estes sons (e não outros ou nenhum). E com isso, tendo uma experiência prazerosa e inteligente com um filme.

Com estes ensinamentos de Bahiana, Guava Island preenche estes requisitos sucessivamente. O filme dirigido por Hiro Murai – o mesmo que dirigiu o fortíssimo This Is America de Donald Glover – repete a parceria com o ator e cantor neste filme produzido e disponível online pela Amazon Prime. Aqui, o cineasta consegue exibir em apenas 55 minutos o que realmente quer dizer, mostrar e cantar ao público.

Guava Island é facilmente digerível, espirituoso e crítico. Em quase uma hora, o longa dispõe de uma contextualização rápida e simpática sobre a região pobre em que se passa, os pouquíssimos personagens são bem desenvolvidos e objetivos sobre a sua história e o conflito principal, apesar de simples, é simbólica demais.

Um festival de música é o grande sonho do músico entusiasta Deni Maroon (Glover), que ama a sua comunidade e quer dar este simples lazer aos seus companheiros – que é explicado tanto nos diálogos quanto nas performances musicais – que pouco desfrutam deste momento que é considerado um luxo para a maioria. A ousadia que se entrelaça com a ingenuidade de Deni é o que exatamente conquista os seus “fãs”, que se unem junto ao protagonista, a este protesto contra Red Cargo (Nonso Anozie), o principal opositor do evento musical.

Por se tratar de uma localidade fictícia, a situação social é perfeitamente encaixável a nossa realidade. Especialmente à áreas mais pobres que dependem de alguma autoridade rígida e intimidadora. Por isso, é tão fácil aproximar-se e, claro, reconhecer esta história recheada de críticas econômicas que sabe onde está a raiz do problema, mas também entende que não há solução para o mesmo.

Se o personagem de Donald Glover é o sonhador com o a cabeça e o coração nas nuvens, a sua parceira em cena, Rihanna, que dá vida ao papel de Kofi Novia, é a pé no chão da história. No entanto, ela é a mesma que incentiva os projetos do par, ao mesmo tempo que tem aquela pontinha de realidade cravada no pé. A cantora, que tem apresentado boas performances, é consistente ao seu papel e entrega uma expressão e tanto na sequência final. Ela, por ser a mais descrente que este projeto do amado, é a que acaba tomando o ato para si liderando a mensagem principal do filme: que os sonhos, por mais inalcançáveis que sejam, podem se realizar de alguma maneira.

Por falta de um trailer oficial, deixo aqui uma das melhores cenas de Guava Island:

Rapidinhas: Os últimos filmes que gostei e os que não pretendo rever tão cedo

Brie Larson é Capitão Marvel

Voltando depois de uma longa pausa no Cine Looou, estou de volta com uma lista com rápidos comentários sobre os últimos filmes inéditos que assisti entre os meses de março e abril. Escrevi em ordem de preferência. Começando com um blockbuster que merece ser visto por todos, especialmente entre as meninas, até o último filme do post do qual não espero assistir novamente tão cedo. Bora lá?

Capitã Marvel: Desta última seleção de filmes que assisti, Capitã Marvel é a minha preferida disparada. A estreia da super-heroína da Marvel entendeu os tempos que estamos vivendo e conseguiu transparecer todo o diálogo de empoderamento e independência feminina da atualidade. O grande momento do filme está, exatamente, quando a protagonista encontra forças no único lugar possível: dentro de si. E o mais incrível é que o longa da dupla Anna Boden e Ryan Fleck fugiu dos esterótipos possíveis e entregaram uma história boa, divertida, emocionante e animada. Além de que Brie Larson superou todas as expectativas que tinha e já é a minha vingadora favorita. Junto com Pantera Negra, Capitã Marvel é a prova de que representatividade importa. Se enxergar na tela importa. E quando vem com respeito junto, é só amores.

Nós vai te deixar maluco

Nós:  Depois de Corra, a expectativa para o novo filme de Jordan Peele, que parece estar se especializando no gênero Suspense/Terror, era grande. Sucessivamente, Nós surpreende tanto pela trama quanto pela atuação de Lupita Nyong’o. A atriz é a alma desse filme e é visível a dedicação em cima deste trabalho complexo. Nós pode ter o clássico tempero do suspense, mas o que assusta mesmo é o nó que ele dá na cabeça pós-sessão. E isso é incrível!

Eva Melander está incrível em Border

Border: O longa de Ali Abbasi tem todos os elementos para ser considerado esquisito e arrancar narizes torcidos dos mais puritanos. No entanto, Border fala muito sobre identidade, gênero e o ser humano. Eva Melander dá vida a Tina, uma policial da alfândega que se sente deslocada socialmente devido ao seu físico grotesco, para ser mais exata. Com ele, a personagem conhece a sua origem e entende que ser diferente, é ser especial entre os outros. Afinal, ela possui características únicas. E por causa disso, Tina se liberta de tentar se encaixar no mundo dos outros e passa a ter mais consciência e prazer em ser o que é. No entanto, tudo isso ocorre depois de alguns contratempos e revelações, este filme é cheio deles, que acontecem ao seu redor. O filme vale muito a pena.

Lucas Hedges em mais uma ótima performance em Boy Erased

Boy Erased – Uma Verdade Anulada: O filme de Joel Edgerton tem uma temática polêmica, que é sobre a cura gay que ainda insistem em pregar, e o diretor sabe conduzi-la de forma equilibrada entre o emocional e o racional. Com Nicole Kidman, Russell Crowe e Lucas Hedges no elenco, Boy Erased trata de uma história complicada e para os mais sensíveis, é possível arrancar lágrimas e incredulidade com o que estes tratamentos são capazes de fazer com um ser humano. É fácil ter empatia com esta história, especialmente pela aproximação que o jovem tem com os pais, como os fatos são narrados, e como as violências são retratadas. A escolha do diretor por uma narrativa clássica e até com diálogos mais do mesmo, pode irritar alguns, mas é compreensível por não dar tanta ousadia a uma história que choca por si só.

Timothée e Steve esbanjam dramaticidade em Querido Menino

Querido Menino: A união entre Timothée Chalamet e Steve Carell não poderia acontecer em qualquer filme. Com direção de Felix Van Groeningen, o mesmo do terrivelmente maravilhoso Alabama Monroe, o foco aqui é sobre o vício nas drogas e a batalha pela sobriedade. A dramaticidade que a dupla de atores imprime na tela é devastadora. Se o personagem de Timothée sofre mais fisicamente, e com isso é mais explícito para o público, Steve consegue dizer tanto apenas com o olhar, com o tom das palavras e com o sentimento esperançoso de um pai. No entanto, a única coisa que me incomoda em Querido Menino é não conseguir abraçar tanto são as causas que levaram Nic (Timothée) a ser viciar em metanfetamina, especialmente aos privilégios materiais e familiares que possui. Entendo que cada um possui suas batalhas internas, mas enfim…

Natalie Portman não brilha tanto como deveria em Vox Lux

Vox Lux – O Preço da Fama: O filme de Brady Corbet foi o maior desperdício de tempo que tive. Se tem algo que eu gosto é de histórias com músicas e quando envolvem uma pop star fictícia cheia de brilho, meu coração ferve. Mas, infelizmente, este drama musical estrelado e produzido por Natalie Portman não possui objetivos, forças e muito menos simpatia. A primeira parte do longa é bem construída, tem um clima nostálgico e sabe usar fatos da realidade a seu favor. Porém, o seu desenvolvimento não empolga e perde a química vista anteriormente. Vox Lux perde-se em clichês sobre ego de artistas, críticas óbvias sobre a indústria da música e dramas entre famílias. Uma pena. Queria muito gostar deste filme. O look de Natalie Portman no show final é de chorar.

“Shazam!” sai da escuridão e brilha com a sua personalidade

Foi preciso uma palavra mágica para reanimar o fôlego da DC Comics nos cinemas. Shazam! estreia nesta quinta-feira nas salas brasileiras trazendo um novo suspiro aos super-heróis do estúdio com esta história leve e jovial. Ao contrário do que estávamos acostumados com a assinatura sombria de Zack Snyder, que passa bem longe daqui, o longa dirigido por David F. Sandberg aposta em uma pegada mais descontraída, mas sem deixar a essência do universo dos quadrinhos.

Shazam! acerta bastante por ter este desprendimento com a seriedade e se diverte com o que tem em mãos. O diretor parece ter dado a permissão para que DC Comics também fosse engraçada com o personagem certo para a ocasião. Mesmo que haja uma melancolia característica da marca, Sandberg não perde tempo nestas questões e busca maneiras de superar os traumas familiares de seus personagens centrais. A única fraqueza, no entanto, continua sendo a formação dos vilões. Como é o caso do Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong). O antagonista não intimida e não possui um superioridade que convença da sua “malvadeza” e muito menos das suas motivações. Assim como ocorre com os monstros que o acompanha e executa as suas ordens: beiram ao cafona e obviedades.

Quando Billy Batson (Asher Angel) se transforma em Shazam o filme ganha personalidade, especialmente pela escolha de Zachary Levi para o papel. Ele caracteriza exatamente a alegria de uma criança em uma versão adulta enquanto desbrava os seus super-poderes. Ao lado de Freddy (Jack Dylan Grazer), Shazam tem os seus melhores momentos em cena. O restante do elenco jovem também possui uma sintonia muito forte, o que só comprova a boa direção de atores. A pequena Faithe Herman, que dá vida a Darla Dudley, é quem chama atenção pelo carisma e habilidade singular de segurar uma cena.

“Shazam!” segue a narrativa tradicional dos filmes de origem de super-heróis e propõe uma boa sessão de entretenimento para todos os gostos. Apesar de não possuir nenhum diferencial, o longa destaque-se pela mensagem de que há um super-herói dentro de todo mundo e que não tem nada de errado em se divertir.

• Texto escrito originalmente para o site do Correio do Povo

Nota: ★★★

É impossível não se encantar por Julianne Moore e Gloria Bell

Julianne Morre se diverte e se liberta em Gloria Bell

Julianne Moore está mais radiante do que nunca em Gloria Bell, filme dirigido pelo chileno Sebastián Lelio, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. A atriz toma conta e brilha nesta refilmagem, lançado pelo próprio Lelio em 2014 sob título de Gloria, em que dá um novo rumo e inspiração para a vida depois dos 50. No longa, Julianne é Gloria, uma mulher solteira e de espírito livre, que ocupa suas noites em boates para adultos em Los Angeles. Sua rotina, que envolve trabalho, filhos e um vizinho perturbado, muda no dia em que conhece Arnold (John Turturro), recentemente divorciado e com quem se envolve intensamente.

Gloria Bell poderia cair na mesmice de uma comédia romântica sobre uma mulher que descobre a vida depois de certa idade, mas o longa se sobressalta ao mostrar que o autoconhecimento fala mais alto quando as armadilhas da solidão são insistentes. Gloria é uma personagem confiante e assume, sem problemas, a sua vida solitária – da qual ela se orgulha e se diverte bastante. Solidão não é o problema. No entanto, a protagonista também não se fecha no momento em que alguém novo surge. E aí a história se torna empolgante, mas também frustrante quando o par não está na mesma sintonia.

O filme acerta exatamente por ter esses contrastes de personalidades e o modo como cada um lida, não só com o relacionamento, mas com as vidas pessoais. Gloria Bell parece ter sido feito, especialmente, para refletir o quanto a masculinidade é frágil diante de figuras femininas fortes. Como, por exemplo, Dustin (Brad Garretto), ex-marido de Gloria, que se exalta em momentos nostálgicos em família, e também com o filho da protagonista, Peter (Michael Cera), que mostra-se constantemente nervoso quando é questionado sobre a sua esposa, que viajou para se encontrar e o deixou tomando conta do filho recém-nascido. Além de Arnold, uma pessoa insegura em diversas esferas.

O diretor Sebastián Lelio, premiado em 2018 com Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Uma Mulher Fantástica, não teria motivos para refilmar o mesmo trabalho em tão pouco tempo, mas é impossível não se encantar igualmente por esta produção assinada pela Julianne Moore. A atriz se joga neste papel que expressa a autoconfiança feminina. Principalmente por se tratar de uma personagem que se aproxima dos 60 anos e exalta a sua vida – ao contrário do que espera-se quando se atinge determinada idade. “Gloria Bell” é inspirador e mostra que não há limites para continuar amando, se divertindo e se conhecendo.

Nota: ★★★★

Deixando Neverland é um caminho sem volta

Diretor Dan Reed acompanhado de Wade Robson e Jimmy Safechuck

Deixando Neverland não é um filme fácil. O documentário produzido pela HBO e dirigido por Dan Reed traz depoimentos de Wade Robson e Jimmy Safechuck, dois homens que afirmam terem sido abusados sexualmente durante a infância por Michael Jackson entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990. Se, inicialmente, o primeiro pensamento é de oportunismo da dupla, no decorrer do filme, as fichas começam a cair. Pelo menos, para mim, Michael Jackson nunca mais será o mesmo.

Primeiramente, Deixando Neverland não chega para descredibilizar o legado musical de Michael Jackson e em nenhum momento este mérito lhe é tirado. O longa é dedicado a ouvir o depoimento destes dois rapazes que sufocaram um terrível segredo por mais de 20 anos por acreditarem que a relação que tinham com o Rei do Pop era, definitivamente, amor. Dá para entender perfeitamente o envolvimento do cantor com as famílias de classe média baixa que se encantam com o mundo de conto de fadas que ele lhe proporciona em troca da “amizade” com os seus filhos, seus maiores fãs. A ingenuidade de se achar “especial” para alguém tão importante como Michael fez com que rapidamente tanto os pais quanto as crianças se corrompessem à Terra do Nunca.

Robson e Safechuck contam detalhadamente tanto as promessas gloriosas como oportunidades na carreira, dinheiro, viagens – o que era uma maneira de MJ comprá-los sob um disfarce de “bom sujeito” que quer ajudar o mundo – quanto os atos sexuais provocados pelo cantor. Além das manipulações que o mesmo fazia para que os meninos nunca revelassem o que faziam escondidos com a justificativa de que “os dois seriam presos” ou “seriam separados” e não poderiam contar nem para as próprias mães, pois mulheres não são confiáveis.

A família Robson se mudou da Austrália para os Estados Unidos por causa de Michael Jackson

Nisto, o filme capricha em alinhar os depoimentos explicando não só a linearidade com que as ações ocorriam, mas o padrão de comportamento, as rotinas dos encontros, as preferências de Michael em relação aos seus “amigos íntimos” e como isto era um círculo vicioso. Inclusive, um dos entrevistados recordou que nas “festas do pijama” em Neverland, ele sabia exatamente o que Michael estava fazendo quando sumia com outra criança. E sabe o que é o pior? Eles sofreram com a rejeição do artista quando o viam com outro menino, exatamente o que acontece conosco quando terminamos um relacionamento. Nem dá para imaginar a perplexidade que se passa na cabeça de uma pessoa com tão pouca idade nesta situação.

O diretor Dan Reed optou por poucos recursos para esta narrativa, utilizando apenas as entrevistas intercaladas com fotos, cartas, faxes e poucos vídeos de arquivo pessoal. O que evidencia que Deixando Neverland não tem vaidade e abre o espaço para que estas vítimas tenham respeitosamente o momento para contar as suas versões. O filme acredita nas falas dos rapazes. Contudo, o diretor optou por não encaixar a defesa de Jackson em meio a tantos testemunhos. O que intensifica o lado que acusa. Talvez tenha sido uma escolha fácil para evitar maiores incomodações, mas também não há nada que já não tenhamos ouvido dos advogados do artista desde 1993.

Jimmy viajou com Michael durante a turnê do álbum Bad

Deixando Neverland não tenta desvendar o psicológico de Michael Jackson. Esta é uma conclusão que apenas o espectador poderá tirar ao assisti-lo. Como fã, eu duvidava das acusações de pedofilia, mas a verdade é que eu não queria enxergar a verdade por se tratar de alguém que eu gosto. Porém, nós estamos em uma época de movimentos como #MeToo, em que finalmente está se perdendo o medo, então não dá mais para tapar os olhos em situações que envolvam pessoas que a gente acha que conhece. Nós não conhecemos ninguém. O documentário conclui exatamente isto. Michael podia ser um gênio da música, mas era uma pessoa doente. Não há o que justifique os seus atos. Muito menos também apontar os seus próprios traumas de infância.

Claro, há quem conteste de que não existem provas e que nem o FBI conseguiu encontrar nenhuma evidência nas investigações das acusações que terminaram nos tribunais em 1993 e 2003. Porém, Robson e Safechuck relembram como Michael era cuidadoso em não deixar rastros. Qualquer combinação era feita presencialmente e nunca por telefone ou cartas. E se eles não denunciaram antes, pense que uma criança tampouco tem conhecimento do que é sexo, como ela vai denunciar o que é abuso sexual? Dificilmente nos explicam isto quando pequenos, o que dirá depois de adultos.

Estamos em pleno 2019, até quando você vai continuar duvidando não de uma, mas de várias pessoas acusando o mesmo indivíduo de tais crimes só porque não tem provas concretas, nem vídeos, nem mensagens e nem a roupa que estava usando. A desconstrução de não culpar uma vítima precisa ser constante e não esquecida só porque trata-se de um “mito”.

Fotos de arquivo pessoal ajudam na narrativa de Deixando Neverland

Portanto, Deixando Neverland tem este desafio de ajudar o espectador a tentar entender a vítima silenciada pelo seu ídolo, dos conflitos internos com as lembranças, dos problemas de saúde que os traumas provocaram, compreender o que de fato é abuso sexual e o longo processo de aceitação de que o período mais importante da vida lhe foi roubada.

Poxa seu Oscar, assim não dá para te defender!

Green Book foi o principal vencedor do Oscar 2019

Depois de uma cerimônia cheia de conquistas históricas, a vitória de Green Book – O Guia só representa que o Oscar pode ter avançado em diversas questões, mas deu dez passos para trás com a última estatueta da noite. Para começar, perceba a expressiva presença de homens brancos para receber o prêmio de Melhor Filme de uma história que trata sobre racismo. Apenas duas pessoas negras estão no palco: Mahershala Ali, que inclusive levou prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pelo mesmo filme, e Octavia Spencer, uma das produtoras.

Uma das alegrias da noite: a vitória de Spike Lee

Ao contrário de Infiltrado na Klan, que critica o preconceito racial enraizado, e Pantera Negra, que empodera a cultura negra, Green Book – O Guia é uma fórmula pronta de “sessão da tarde”, por isso que agrada a maioria. Mas é uma armadilha. Tratar como entretenimento um tema que protesta por respeito e igualdade demonstra completa alienação das mudanças que estão acontecendo.

Tudo bem que é uma reprodução de uma época diferente de hoje, mas por que escolher um homem branco para protagonizar? Por que homens brancos são roteiristas e dirigem um longa, do qual, eles não possuem “lugar de fala”? O filme não reflete os problemas sociais e não aponta estes erros e maquia um final feliz para aliviar a culpa histórica com os negros. O que parece ter sido a escolha pacífica, só mostra que a Academia precisa continuar insistindo na “desconstrução” e não empacar no meio do caminho.

Ruth e Hannah com os seus merecidos prêmios

Apesar do desabafo inicial, a cerimônia do Oscar foi uma das mais objetivas graças a ausência de um anfitrião e focado no que mais interessa: a entrega das estatuetas. A introdução feita pelo trio afiado de Bruna Thedy, Amy Phoeler e Tina Fey foi um dos pontos alto e mostra que qualquer uma das comediantes segurava fácil a apresentação oficial da noite. Além disso, o Oscar acertou com a sua distribuição de prêmios. Esta foi a primeira edição no qual duas mulheres negras foram consagradas, em 91 anos de premiação, em duas categorias: Melhor Figurino e Melhor Design de Produção para Ruth E. Carter e Hannah Beachler, respectivamente.

E não para por aí. Estes prêmios foram decorrente do trabalho em Pantera Negra, o primeiro longa de super-herói (e o primeiro super-herói negro no cinema) indicado a Melhor Filme e, claro, é o primeiro da Marvel na categoria. Outros destaques merecidos da noite são: Mahershala Ali realizou outro feito ao ser o primeiro negro premiado duas vezes na categoria Melhor Ator Coadjuvante; Spike Lee conquistou o seu primeiro Oscar, assim como foi a sua primeira indicação na carreira, fez um ótimo discurso e deu as costas quando Green Book foi premiado, e Lady Gaga e Bradley Cooper reproduziram a essência de Shallow, de Nasce Uma Estrela, e protagonizaram o momento mais romântico da noite.

Alfonso Cuarón com os três Oscars de Roma

Temos também a consagração de Roma, que apesar não levar o prêmio principal, ainda assim saiu vitorioso. Não só pelo número de prêmios, mas pelo seu simbolismo tecnológico e social. Batizado pela Netflix, o filme representa um novo caminho para o consumo de obras audiovisuais e assim conquistarem mais um meio de produção, exibição e inclusão.

E o diretor mexicano Alfonso Cuarón marcou ainda mais o seu território ao levar o Oscar de Melhor Direção pela segunda vez e receber a honraria do conterrâneo Guillermo del Toro. Este é um auge incrível ao perceber que, nos últimos cinco anos, este prêmio foi parar em mãos mexicanas: Cuarón por Gravidade (2014), Alejandro González Iñárritu por Birdman e O Regresso (2015 e 2016) e del Toro por A Forma da Água (2018). Onde está seu muro agora, Donald Trump?

Confira a lista completa dos premiados

Melhor Filme: Green Book: O Guia
Melhor Direção: Alfonso Cuarón – Roma
Melhor Atriz: Olivia Colman – A Favorita
Melhor Ator: Rami Malek – Bohemian Rhapsody
Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King – Se a Rua Beale Falasse
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali – Green Book: O Guia
Melhor Roteiro Original: Green Book: O Guia
Melhor Roteiro Adaptado: Infiltrado na Klan
Melhor Filme Estrangeiro: Roma (México)
Melhor Documentário: Free Solo
Melhor Animação: Homem-Aranha no Aranhaverso
Melhor Trilha Sonora: Pantera Negra
Melhor Canção Original: Shallow – “Nasce Uma Estrela
Melhor Edição: Bohemian Rhapsody
Melhor Design de Produção: Pantera Negra
Melhor Fotografia: Roma
Melhores Efeitos Visuais:O Primeiro Homem
Melhor Figurino: Pantera Negra
Melhor Maquiagem e Penteado: Vice
Melhor Mixagem de Som: Bohemian Rhapsody
Melhor Edição de Som: Bohemian Rhapsody
Melhor Curta-Metragem: Skin
Melhor Curta-Metragem de Documentário: Period. End of Sentence
Melhor Curta-Metragem de Animação: Bao